Capy Castaway e o bom momento dos jogos cozy no Brasil e no mundo

Conversamos com Sam Quino, da Big Blue Sky, sobre a estratégia por trás do ‘cozy game de capivara’ produzido no Canadá
capy castaway, big blue sky games
Imagem: Divulgação

Capivaras estão na moda, cozy games também, e esses fatores sozinhos seriam suficientes para alguém lançar um jogo que combinasse ambas as coisas. Mas não foi o que realmente motivou a criação de Capy Castaway, jogo lançado para PC no começo de agosto pelo canadense Kitten Cup Studio e distribuído pela Big Blue Sky Games. Capivaras se tornaram uma sensação em Toronto, cidade de origem dos desenvolvedores, quando duas delas fugiram de um zoológico local em 2016.

“Capy Castaway começou como uma ideia criativa inspirada na famosa história da fuga das capivaras Bonnie e Clyde”, explica Sam Quino, diretora de marketing da Big Blue Sky, em entrevista ao The Gaming Era por e-mail. No episódio, as duas capivaras em questão – um casal de filhotes recém transferido dos EUA para o zoológico canadense – passou semanas desaparecido e se tornou sensação nas redes sociais, ganhando apelidos (pegou o do notório casal estadunidense de assaltantes de bancos dos anos 1930) e contas dedicadas às buscas.

Sam Quino. Foto: Divulgação

Sam, é claro, não nega que o fato de ter uma capivara tão simpática como protagonista pode ajudar as vendas, e admite que jogos cozy – ou “aconchegantes”, em tradução livre – nunca estiveram tão em alta, o que também aumenta as expectativas do estúdio e da publisher. Mas isso não significa sucesso automático.

Segundo um levantamento recente da newsletter The GameDiscoverCo a partir de dados disponíveis na Steam, e considerando palavras-chave usadas nas descrições dos jogos de maior sucesso na plataforma, o termo “cozy” aumentou de 0,4% em 2022 para 3,1% em 2025, alta de 675%. Isso não significa que o gênero represente cerca de 3,1% da receita total da plataforma, mas sim que o termo se tornou muito mais frequente para descrição e posicionamento de jogos, indicando um aumento de interesse dos jogadores de PC.

“A popularidade das capivaras nos deu um primeiro ponto de conexão [com os jogadores]. Alguém pode dizer que é porque a protagonista é adorável, mas isso, por si só, não basta para realmente manter o interesse no jogo”, diz Sam. Por isso o time de Capy Castaway apostou em mecânicas de exploração “aconchegantes” e “temas tocantes”, entre outros aspectos.

O time do jogo passou algumas vezes por feiras brasileiras – especificamente a Brasil Game Show de 2025 e a Gamescom Latam de 2026 – para divulgação. Segundo a executiva, que esteve por aqui nas duas oportunidades, o jogo recebeu uma resposta “muito positiva” dos jogadores, jornalistas e criadores de conteúdo, o que motivou o forte esforço de marketing no País. Mas o apelo da história, acredita ela, é global.

Além disso, Sam acha que o apelo dos jogos cozy é mais amplo atualmente. “… mais jogadores reconhecem experiências de jogo reconfortantes, criativas, saudáveis, aconchegantes e com menos pressão como experiências significativas, e não apenas como alternativas de ‘nicho’”, diz.

No mundo, Capy Castaway ultrapassou as 100 mil adições em listas de desejo da Steam. A executiva diz que não há previsão de futuras DLCs ou conteúdos adicionais, e versões para consoles não foram anunciadas – ao menos não por enquanto.

Capivara náufraga

Talvez a grande diferença de Capy Castaway para outros games conhecidos do gênero seja que ele não teme se aproximar de uma aventura 3D mais tradicional. Os personagens fofos estão lá, animais antropomórficos muito comuns em jogos do tipo, assim como temas atuais tratados com leveza e humor – Capy, a protagonista do jogo, pode por exemplo escolher mudar de nome assim que a história começa, e é tratada em gênero neutro pelos carismáticos NPCs.

Os longos e às vezes prosaicos diálogos também estão presentes. Infelizmente o jogo foi disponibilizado apenas em inglês, o que talvez atrapalhe a compreensão inicial de uma parte potencial dos jogadores brasileiros. Mas Sam cita que o game está sendo preparado para “outros idiomas e plataformas”, sem fornecer uma data específica.

Ao contrário de outros games cozy, em que elementos de construção e/ou gerenciamento de recursos estão fortemente presentes, aqui o foco está no cumprimento de missões que exigem exploração, e que naturalmente levam à contemplação dos cenários.

LEIA TAMBÉM: Cartuchos ganham força e impulsionam nova geração de games retrô no Brasil

O objetivo é superar o que parece ser uma enchente de proporções bíblicas, que varreu um zoológico do mapa e o transformou em um conjunto conectado de ilhas. Os animais por ali espalhados tem dramas e dificuldades para resolver após a tragédia, e para isso querem a ajuda da protagonista e do companheiro falastrão Corvi – que pode ser controlado por outra pessoa. O game foi pensado para ser multiplayer sem prejudicar quem queira jogar sozinho (caso deste que vos escreve). Alcançar um dragão capaz de conceder desejos e restaurar o zoológico parece ser o objetivo final da aventura.

A trilha sonora ajuda muito na ambientação – o responsável por ela é Mark Sparling, músico conhecido pelo trabalho no aclamado A Short Hike. Os temas são relaxantes na medida.

Esse senso de exploração calma é reforçado pela movimentação talvez um pouco lenta demais da protagonista (o botão de corrida pressionado não ajuda muito). Mesmo que os cenários do jogo tentem evocar uma espécie de hecatombe pós-enchente, com lixo espalhado e destruição, ainda há muita beleza a ser explorada.

Pão de queijo

Além de jogar Capy Castaway – o código foi oferecido ao TGE pela assessoria de imprensa do jogo, e passamos algumas horas explorando o cenário com Capy e Corvi –, tive a oportunidade conversar com Sam Quino sobre o esforço por trás do jogo, suas expectativas e planos futuros. Confira a seguir:

The Gaming Era: Você esteve na Gamescom Latam e na BGS para falar de Capy Castaway para o público brasileiro. Como foi essa experiência e que resultados vocês alcançaram?

Sam: Eu simplesmente amo estar no Brasil! Todos são tão gentis, calorosos e acolhedores! Pessoalmente, sempre aproveitarei qualquer oportunidade para visitar este país lindo; inclusive, comecei a aprender português brasileiro e continuo minha busca pelo melhor pão de queijo do mundo (meu pão favorito de todos).

Quanto a Capy Castaway, esses eventos nos deram a chance de ver se o humor, os personagens e a exploração lúdica do jogo conseguiriam criar uma conexão entre culturas diferentes. Recebemos uma resposta muito positiva de jogadores, jornalistas e criadores de conteúdo.

Após nossos esforços no Brasil, ficamos muito felizes em ver que o País se tornou uma das principais fontes de listas de desejos de Capy Castaway na Steam.

Esse foi um resultado importante para nós. Para um jogo sobre encontrar o caminho de volta para casa, era fundamental levar o Capy até a terra das capivaras. Mais importante ainda: o Brasil tem uma das comunidades de jogos mais engajadas do mundo, e os jogadores brasileiros demonstraram um entusiasmo genuíno.

TGE: Qual foi a estratégia geral de marketing para o jogo? Vocês priorizaram certos territórios em detrimento de outros, ou consideram que o jogo tem um apelo verdadeiramente global?

Sam: Sempre acreditamos que Capy Castaway tem apelo global. Seus temas — amizade, curiosidade, amadurecimento e a busca pelo caminho de volta para casa — podem ser compreendidos em praticamente qualquer lugar. A narrativa visual, o tom divertido e as interações lúdicas também permitem que grande parte de sua personalidade transpareça sem depender totalmente de diálogos.

Priorizamos territórios com base na demanda por inclusão em listas de desejos (“wishlists”), na força de seus públicos de PC e de cozy games, e nas oportunidades de interagir diretamente com os jogadores. O Brasil tornou-se particularmente importante porque observamos um forte interesse orgânico e conseguimos apoiar o título por meio da BGS, da Gamescom Latam, de criadores de conteúdo locais e da imprensa.

TGE: Por quanto o jogo ficou em desenvolvimento e qual o tamanho da equipe envolvida?

Sam: Capy Castaway ficou em desenvolvimento por cerca de três anos. Foi criado pelo fantástico Kitten Cup Studio, uma pequena equipe independente de quatro a seis membros, com colaboradores adicionais atuando em áreas como 3D, qualidade, tecnologia, entre outras. Um desses colaboradores é o Mark Sparling, que compôs toda a trilha sonora de Capy Castaway e foi o compositor do adorado A Short Hike.

A dimensão do jogo finalizado pode fazer com que nos esqueçamos de quão enxuta era a equipe principal de desenvolvimento. Como acontece com muitos jogos independentes, foi necessário que os integrantes assumissem múltiplas funções e mantivessem um foco intenso nos aspectos da experiência que formam a identidade de Capy Castaway.

capy castaway, big blue sky games, gameplay 2
No diário de Corvi estão as missões a cumprir e descrições dos personagens encontrados durante a aventura. Imagem: Divulgação

TGE: Com o jogo agora lançado, quais são as expectativas do estúdio?

Sam: Capy Castaway chegou ao lançamento com mais de 100 mil adições à lista de desejos no Steam em todo o mundo, o que nos proporcionou uma base sólida de partida. Estamos acompanhando de perto as avaliações dos jogadores, o engajamento, a cobertura por criadores de conteúdo, as vendas e a capacidade do jogo de manter o interesse do público.

Nossa prioridade imediata é dar suporte ao lançamento: acompanhar o feedback, resolver problemas técnicos e preparar o jogo para outros idiomas e plataformas. Não temos um cronograma de DLCs para divulgar no momento, mas certamente o faremos assim que tivermos mais novidades!

TGE: Capivaras continuam em alta (a paixão da minha filha de oito anos por elas é prova definitiva disso), assim como os jogos do gênero cozy. Esse foi um fator decisivo na criação de Capy Castaway? Vocês esperam que esse carinho ajude a impulsionar as vendas? Se sim, como?

Sam: Acho que o carinho que as pessoas têm pelas capivaras certamente ajuda o jogo a chamar a atenção. Quer dizer, elas são SUPER fofas (eu as adoro, e sou uns 30 anos mais velha que sua filha). No entanto, não foi simplesmente uma decisão de seguir uma tendência. Capy Castaway começou como uma ideia criativa inspirada na famosa história da fuga das capivaras Bonnie e Clyde.

A popularidade das capivaras nos proporciona um primeiro ponto de conexão muito útil. Alguém pode dizer que é porque a protagonista do jogo é adorável, mas isso, por si só, não consegue sustentar o interesse de verdade. Os jogadores ainda precisam se conectar com a proposta. Felizmente, as mecânicas de exploração relaxante e os temas tocantes de Capy Castaway conseguem transmitir essa conexão.

capy castaway, big blue sky games, gameplay
Capy e Corvi aconchegados. Imagem: Divulgação

TGE: Falando em cozy games, o gênero parece continuar crescendo apesar da enorme quantidade de títulos lançados, especialmente os independentes. Você acha que isso acontece porque o público-alvo do gênero é diferente dos demais? Que futuro você imagina para jogos do tipo, especialmente em um momento de mercado tão desafiador?

Sam: O público de cozy games é amplo, mas não acredito que ele exista de forma totalmente isolada do restante do mercado de jogos. Muitos jogadores os apreciam juntamente com outros gêneros. O que mudou é que mais jogadores agora reconhecem experiências de jogo reconfortantes, criativas, saudáveis, aconchegantes e com menos pressão como experiências significativas, e não apenas como alternativas de “nicho”.

Ao mesmo tempo, o crescimento da categoria não significa que todo cozy game fará sucesso. O mercado de jogos aconchegantes está mais saturado, o que torna fundamental – assim como para qualquer outro jogo – ter uma identidade clara, uma proposta de valor para o jogador e um diferencial que vá além da estética.

Espero que o gênero continue crescendo, mas que também se torne mais diverso e, talvez, mais híbrido. Provavelmente veremos ideias de cozy games combinadas com elementos de mistério, aventura, estratégia e outras formas de jogar.

Capy Castaway reflete essa direção: é um jogo cativante e adequado para toda a família, mas que também consegue abordar temas mais densos.

O mercado crescente de cozy games recompensará os jogos que souberem exatamente qual é a sua identidade. Esses jogos não estão imunes aos desafios de visibilidade, mas fazem parte de uma mudança duradoura naquilo que os jogadores buscam sentir ao jogar.

Assine nossa newsletter

receba todas nossas atualizações por email.

Obrigado pela sua assinatura! Ops! Algo deu errado... Tente novamente!