A vitória do DesimpaiN na temporada de 2026 da Kings League Brasil sacramenta de vez a junção entre o universo dos jogos digitais e dos esportes eletrônicos com o esporte tradicional – neste caso específico, o futebol de 7. Formado após a união entre a organização paiN Gaming e a equipe do canal Desimpedidos, o time venceu na segunda-feira (18) o G3X do streamer e influenciador Gaulês, conhecido pela atuação no cenário de Counter-Strike.
O DesimpaiN foi o dono da melhor campanha da primeira fase do campeonato, com apenas uma derrota, justamente para a G3X, ainda na fase regular. Na grande final, o DesimpaiN venceu o G3X FC por 2 a 1 na disputa de shootouts após um empate no tempo normal. Mas nem de longe esses são os únicos times relacionados aos games na versão brasileira da competição, criada na Espanha em 2022 pelo ex-jogador Gerard Piqué.
Por aqui, estiveram na temporada desse ano a FURIA FC (campeã da temporada passada), extensão direta da FURIA, uma das mais bem-sucedidas organizações de esportes eletrônicos do Brasil; o Fluxo FC, relacionado à organização dos ex-pro players Nobru e Cerol, de Free Fire; a LOUD SC, da LOUD, uma das marcas mais populares dos eSports na América Latina; e o Nyvelados, liderado pela streamer e apresentadora Nyvi Estephan; além do Dendele FC (dos streamers Paulinho o Loko e Luqueta) e Capim FC (presidido por Jon Vlogs).
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Um componente importante da Kings League é justamente a “bagunça” criada pelos times de influenciadores relacionados a cada um dos times. É deles que vem, segundo eles próprios, as narrativas e rivalidades da competição – boa parte delas importadas do mundo dos games. No Brasil, a Kings League é comanda pela startup espanhola Kosmos, fundada por Piqué, e pela agência brasileira NWB, dona do canal Desimpedidos, entre vários outros.
“… acho que é mais sobre se reconectar com uma galera que não está mais tão interessada só em jogos eletrônicos, entende?”, me pergunta Giuliana ‘Caju’ Capitani, diretora de inovação da paiN Gaming e uma das responsáveis pelo título da DesimpaiN. Para ela, a inserção na nova modalidade é “… sobre ser o assunto do momento, ter conteúdo para postar, histórias para contar, fazer parte de uma coisa que está na boca do povo. E é furar a bolha, porque querendo ou não a gente está em uma bolha muito fechadinha nos games.”
O The Gaming Era foi convidado pela paiN a acompanhar uma das rodadas da Kings League, no fim de abril, quando conversamos com a Caju. Confira a seguir os melhores momentos da conversa.
The Gaming Era: Você assumiu no meio do ano passado a diretoria de inovação da paiN. Essa vitória da Kings League Brasil é a primeira grande iniciativa da área? Que outras missões você tem no cargo?
Giuliana ‘Caju’ Capitani: Eu conversei com a paiN durante uns dois anos até de fato assinar um contrato. Eu sou meio híbrida, né? Ao mesmo tempo que trabalho com a minha imagem como influenciadora também tenho muita experiência nisso de fomentar a comunidade. Eu estou no mercado desde 2013, então são anos envolvida. Eu acho que consigo entender o que agrada, as expectativas do público.
E a Kings League tem um potencial muito grande de “hype”, de visibilidade. Então fizemos um acordo em que eu contribuiria com a paiN buscando entender o que a comunidade espera, onde a organização poderia entrar. Esse foi um dos primeiros projetos que estudei, assim que assumi o cargo.
E o meu marido [Lucas Gagliasso, o Luqueta] já tinha o time dele, né? (Risos). Ele é o presidente do Dendele FC. E eu já estava acompanhando a Kings League desde o começo, as primeiras conversas, o que estava rolando. Tínhamos bastante contato com a galera. Assim que assumi [o cargo de diretora] rolou um mundial de Kings League e eu falei: “Cara, já vou estudar e entender como é que a gente consegue entrar”.
Acredito que sim, [a Kings League Brasil] foi o meu primeiro grande projeto dentro da paiN, e está dando muito certo. Antes disso chegamos a entrar no cenário de GTA RP competitivamente, mas em nível de grandiosidade esse projeto com a Kings está sendo muito mais exigente. Já começamos em um cenário extremamente relevante, então a exigência é muito maior.
Acho que ambos [paiN e Desimpedidos] viemos com essa pegada de inovar e, principalmente, nos reconectarmos com o público que perdeu essa conexão ao longo do tempo. Seja porque [o público] cresceu, ou porque os gostos mudaram.
TGE: A próxima pergunta é justamente essa. De onde vem essa conexão entre o público da paiN nos games e na Kings League? São audiências que se conversam?
Caju: Posso usar eu mesma como exemplo. Eu jogava muito League of Legends, amava acompanhar LoL e tudo mais. A partir de certo momento virei mãe, me afundei no trabalho, não tenho nem tempo mais de jogar. (Risos). Então virou um jogo que não consigo acompanhar como antigamente. E imagino que muita gente que, assim como eu, cresceu com o jogo e passou a não poder mais.
Já Kings League é futebol. Um negócio que está na raiz do brasileiro. Meu filho está crescendo com a cabeça no Flamengo. Então é um negócio que vem desde que nascemos.
E eu acho que a maior preciosidade da Kings League é que ela vem para unir gerações. A geração mais nova não tem paciência para ver futebol como a geração anterior, porque ela nasce em uma época de TikTok, de vídeos rápidos, de informação rápida. Então vemos muitas crianças e até mulheres começando a gostar mais de futebol por conta da Kings League.
TGE: E o League of Legends por mais que já dure mais de uma década não vai durar para sempre. É esse o raciocínio?
Caju: Não acho que seja sobre isso. League of Legends segue como o jogo mais jogado do Brasil. Então, por mais que a gente esteja crescendo, tem uma geração nova chegando. O Dota que veio antes segue gigantesco, Counter-Strike também, então acho que é mais sobre se reconectar com uma galera que não está mais tão interessada só em jogos eletrônicos, entende?
TGE: E como é o arranjo entre paiN e Desimpedidos, Caju? Como se deu o acordo e quais as responsabilidades de cada um no time?
Caju: Cada um tem suas atribuições definidas. Na Kings League é tudo fechado, nenhum time novo simplesmente entra. Se algum time quiser sair, precisa conversar com a liga e alguém entra no lugar. Como foi com o Real Elite e o Dibrados FC. O combinado com a liga é que quem tem time precisa ficar três anos.
Então entendemos que a paiN só entrar não ia rolar, que precisávamos de uma conexão com alguém. Então tínhamos que ter uma conexão com alguém que fazia sentido. Até que o André [Barros, co-CEO da NSports e da NWB] viu o documentário da paiN Gaming e percebeu que a nossa história era muito parecida, que ambas as organizações tinham ídolos e queriam se reconstruir, inovar, trazer essa comunidade antiga de volta. E deu esse “match”.

E sobre quem cuida do que, é muito bem definido. Eu diria que a paiN entra com a torcida, e com um histórico de rivalidades, porque temos anos e anos no cenário. Então a gente chegou com a rivalidade com FURIA, LOUD, Fluxo… A rivalidade conta muito por que engaja, cria narrativas. Antes o Desimpedidos não tinha isso. Quem era o grande rival? Não tinha.
Mas eles estudaram muito essa parte mais técnica do jogo. Então acho que cada um contribuiu com uma parte e deu um match muito bom.
TGE: E qual o balanço a paiN faz da participação na Kings League, Caju. Os resultados esportivos são inquestionáveis, mas e nos demais sentidos?
Caju: Tudo muito acima das expectativas. A gente chegou como um de dois times novos, e o mais hypado mesmo no começo do campeonato era o Dibrados. Então meio que a gente estava ali em segundo plano, ninguém botando a gente como favorito. Ninguém tinha expectativa.
E a gente fez um show muito bonito. Nas redes sociais, temos alguns dos perfis mais engajados. Foi a construção de uma história muito bonita, muito bonita mesmo.
TGE: E as marcas apoiadoras de vocês? Estão felizes com o resultado? Porque para eles, imagino, tudo também foi muito novo, certo?
Caju: Primeiramente deixo muito claro que ninguém está na Kings League para lucrar, não. (Risos) Acho que a Kings League vem muito para a comunidade. É sobre ser o assunto do momento, ter conteúdo para postar, histórias para contar, fazer parte de uma coisa que está na boca do povo. E é furar a bolha, porque querendo ou não a gente está em uma bolha muito fechadinha nos games. Então, é uma oportunidade de criar conexão, inclusive para as marcas fazendo ativações com a gente durante todo esse período.
O engajamento que vem é imenso. A gente conquista mais fãs, a deixa os nossos fãs antigos felizes também. E uma marca que chega em nós vê que estamos envolvidos em todos esses cenários além de LoL. É toda uma visibilidade. Então, resumindo, com certeza o lucro vem indiretamente. Mas também acho que a Kings League é um cenário muito novo, e estamos ainda tentando entender como as marcas podem ajudar ainda mais os times.



