Quem julga sem conhecer, apenas pela imagem jovial e a empolgação quase permanente de Rodrigo Coelho, o criador por trás do perfil Coelho no Japão, não faz ideia do tamanho da estrutura empresarial que ele criou em torno de si ao longo dos últimos anos. Apesar de não usar esse termo, Coelho é uma holding: além dos perfis de conteúdo pelos quais é conhecido em várias redes sociais – nas quais soma mais de 800 mil seguidores – e comunidades online dedicadas à Nintendo, ele lidera ou é sócio de uma série de projetos.
São, segundo ele, seis marcas. Há um site de notícias (os nossos colegas do Coelho News), a sociedade em uma publisher brasileira (a Nuntius) e em uma empresa de tecnologia (a Coelho Tech), além da cereja do bolo empresarial nintendista, o Nintendo Barato, serviço online que inclui grupos e canais de promoções e ofertas em aplicativos de mensageria, como o WhatsApp, o Telegram e o Instagram – e que se tornou a grande galinha dos ovos de ouro do criador. Somados, são mais de 180 mil usuários tentando pagar menos nos quase sempre muito caros produtos da Nintendo, especialmente para os brasileiros.
“Eu sempre fiz isso para mim mesmo. Eu via onde [os produtos da Nintendo] estavam mais baratos. E desde 2018 faço vídeos para ajudar as pessoas a pagarem menos. (…) Foi naturalmente virando um canal de afiliado quando percebi que o que eu fazia já existia e havia um jeito de ganhar dinheiro”, explica ele, em entrevista exclusiva ao The Gaming Era concedida por videoconferência direto do Japão, para onde ainda viaja com certa regularidade. “Como o dinheiro foi entrando, pude contratar mais pessoas e aumentar a qualidade do que eu fazia.”
Segundo o próprio Rodrigo Coelho, o Nintendo Barato gerou sozinho cerca de R$ 17,6 milhões em vendas para varejistas parceiros entre julho e setembro de 2026, período da euforia gerada pela pré-venda dos produtos relacionados ao remake de The Legend of Zelda: Ocarina of Time – que registrou quase 12 mil vendas atribuídas apenas nos canais do Nintendo Barato. Com a comissão que recebe, o criador/executivo sustenta um time que soma quase 20 pessoas, distribuídas entre todos os negócios do grupo.
LEIA TAMBÉM: América Latina é oásis de crescimento para Roblox, que segue em busca de mais criadores
“Eu não sei como consigo pagar todo mundo. É meio assustador chegar ao fim do mês e fazer os pagamentos. Mas todo mês dá certo. Tenho tudo bonitinho, e as coisas estão indo bem”, assegura Coelho, espantado com o próprio sucesso, mas com um sorriso no rosto.
E ele não está sozinho, claro. Boa parte dos grandes varejistas online e plataformas de vendas atuando no Brasil têm atualmente programas de marketing de afiliados com diferentes níveis de profundidade, e muitos criadores e veículos de imprensa tem apostado no modelo como uma forma de gerar receita em um cenário no qual número de seguidores não garante mais uma vida confortável. A ideia é organizar o bom e velho “boca a boca” e remunerar quem tem capacidade de gerar vendas.
Segundo estudo do Comitê de Creator Economy do IAB Brasil em parceria com a Offerwise com 1.512 brasileiros que acompanham criadores, 76% disseram já ter comprado algum produto após uma recomendação nas redes sociais. Ou seja, há uma relação de confiança estabelecida entre influenciadores e criadores com o consumidor brasileiro que raramente uma plataforma sem rosto consegue alcançar, e que vem sendo crescentemente explorada em termos comerciais.
As regras desse tipo de parceria variam bastante conforme a plataforma, e a remuneração gira entre 6% e 9%, dependendo do varejista, da categoria do produto e da época do ano. Mas o segredo, ao menos para Coelho, é saber ganhar a confiança de uma comunidade específica e servir a um propósito, não apenas gerar uma “enxurrada” de ofertas sem critérios.
O modelo deu tão certo que Coelho criou um grupo parecido para produtos do console da Sony – o PlayStation Barato – e começou a prestar serviços do tipo, com a Coelho Tech, para outras empresas e criadores de conteúdo.
Confira a seguir os melhores momentos da conversa que tive com o Coelho do Japão por videoconferência:
The Gaming Era: Quantos negócios você opera ou está inserido hoje?
Rodrigo Coelho: São seis marcas dentro do meu “chapéu”. E uma sétima que não é exatamente uma marca. Tem o Coelho no Japão, que sou eu, para falar da minha vida, as coisas que eu gosto, onde começou essa coisa toda de Nintendo. É onde eu reúno conteúdo “lifestyle”, minha forma de aproveitar os games. Eu ainda sou aquele nintendista que usa camiseta [da Nintendo].
E depois tem o Coelho News, que é o jornalismo, equipe de redação com jornalistas, o manual de redação, isso tudo. E tem o Nintendo Barato, que é um serviço pra ajudar a comunidade a tomar decisões de compra e pagar menos.
Tem o Coelho Awards, que todo fim do ano fazemos e é um momento grande para a comunidade. Juntamos o máximo de pessoas que falam de Nintendo para participar, estúdios brasileiros para anunciar coisas etc. É um evento de comunidade mesmo.
E tem a Coelho Tech, que não aparece muito, mas que é uma empresa de tecnologia, sociedade entre mim e a DoubleD Venture. Fazemos soluções que atendem o modelo de negócios que criei para a minha empresa. Temos ferramentas para afiliados, publicação de matérias no site, para meu time responder dúvidas das pessoas nos comentários etc.
Temos a Nuntius, uma publisher em que pegamos jogos nacionais e internacionalizamos. Fazemos o marketing, relações públicas etc, e alcançamos outros mercados, como EUA, Europa e China. Essas são as seis principais marcas.
E temos o Discord, que não leva meu nome, mas é comunidade Nintendo Brasil Online com mais de 30 mil pessoas. É um espaço autogerido que ajuda a aproveitar melhor seu videogame. Onde as pessoas se encontram para trocar ideias, fazer gincanas, jogar Mario Kart juntos, dividir o plano Nintendo Switch Online. Todas essas coisas que não geram receita, mas levam as pessoas para dentro do ecossistema, a boca do funil, que é ver os vídeos no canal e descobrir os grupos.
TGE: E como começou essa operação dos grupos? Como você percebeu que seria um negócio?
Coelho: De verdade mesmo, minha ideia sempre foi ajudar a comunidade. Eu sempre fiz isso para mim mesmo. Eu via onde [os produtos da Nintendo] estavam mais baratos. E desde 2018 faço vídeos para ajudar as pessoas a pagarem menos. O Nintendo Barato começou com as recomendações do canal, como um site que criei para colocar os links mais baratos. E isso foi naturalmente virando um canal de afiliado quando percebi que o que eu fazia já existia e havia um jeito de ganhar dinheiro com isso.
LEIA TAMBÉM: Bruno Niro: Gamers Brawl quer ter mais 10 títulos no ecossistema até 2027
Com os links da Nuuvem que eu já recomendava, não ganhava nada. E a Nuuvem já contava com cashbacks, cupons etc. Então passei a compartilhar o link de afiliados. Mesma coisa no site. Passei a me cadastrar em cada uma [das plataformas varejistas] e trocar os links. Como o dinheiro foi entrando, fui podendo contratar mais pessoas e aumentar a qualidade. Foi um processo muito natural de passar a ganhar com isso, e fazer mais. E hoje vivo disso, várias pessoas também.
TGE: Quantas pessoas ao todo trabalham com você atualmente e quantas se dedicam ao Nintendo Barato?
Coelho: É um pouco difícil separar. Algumas pessoas estão em múltiplas partes do processo. Se eu for separar hoje temos umas seis pessoas [no Nintendo Barato], incluindo eu e outros agregados. Contando tudo são 19 pessoas que pago mensalmente, algumas frilas. Recentemente entraram mais duas [pessoas] que estou treinando para ajudar em momentos muito atribulados.
Eu não sei como consigo pagar todo mundo. É meio assustador chegar ao fim do mês e fazer os pagamentos. Mas todo mês dá certo. Tenho tudo bonitinho, e as coisas tão indo bem. Eu realmente trabalho muito, mas é o que amo fazer. Eu não paro. Mas não reclamo, não falo de forma negativa, é o que escolhi.
TGE: Além do Nintendo Barato, que outros grupos de afiliados você gerencia? Você transformou isso em um negócio de gestão para terceiros.
Coelho: Sim. A gente toca o Low Games [do Flow Games], os grupos do Bilômetro, do BRKsEDU [o criador de conteúdo gamer Eduardo Benvenuti], do pessoal do Combo Infinito, da [loja] Gamer Hut, o Descontina da Martina Oliveira [criadora de conteúdo adulto]. Já chegamos a tocar os grupos da revista Placar por um tempo, até decidirem fazer outras coisas.
TGE: E quais os segredos desse tipo de negócio? É um modelo viável no longo prazo?
Coelho: É um negócio viável, mas muita gente não percebe que é um negócio. Então para fazer dar certo é preciso tratar como negócio. Muita gente tem os links [de afiliados] junto com projetos e isso gera ganhos, mas uma coisa é gerar ganhos e outra coisa é ter recorrência.

De modo geral funciona, porque é um “ganha-ganha”. As pessoas que me assistem também compram games, e se ela acompanha meu conteúdo e não está usando minhas redes para tomar uma decisão de compra, está usando a de outros. Então [o modelo] faz sentido. Se você fizer um bom trabalho de recomendar, elas vão comprar o que é útil.
Por que eu digo que é um negócio? Se você vai fazer um vídeo e colocar um link, ganha aquilo [comissão] uma vez. É muito diferente de ajudar a encontrar promoções recorrentemente, o que é um business. Você traz as pessoas para ajudá-las a tomar uma decisão de compra sempre. Não é só uma recomendação pontual. É um trabalho que demanda full time e comprometimento, não é só um link no vídeo.
TGE: Mas que cuidados são importantes para não estressar a comunidade?
Coelho: A gente trabalha com influência e a confiança das pessoas. Mesmo em época de grandes promoções, Dia do Consumidor, Black Friday, datas duplas, que são momentos de realmente muitas oportunidades boas. Mas no dia a dia a frequência de postagens diminui. Mesmo assim não postamos qualquer coisa.
O “cara” que está ali [nos grupos] não quer receber spam, ele confia que a recomendação de fato é boa. A gente constrói isso ao longo do tempo e é muito fácil de destruir.
Mesmo quando fazemos [a gestão de grupos] dos clientes, eles têm a liberdade de postar [qualquer oferta]. Mas sempre deixamos bem claro que o nosso trabalho é de curadoria, não de metralhar promoções.
A influência não é a única forma de trabalhar com afiliados. Existem outras pessoas que trabalham que trabalham com volume mesmo, metralhando promoções. E fazendo [Google] AdSense, porque ele não necessariamente conhece as pessoas ali no grupo. Eles fazem mídia paga e trazem. Isso tem vantagens e desvantagens. Você vai ter um monte de gente e vender muitas coisas, a desvantagem é que elas vão embora, não tem um “life time value” daquele cliente.
O nosso [Nintendo Barato] não é metralhadora de promoções. A minha comunicação é sempre de trazer as pessoas para entrarem nos grupos e esperarem. Não para comprar algo específico. Isso faz com que as pessoas entrem com essa intenção.
TGE: E você tem relacionamento com as plataformas donas de programas de afiliados? O quão importante criadores como você são importantes para eles e qual o tamanho da comissão que eles pagam por produto vendido através dos seus grupos?
Coelho: Tenho relacionamento com eles sim. Temos volume suficiente de vendas para que seja importante para eles quererem saber como me ajudar. Eles percebem também que sou um vetor que traz outros criadores para o sistema de afiliados. Eu levei para a Amazon todo mundo que fala de Nintendo. A Shopee também investiu muito nisso. O Mercado Livre correu atrás. Os markeplaces estão nessa briga, e eu me relaciono bem com todos eles.

Em relação à comissão, eles têm uma porcentagem fixa para categorias diferentes. Tecnologia varia entre 6 e 9%, dependendo do produto e da época. Quando vende muito eles diminuem essa porcentagem, porque o volume está aumentando. Uma coisa compensa a outra. Em tem quem tente aumentar a atenção [sobre um produto específico] aumentando a porcentagem.
No nosso caso escolhemos o que é mais vantajoso para o cliente. Eu quero que as pessoas tenham o melhor resultado. Na pré-venda do Zelda [Ocarina of Time], colocamos links que a gente nem ganharia nada porque as pessoas não estavam conseguindo comprar. Se essa pessoa conseguir e ficar feliz vai fazer outra compra com a gente. Para mim o longo prazo vale mais do que o curto.
TGE: Vocês me disseram que o Nintendo Barato gerou R$ 17,6 milhões em vendas atribuídas para varejistas entre julho e setembro. Que outros resultados você pode revelar?
Coelho: Esse valor de R$ 17,6 milhões é relativamente recorrente, não é fim de ano nem a baixa do começo do ano. Na média geramos R$ 5,9 milhões em vendas para o mercado por mês. Isso permite que a gente crie esse ecossistema de conteúdo e vendas.
Posso falar que no lançamento do Zelda Ocarina of Time, juntando tudo, a pré-venda do jogo, os cases, os controles, os consoles, tudo, temos vendas atribuídas nas nossas redes de 11,9 mil produtos. Em termos de faturamento da empresa, não abro os números, até porque eles flutuam bastante.
Outro valor é que temos um custo [operacional] mensal de uns R$ 130 mil por mês, e é meio assustador para um criador de conteúdo pagar isso. Mas a gente consegue e ficamos no verde todo mês.
TGE: E você tem novos planos e negócios em vista? O que o futuro reserva para as empresas do grupo do Coelho? O que você pode adiantar para a gente?
Coelho: Eu tenho muitas coisas na manga. Eu não faço nenhum dos meus projetos sem pensar em um proposito maior, que é ser um pilar de confiança para as pessoas que me conhecem. Eu quero que o mercado saiba quem eu sou e que no que eu estiver envolvido existe um cuidado. O propósito não é só ganhar dinheiro.
Para cada uma dessas coisas que eu faço estou gerando dados, e quero ter um entendimento maior sobre o mercado de games brasileiro. Para desenhar que caminho as pessoas tomam na hora de tomar uma decisão de compra. Temos muita informação na base de pesquisas, a jornada inteira do consumidor. Estou coletando esses dados para ajudar as empresas [internacionais] a chegarem no Brasil.
Sempre foi meu sonho ver o mercado de games brasileiro prosperando. Eu quero que ele seja grande, maior. E pelos contatos que tenho com empresas asiáticas muitas não vem para cá porque não conhecem. No longo prazo estou construindo um ecossistema de pesquisa e informação que dê mais entendimento sobre o nosso mercado, para que no fim exista mais investimento aqui. Esse é meu endgame.



