Quando a conta não fecha: o que as crises financeiras ensinam às organizações de eSports

Ter público não significa ter operação financeiramente sustentável, escreve Victor Hugo Cebratelli, COO do Team Solid
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Imagem: Magnific

O mercado de games segue crescendo ano a ano, a audiência é bastante relevante e o interesse das marcas permanece. Ainda assim, mesmo com este horizonte positivo, organizações de esportes eletrônicos podem atravessar períodos de forte pressão financeira. A aparente contradição diz muito sobre o estágio atual do setor de eSports: ter público e gerar atenção não significa, necessariamente, ter uma operação financeiramente sustentável.

No Brasil, 75,3% da população declarou ter o hábito de consumir jogos digitais, conforme a Pesquisa Game Brasil de 2026. O número mostra a dimensão do mercado consumidor e é bastante expressivo. E justamente por isso a discussão sobre sustentabilidade financeira das organizações precisa ir além do tamanho da audiência.

Uma organização pode ter milhões de impressões, uma comunidade engajada e presença recorrente em grandes competições e, ainda assim, depender de poucas fontes de receita. Esse é um dos pontos mais delicados da operação.

O patrocínio continua sendo uma das principais vias de monetização no setor. O problema aparece quando uma parcela muito grande da receita está concentrada em poucos contratos, ou quando o planejamento da temporada considera como recorrente um dinheiro que, na prática, é pontual.

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Um relatório financeiro publicado em 2026 pela NIP Group ilustra essa diferença. Em 2025, a receita da operação de equipes de eSports caiu 19,8%, para US$ 11,8 milhões, principalmente em razão da redução das receitas de patrocínio e de participação em ligas.

No mesmo período, a receita de gestão de talentos cresceu 32,8%, para US$ 62,8 milhões, enquanto a produção de eventos avançou 37%, para US$ 31,9 milhões.

O dado não deve ser interpretado como um retrato de todo o setor, mas ajuda a evidenciar uma questão importante: crescimento de audiência não produz automaticamente crescimento proporcional de receita para uma organização.

Receita vs calendário

Esse é um setor com pressão competitiva permanente. Contratação e manutenção de jogadores, comissão técnica, estrutura, viagens, bootcamps, produção de conteúdo, marketing e participação em campeonatos compõem uma operação que precisa funcionar durante toda a temporada. O problema aparece quando os custos são previsíveis, mas as receitas não são.

Um contrato comercial pode ser renovado ou não. Uma premiação depende de desempenho. Uma competição pode mudar de calendário. Um parceiro pode alterar sua estratégia de marketing. Até mesmo uma audiência relevante precisa ser convertida em propriedades comerciais para gerar retorno financeiro.

Por isso, uma organização não pode tomar decisões de custo olhando apenas para o tamanho da oportunidade. É preciso olhar para a capacidade de financiar aquela decisão durante todo o ciclo em que ela vai produzir resultado.

Essa talvez seja uma das principais lições das crises financeiras: o problema nem sempre está no investimento em competição, mas na distância entre o momento em que o dinheiro é gasto e o momento em que ele efetivamente retorna.

Existe uma conclusão equivocada que pode surgir dessa discussão: se competir custa caro, seria melhor reduzir a operação esportiva e apostar apenas em conteúdo, influenciadores ou entretenimento. Mas não é esse o ponto.

O competitivo continua sendo o centro de uma organização de eSports. É a competição que cria narrativa, relevância, comunidade e propriedade intelectual. O que muda é a forma de transformar esses ativos em negócios que não dependam exclusivamente do resultado do próximo campeonato.

Conteúdo, projetos com marcas, experiências presenciais, produtos, licenciamento e iniciativas voltadas à comunidade podem ampliar as possibilidades comerciais. O objetivo é construir receitas que tenham alguma previsibilidade e que aproveitem aquilo que a organização já construiu em torno de seus times e talentos.

Um estudo publicado em 2025 na revista Frontiers in Sports and Active Living, que analisou as carteiras de patrocínio de 17 clubes e da League of Legends Pro League (LPL) entre 2021 e 2024, concluiu que carteiras mais voláteis e concentradas deixam as organizações mais vulneráveis à perda de patrocinadores e à volatilidade das receitas. Segundo os pesquisadores, a combinação entre a manutenção de parceiros recorrentes e a diversificação das categorias de patrocinadores pode aumentar a resiliência comercial.

Não se trata, portanto, de fazer mais coisas por fazer, mas sim aproveitar melhor os ativos que já existem.

Crises financeiras: testes de gestão

Durante períodos de crescimento, é relativamente fácil justificar aumento de estrutura, novas contratações e expansão de projetos. As crises financeiras obrigam a organização a fazer perguntas menos confortáveis: quanto dessa receita é recorrente? Quanto custa manter cada frente? Quais contratos têm maior margem? Quanto tempo o caixa suporta uma queda nas receitas? Quais investimentos geram valor para a marca mesmo quando o resultado competitivo não vem?

Essas perguntas não diminuem a ambição esportiva. Ao contrário. Uma operação financeiramente organizada tem mais condições de tomar riscos competitivos porque conhece seus limites.

O mercado esportivo tradicional vive uma discussão parecida. Na Global Sports Survey 2026, da PwC, 78% dos executivos consultados disseram que os investidores devem priorizar ativos com fontes de receita novas e diversificadas, em vez de modelos concentrados em poucas formas tradicionais de monetização. O levantamento aponta que a diversificação de receitas se tornou um fator cada vez mais relevante para a resiliência e o potencial de crescimento dos ativos esportivos.

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Para os eSports, a lógica é especialmente relevante porque a indústria ainda é jovem e está sujeita a mudanças rápidas de jogos, plataformas, formatos de competição e comportamento da audiência. Mais do que o investimento necessário para disputar a próxima temporada, importa entender quanto valor uma organização consegue construir para se manter competitiva diante das mudanças do mercado.

Crises financeiras são ruins para qualquer empresa. Para uma organização no nosso setor, elas também podem funcionar como um diagnóstico. Mostram onde a operação depende demais de uma única receita, onde os custos cresceram mais rápido que o negócio e onde existe potencial comercial ainda pouco explorado.

Ou seja: sustentabilidade não significa gastar menos a qualquer custo. Significa saber onde gastar, de onde vem a receita, quanto dela é previsível e quais ativos podem gerar valor no longo prazo.

Os eSports já provaram que existe demanda, público e interesse comercial. O que ainda está em construção é a capacidade de transformar esses ativos em operações mais previsíveis e menos sujeitas aos ciclos de um mercado que continua amadurecendo.

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