Mais conhecida pela atuação como consultoria global de tecnologia, com presença em 36 países e mais de 30 mil funcionários, a argentina Globant é um desses atores menos visíveis, mas muito importantes, no mercado de games – especialmente quando se trata de títulos triplo A de grande escala. Não porque ela própria seja dona de franquias, mas sim pelos contratos de outsourcing e codesenvolvimento firmados ao longo dos últimos anos com publishers tão tradicionais quanto Ubisoft, Electronic Arts, Epic Games e Warner.
Nos últimos dois anos, a empresa participou do desenvolvimento de títulos como Madden NFL 27, EA Sports UFC 6 (ambos da EA), Marathon (Bungie e Sony), MLB The Show 26 (Sony San Diego) e Battlefield 6 (DICE e EA), entre outros.
Do faturamento total de US$ 2,45 bilhões registrados pela Globant no ano fiscal de 2025, parte se deve ao trabalho dos quase 1.200 profissionais da divisão de jogos, muitos deles alocados na América Latina. Segundo Kevin Janzen, CEO do Gaming & EdTech AI Studio da empresa, nos últimos quatro anos o Brasil foi onde a base de funcionários vinculada ao estúdio de jogos registrou o maior crescimento relativo.
Mas, segundo o executivo, em conversa exclusiva recente com o The Gaming Era, o setor vive grandes desafios. E não se trata apenas da crise vivida por algumas grandes empresas do setor, pois o mercado segue crescendo. Mesmo as mudanças tecnológicas mais radicais, como o uso de inteligência artificial, não podem ser vistas isoladamente: os modelos de negócios dos grandes estúdios também estão sob inflexão. E isso é uma oportunidade de negócios para players como a Globant.
“Mas acreditamos que existe uma diferença importante entre monetizar uma experiência e simplesmente adicionar mecanismos de monetização. Os jogadores não necessariamente rejeitam pagar por conteúdo ou serviços; o que gera rejeição são os sistemas que percebem como desconectados da experiência ou que a interrompem”, diz o executivo.
Jansen não se furta a falar de inteligência artificial, um tema considerado tabu no mercado de jogos digitais. Para ele, a tecnologia “é legítima” e “não pode ser reduzida a uma posição de ‘tecnologia sim’ ou ‘tecnologia não’”. No entanto, há limites “claros”, que serão definidos pelos jogadores e usuários.
“A confiança [dos jogadores] será um dos grandes temas dos próximos anos. À medida que a IA for incorporada a mais aspectos do desenvolvimento e da experiência, será cada vez mais importante que sua utilização seja transparente, responsável e alinhada ao bem-estar e à segurança dos jogadores”, acredita o executivo.
Confira a seguir os melhores momentos da entrevista:
The Gaming Era: Os estúdios e publishers AAA continuam sendo os principais clientes da Globant ou esse perfil mudou ao longo dos anos?
Kevin Janzen: Grandes estúdios e publishers continuam sendo uma parte muito importante do ecossistema em que trabalhamos, especialmente porque são organizações que enfrentam alguns dos desafios tecnológicos e de produção mais complexos da indústria. Mas, ao mesmo tempo, acreditamos que o alcance do gaming se ampliou.
Hoje não falamos apenas de desenvolver um videogame. As empresas precisam pensar em experiências multiplataforma, operações ao vivo, personalização, monetização, comunidades, conteúdo, ferramentas de IA e novas formas de chegar aos jogadores.
Além disso, muitas das capacidades que historicamente desenvolvemos para a indústria de games, como [gráficos] 3D, simulação, inteligência artificial ou design de experiências também têm aplicações em outros setores. Por isso, vemos uma expansão do tipo de desafios e organizações com os quais podemos trabalhar.
TGE: Falando em outros setores, como eles podem ser potenciais clientes do estúdio de games? Que soluções procuram?
Janzen: Acredito que existem duas dimensões muito interessantes nesse cruzamento entre games e outras indústrias. De um lado estão as capacidades tecnológicas que foram desenvolvidas ou evoluíram fortemente dentro do mundo dos videogames. Muitas têm aplicações concretas muito além do entretenimento.
A indústria automotiva é um bom exemplo. Nossa tecnologia pode ser utilizada ao longo de todo o ciclo de desenvolvimento, desde o design de veículos comerciais e de Fórmula 1 até simulações complexas. Também pode ser aplicada a simuladores para o treinamento de pilotos e a sistemas dentro do automóvel, relacionados a entretenimento, telemetria, navegação, mapeamento ou estacionamento.
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Há outra dimensão que também nos parece muito relevante: tudo o que o gaming aprendeu sobre como gerar engajamento. Durante décadas, os videogames foram aperfeiçoando a forma de criar experiências que convidam as pessoas a participar, aprender, voltar e avançar. Esse conhecimento pode ser transferido para muitos outros contextos.
É aí que entra a gamificação, mas entendida de uma maneira mais ampla do que simplesmente adicionar pontos ou recompensas. Trata-se de pegar uma experiência que pode ser complexa, repetitiva ou pouco atraente e pensar em como torná-la mais intuitiva, participativa e significativa para as pessoas. Isso pode ter aplicações em educação, saúde, treinamento corporativo e em uma enorme variedade de serviços digitais.
Nesse sentido, vemos uma oportunidade muito interessante em levar não apenas a tecnologia do gaming para outras indústrias, mas também sua lógica de design. Entender como as pessoas interagem com uma experiência, o que as motiva a continuar, como aprendem, como progridem e como construir uma relação mais profunda com um produto ou serviço são conhecimentos que hoje têm valor muito além dos videogames.
TGE: Em conversa recente com executivos da Globant no Brasil, eles comentaram que o escopo dos serviços do estúdio de gaming se ampliou nos últimos anos para incluir soluções de monetização. Essa é uma das principais necessidades atuais das grandes publishers?
Janzen: A monetização se tornou uma área mais importante porque o modelo de negócio da indústria mudou. Em muitos casos, a relação entre o jogador e um título não termina com a compra inicial, mas continua durante meses ou até anos por meio de serviços ao vivo, expansões, conteúdo adicional e diferentes modelos de transação.
Mas acreditamos que existe uma diferença importante entre monetizar uma experiência e simplesmente adicionar mecanismos de monetização. Os jogadores não necessariamente rejeitam pagar por conteúdo ou serviços; o que gera rejeição são os sistemas que percebem como desconectados da experiência ou que a interrompem.
Por isso, o desafio é desenhar modelos nos quais a monetização esteja alinhada à proposta de valor do jogo. Pode se tratar de novas mecânicas, conteúdo relevante, sistemas de progressão ou experiências que evoluem junto com o jogador.
Também há um componente tecnológico cada vez mais importante. A capacidade de analisar dados e entender diferentes comportamentos permite desenhar experiências mais relevantes para diferentes tipos de jogadores, sempre dentro de um uso responsável dessas informações.
TGE: Desde a última vez em que conversei com a Globant a IA já aparecia como tema emergente, inclusive para o mercado de games. Como vocês integraram a IA às operações desde então? Para quais serviços dentro da indústria de games a IA é particularmente útil?
Janzen: Na etapa de produção, ela pode ajudar a acelerar determinados processos, desde a criação de assets até o playtesting e a localização. A oportunidade não está simplesmente em fazer coisas mais rápido, mas em liberar capacidade das equipes para que possam se concentrar em problemas criativos e de maior complexidade.
Também estamos vendo um impacto importante nas ferramentas disponíveis para as equipes. A incorporação de IA generativa e de novas capacidades dentro dos ambientes de design pode ampliar a quantidade de perfis que participam do processo criativo.
Do lado do jogador, a IA abre possibilidades relacionadas à personalização. A ideia é poder entender melhor diferentes comportamentos e adaptar conteúdos, experiências e formas de interação. No futuro, veremos cada vez mais experiências que possam responder ao contexto e às preferências de cada jogador.
Ela também pode ter aplicações em operações ao vivo, análise de dados, moderação, segurança e suporte. Por isso, acreditamos que a IA não é uma única ferramenta nem um único caso de uso: é uma tecnologia transversal que está começando a modificar a forma como os videogames são criados, operados e experimentados.
TGE: A IA é uma tecnologia controversa no desenvolvimento de videogames. Existem limites sobre até onde essa tecnologia deveria chegar?
Janzen: Entendemos que a discussão sobre IA no desenvolvimento de games é legítima e que não pode ser reduzida a uma posição de “tecnologia sim” ou “tecnologia não”. Como qualquer ferramenta transformadora, ela abre oportunidades muito importantes, mas também levanta questões sobre criatividade, propriedade intelectual, emprego, transparência e confiança.
Nossa visão é que a IA precisa ampliar as capacidades humanas, não eliminar o critério humano do processo. Ela pode ajudar a acelerar tarefas, explorar alternativas e ampliar as possibilidades das equipes, mas as decisões criativas, estratégicas e éticas continuam exigindo pessoas.
Também acreditamos que existem limites claros. Os jogadores e usuários devem saber quando e como determinadas tecnologias estão influenciando sua experiência, especialmente quando utilizados dados pessoais ou sistemas capazes de modificar conteúdos, recomendações ou comportamentos.
A confiança será um dos grandes temas dos próximos anos. À medida que a IA for incorporada a mais aspectos do desenvolvimento e da experiência, será cada vez mais importante que sua utilização seja transparente, responsável e alinhada ao bem-estar e à segurança dos jogadores.
Para nós, inovação e integridade não são conceitos opostos. Na verdade, acreditamos que as empresas que melhor conseguirem combinar ambas estarão mais bem posicionadas para o futuro.
TGE: A indústria global — especialmente AAA — passou por uma crise sem precedentes nos últimos anos. Como a Globant está navegando por essa crise? Ela representa uma oportunidade ou um desafio para provedores de serviços como vocês?
Janzen: A indústria passou por um período muito desafiador. O segmento AAA, em particular, enfrenta um contexto de altos custos de desenvolvimento, ciclos de produção prolongados, expectativas crescentes dos jogadores e uma enorme pressão para que cada lançamento seja bem-sucedido.
Provavelmente, este momento está acelerando uma transformação que era inevitável. As empresas estão revisando como desenvolvem seus jogos, quais capacidades precisam ter internamente e onde podem contar com parceiros especializados. Para um provedor de serviços e tecnologia como a Globant, isso pode representar uma oportunidade, não porque a crise seja positiva em si mesma, mas porque a complexidade da indústria está aumentando.
Além disso, estamos vendo uma dinâmica interessante: enquanto as grandes empresas continuam se consolidando, equipes menores estão demonstrando que podem criar experiências de enorme impacto. A disponibilidade de novas ferramentas e tecnologias pode reduzir algumas barreiras de entrada e permitir que organizações mais ágeis tenham acesso a capacidades que antes exigiam estruturas muito maiores.
Este momento, mais do que uma crise, é uma etapa de reconfiguração da indústria. E, nos períodos de transformação, costumam surgir oportunidades para aqueles que podem oferecer capacidades especializadas e ajudar as empresas a se adaptar.
TGE: Quais são os próximos passos para o Gaming Studio da Globant? Vocês estão otimistas em relação ao futuro?
Janzen: Somos otimistas porque estamos atravessando um momento de profunda transformação para a indústria. Os games continuam crescendo, mas, acima de tudo, está mudando a forma como eles são desenvolvidos, distribuídos e experimentados.
No Studio, vemos várias tendências que vão marcar os próximos anos. Uma delas é a incorporação cada vez mais profunda da IA no desenvolvimento e nas operações, não para substituir a criatividade, mas para ampliar as capacidades das equipes e acelerar processos. Outra é a consolidação de experiências multiplataforma, portáteis e apoiadas na nuvem, que obrigam a pensar nos jogos desde o início para diferentes dispositivos e contextos de uso.
Também acreditamos que o futuro passa por construir relações muito mais profundas com os jogadores. A indústria está evoluindo de uma lógica centrada unicamente na aquisição de novos usuários para outra na qual o desafio é sustentar o engajamento ao longo do tempo. Nesse sentido, a personalização, as comunidades, os criadores e as experiências que evoluem junto com os jogadores terão um papel cada vez mais importante.
Por isso, somos otimistas. Não acreditamos que estejamos simplesmente diante de uma nova geração de gráficos melhores ou de hardware mais potente. Estamos entrando em uma etapa na qual mudarão os sistemas com os quais os videogames são criados e experimentados. E acreditamos que há aí uma enorme oportunidade para inovar, tanto em jogos quanto em outros setores-chave para a economia.



