Por que dinheiro não garante sucesso no mercado de games

Imprevisibilidade não é falha, mas característica estrutural da indústria, e sauditas precisam transformar aportes em autonomia, escreve Carlos Gama
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Cerimônia de premiação da EWC de 2026. Foto: Divulgação

Existe uma percepção bastante comum no mundo dos negócios de que grandes investimentos aumentam automaticamente as chances de sucesso. Em muitos setores, essa lógica funciona. Mais capital permite contratar profissionais, ampliar a produção, investir em tecnologia, melhorar a distribuição, aumentar o marketing e acelerar a entrada em novos mercados.

Na indústria de games, porém, essa relação é muito menos previsível. Dinheiro aumenta a capacidade de produzir, mas não garante que o público irá comprar, jogar, recomendar e, principalmente, permanecer conectado a um determinado produto. Essa diferença é fundamental para compreender a estratégia da Arábia Saudita, que vem utilizando recursos financeiros em uma escala extraordinária para ocupar posições estratégicas na indústria global de games e esportes eletrônicos.

O país possui uma capacidade de investimento que poucos mercados conseguem reproduzir. Por meio do Public Investment Fund (PIF), o fundo soberano saudita, o país conseguiu adquirir participações em empresas relevantes, realizar grandes aquisições, financiar projetos de longo prazo e construir uma presença internacional que ultrapassa a lógica de simplesmente desenvolver um mercado consumidor.

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O objetivo é participar da cadeia global de valor dos games, dos estúdios aos publishers, das plataformas aos eventos e dos esportes eletrônicos à infraestrutura. O movimento é ambicioso e pode produzir resultados importantes. Mas existe uma pergunta que precisa ser feita: quanto dinheiro é necessário para transformar uma estratégia de investimento em uma indústria criativa realmente sustentável?

A resposta provavelmente não está em um número. A indústria de games é uma das áreas mais imprevisíveis do entretenimento contemporâneo. Um jogo pode consumir centenas de milhões de dólares, ser desenvolvido durante anos por profissionais altamente qualificados, utilizar tecnologia de ponta e receber uma campanha de marketing mundial e, ainda assim, fracassar.

Ao mesmo tempo, um pequeno estúdio pode desenvolver um projeto com recursos muito menores, encontrar uma comunidade apaixonada e transformar seu produto em um fenômeno global.

Essa imprevisibilidade não é uma falha do setor. É uma característica estrutural de uma indústria em que o consumidor participa diretamente da experiência e possui uma enorme capacidade de escolher para onde direcionar seu tempo e seu dinheiro.

Um game não é apenas um software. Ele é uma experiência. O jogador não avalia somente a qualidade gráfica, o desempenho tecnológico ou a quantidade de conteúdo. Ele quer saber se aquela experiência é divertida, original, envolvente e capaz de estabelecer uma conexão emocional. Quer encontrar uma comunidade, compartilhar experiências, acompanhar criadores de conteúdo e, em muitos casos, transformar aquele jogo em parte de sua rotina.

É essa dimensão humana que torna os games tão difíceis de prever. É possível calcular o custo de desenvolvimento, mas é muito mais difícil calcular o valor emocional que um produto terá para milhões de pessoas.

Por isso, um investimento de US$ 100 milhões não produz necessariamente um jogo dez vezes melhor do que um projeto de US$ 10 milhões. Um orçamento maior permite contratar mais profissionais, desenvolver mais conteúdo, utilizar tecnologias sofisticadas e investir em marketing, mas não transforma automaticamente uma ideia ruim em uma boa ideia. Tampouco impede que decisões criativas equivocadas sejam tomadas durante anos de desenvolvimento.

Existe, inclusive, uma contradição importante: quanto maior o investimento, maior tende a ser a pressão para que o projeto dê certo. Um jogo que custou centenas de milhões de dólares passa a carregar expectativas proporcionais ao seu orçamento, e essas expectativas podem limitar justamente a liberdade necessária para criar algo inovador.

Essa pressão pode levar grandes empresas a optar pelo caminho mais seguro. Quando um projeto envolve milhares de profissionais e investimentos gigantescos, o risco de experimentar aumenta. Executivos passam a olhar para franquias já conhecidas, modelos de negócio comprovados e fórmulas que funcionaram anteriormente. O resultado pode ser tecnicamente impecável, mas pouco inovador.

E a indústria de games já mostrou muitas vezes que o público não necessariamente recompensa aquilo que é mais caro. Ele recompensa aquilo que considera relevante, divertido e diferente.

Desafio da criatividade

Esse é um dos principais desafios da estratégia saudita. O país pode comprar empresas consolidadas, adquirir participação em grandes publishers, financiar novos estúdios, contratar profissionais internacionais e construir uma infraestrutura sofisticada. Tudo isso aumenta sua capacidade de competir. Mas existe uma diferença fundamental entre comprar ativos da indústria e construir uma indústria criativa.

Comprar uma empresa permite adquirir imediatamente tecnologia, profissionais, propriedade intelectual e conhecimento acumulado. Construir uma indústria exige formar pessoas, desenvolver conhecimento, estimular empreendedores, criar instituições e estabelecer um ambiente em que novas ideias possam surgir.

A primeira tarefa pode ser realizada em poucos anos. A segunda pode levar uma geração.

Essa diferença será decisiva para avaliar o sucesso da estratégia saudita. Se o país conseguir apenas concentrar grandes empresas estrangeiras, sediar grandes eventos e administrar investimentos bilionários, terá construído uma importante plataforma de negócios. Mas se conseguir formar desenvolvedores, designers, artistas, produtores, roteiristas, especialistas em áudio, gestores e empreendedores locais, construirá algo muito mais valioso: capacidade própria.

O verdadeiro patrimônio de uma indústria de games não está apenas nas empresas que ela possui, mas no conhecimento acumulado pelas pessoas que trabalham nela.

É por isso que educação e formação precisam ocupar um lugar central nessa estratégia. Uma indústria de games não nasce apenas dentro dos grandes estúdios. Ela começa nas universidades, nos cursos técnicos, nos laboratórios de pesquisa, nas comunidades independentes, nas incubadoras e nos pequenos grupos de desenvolvedores que experimentam novas ideias. A presença de profissionais estrangeiros pode acelerar esse processo, e as aquisições podem transferir conhecimento, mas uma indústria sustentável precisa formar uma geração local capaz de assumir progressivamente o protagonismo.

Existe ainda uma dimensão cultural que não pode ser ignorada. Games são produtos econômicos, mas também são produtos culturais. Essa combinação torna o setor diferente de muitas outras atividades. Um produto industrial pode ser avaliado principalmente por desempenho, preço, eficiência e durabilidade. Um game possui esses elementos, mas seu sucesso depende também da percepção do público.

Um jogador pode rejeitar um produto tecnicamente sofisticado porque não gostou da narrativa, da mecânica ou da experiência. Pode, por outro lado, abraçar um jogo visualmente simples porque encontrou nele algo que considera especial.

Essa característica cria uma oportunidade importante para a Arábia Saudita. O país possui uma história milenar, uma cultura própria, paisagens, arquitetura, literatura e tradições que poderiam servir como inspiração para novas propriedades intelectuais. O desafio será transformar esses elementos em experiências digitais capazes de dialogar com jogadores de diferentes partes do mundo. Não se trata de produzir jogos apenas para o mercado saudita, mas de criar universos que tenham identidade local e, ao mesmo tempo, linguagem universal.

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Esse processo não pode ser artificial. O público global percebe quando uma propriedade intelectual parece ter sido criada apenas como instrumento de marketing. Uma franquia relevante precisa possuir personalidade, personagens interessantes, boas histórias e uma experiência capaz de sobreviver à estratégia comercial ou institucional que existe por trás dela. É por isso que a criatividade continua sendo o elemento mais difícil de comprar.

A Arábia Saudita terá de decidir, portanto, se pretende apenas ser uma grande financiadora da indústria ou se deseja formar uma geração de criadores. A primeira alternativa produz influência rapidamente, mas pode criar dependência. A segunda exige muito mais tempo, mas constrói autonomia. Formar profissionais significa criar um patrimônio humano que permanece no país mesmo quando determinados investimentos terminam. É essa capacidade que permite que uma indústria continue crescendo independentemente de um único investidor ou de um determinado ciclo econômico.

Indies, riscos e Estado

A indústria independente também terá um papel importante nesse processo. Pequenos estúdios possuem menos recursos, mas frequentemente conseguem experimentar com maior liberdade. Podem testar novas mecânicas, narrativas e modelos de negócios sem enfrentar a mesma pressão de um projeto que recebeu centenas de milhões de dólares.

Alguns fracassam rapidamente. Outros encontram seu público. Alguns poucos se transformam em grandes fenômenos. Uma política nacional de games precisa compreender que esses pequenos experimentos também fazem parte da construção de uma indústria.

É importante lembrar que muitos dos maiores sucessos dos games não nasceram necessariamente dos maiores orçamentos. Alguns começaram como projetos pequenos e cresceram graças à comunidade, ao streaming e aos criadores de conteúdo. Isso demonstra que o capital pode acelerar aquilo que já possui potencial, mas dificilmente substitui o talento necessário para encontrar uma boa oportunidade.

O dinheiro funciona melhor quando cria possibilidades. Funciona pior quando tenta substituir criatividade por escala.

Outro ponto importante é a dependência de capital estatal. A existência de um fundo soberano com capacidade de realizar investimentos bilionários pode ser uma vantagem extraordinária para um setor que exige planejamento de longo prazo. Diferentemente de investidores preocupados exclusivamente com resultados trimestrais, um fundo soberano pode sustentar projetos durante anos e aceitar períodos maiores de maturação. Isso pode permitir investimentos em tecnologia, formação e propriedade intelectual que dificilmente seriam financiados por investidores tradicionais.

Mas essa vantagem também traz riscos. Quando existe capital abundante, projetos que apresentam resultados abaixo do esperado podem continuar recebendo recursos por mais tempo do que receberiam em um ambiente altamente competitivo. Isso pode reduzir a pressão por eficiência e dificultar a identificação de investimentos que realmente estão criando valor. Por isso, o debate não deveria se concentrar apenas em quanto a Arábia Saudita está investindo, mas em qual retorno econômico, tecnológico, cultural e humano esses investimentos estão produzindo.

A pergunta mais importante, portanto, não é quantos bilhões foram investidos, mas o que esses bilhões estão construindo. Quantos estúdios locais surgiram? Quantos profissionais foram formados? Quantas empresas sauditas conseguiram crescer internacionalmente? Quantas propriedades intelectuais nasceram no país? Quantos jogos desenvolvidos na Arábia Saudita conquistaram jogadores de outros mercados? Quantas startups conseguiram se tornar sustentáveis? Esses indicadores serão muito mais importantes para medir o sucesso da estratégia do que simplesmente contabilizar aquisições e investimentos.

Esportes eletrônicos

A própria Esports Nations Cup oferece um exemplo interessante dessa realidade. A primeira edição da competição estava prevista para novembro de 2026, em Riad, mas a Esports World Foundation anunciou em 18 de agosto de 2026 o adiamento para novembro de 2027. A organização informou que a decisão ocorreu após uma avaliação da situação regional e consultas com os principais stakeholders, considerando a dimensão internacional do projeto, que envolve participantes e parceiros de mais de 100 países e territórios.

O adiamento não representa o abandono da ENC. A organização reafirmou compromissos com os parceiros nacionais (National Team Partners) e informou que continuará trabalhando no desenvolvimento dos ecossistemas locais, na relação com publishers e na preparação da competição. Mas o episódio é um sinal importante dentro da discussão proposta neste artigo. Mesmo quando existe dinheiro, infraestrutura, planejamento e capacidade institucional, existem fatores que não podem ser completamente controlados pelo investidor.

A situação regional, a segurança, a logística, o calendário internacional, a disponibilidade dos atletas, os compromissos dos publishers e as expectativas dos parceiros são variáveis que não podem ser resolvidas simplesmente aumentando o orçamento. Quanto maior o projeto, maior também sua complexidade. A ENC pretende reunir países, diferentes jogos, organizações e interesses diversos. O capital permite construir essa estrutura, mas não elimina os desafios de coordenação.

O adiamento pode, portanto, ser interpretado como um exemplo de que dinheiro reduz riscos, mas não os elimina. Mais importante ainda, mostra que uma estratégia de longo prazo precisa ter capacidade de adaptação. Insistir na realização de um evento em condições inadequadas apenas porque já existe um grande investimento realizado poderia ser uma decisão pior do que aceitar o adiamento e utilizar o tempo adicional para fortalecer o projeto.

O verdadeiro teste será saber o que acontecerá até novembro de 2027. Se esse período for utilizado para aperfeiçoar os processos de seleção, fortalecer os representantes nacionais, preparar atletas, melhorar a governança e consolidar a relação com publishers e comunidades, o adiamento poderá acabar fortalecendo a competição. Nesse caso, adiar não será necessariamente fracassar. Será administrar riscos.

Essa lógica vale para toda a indústria de games. Um estúdio pode adiar um lançamento. Um projeto pode ser reformulado. Uma propriedade intelectual pode não funcionar. Um jogo pode ser cancelado. Uma empresa pode precisar mudar seu modelo de negócio.

O problema não está necessariamente em mudar de direção. O problema está em não aprender com a mudança.

Por isso, a capacidade de aprendizado será tão importante quanto a capacidade financeira da Arábia Saudita. O país está tentando construir simultaneamente um mercado, uma indústria, uma infraestrutura, uma comunidade profissional e uma posição de liderança internacional. São objetivos extremamente ambiciosos. O risco seria imaginar que todos eles podem ser alcançados simplesmente aumentando os investimentos. Não podem.

Uma indústria criativa precisa de tempo, pessoas, liberdade, competição, consumidores e empresas capazes de sobreviver em um ambiente de mercado. Precisa também de instituições que ofereçam segurança jurídica, mecanismos de governança e condições para que os profissionais tenham perspectivas de longo prazo. Nenhum desses elementos pode ser comprado de forma instantânea.

Essa é a diferença entre construir um mercado consumidor e construir uma indústria. Comprar empresas estrangeiras permite entrar rapidamente no mercado. Financiar grandes eventos produz visibilidade. Adquirir participação em publishers oferece exposição a propriedades intelectuais relevantes. Mas desenvolver conhecimento local cria autonomia. E autonomia é o verdadeiro patrimônio de longo prazo.

Lições para o Brasil

Para o Brasil, essa discussão também oferece uma reflexão importante. Não faria sentido tentar competir com a Arábia Saudita apenas pelo volume de dinheiro. O Brasil possui outras vantagens: um grande mercado consumidor, criatividade, diversidade cultural, profissionais talentosos, universidades, organizações de esportes eletrônicos e uma comunidade de jogadores altamente engajada. O desafio brasileiro deveria ser transformar essas vantagens em uma política consistente de desenvolvimento da indústria.

Investir em formação profissional, pesquisa, empreendedorismo, propriedade intelectual, infraestrutura e internacionalização pode produzir resultados mais duradouros do que simplesmente buscar grandes eventos. A experiência saudita mostra que capital pode acelerar uma transformação, mas também mostra que capital não determina sozinho o resultado.

No final, games continuam sendo feitos por pessoas para outras pessoas. Tecnologia é fundamental. Capital é fundamental. Infraestrutura é fundamental. Mas nenhum desses elementos substitui uma boa ideia, uma equipe competente e a capacidade de compreender o jogador. É justamente por isso que a indústria continua sendo tão imprevisível e, ao mesmo tempo, tão fascinante.

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A Arábia Saudita já provou que possui recursos para entrar agressivamente no mercado global de games. Já demonstrou que consegue adquirir empresas, atrair grandes eventos, mobilizar parceiros internacionais e movimentar bilhões de dólares. O adiamento da ENC demonstra, entretanto, que mesmo uma estratégia dessa dimensão continua sujeita a fatores externos e à necessidade de adaptação.

Agora, o país precisa provar que consegue transformar esses recursos em algo muito mais difícil de construir: uma cultura criativa capaz de produzir sucessos globais de maneira consistente. O verdadeiro indicador do sucesso saudita não será apenas o número de empresas adquiridas, o tamanho das premiações ou o valor dos investimentos. Será a capacidade de criar uma indústria que continue inovando quando o dinheiro deixar de ser a principal notícia.

E, nos games, é justamente a paixão do jogador que transforma um produto em fenômeno, uma empresa em referência e uma indústria em cultura. A Arábia Saudita já mostrou que tem dinheiro suficiente para entrar no mercado global de games. Agora precisa mostrar que consegue fazer algo muito mais difícil: transformar dinheiro em talento, talento em criatividade, criatividade em propriedade intelectual e propriedade intelectual em cultura global. Esse será o verdadeiro teste da estratégia saudita.

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