TGE se une a veículos independentes contra propagandas de apostas

Já são mais de 45 veículos brasileiros de notícia signatários

O portal The Gaming Era se uniu nessa terça-feira (21) à iniciativa capitaneada por diversos veículos de notícias independentes brasileiros que se posiciona de forma contrária aos anúncios de sites e plataformas de apostas. O assunto já era um posicionamento comercial interno do time do TGE desde o lançamento do site, mas nunca havíamos nos posicionado com tanta clareza sobre o assunto.

Contribui com nosso posicionamento o combate à confusão histórica que certos setores econômicos já fizeram, intencionalmente ou não, entre jogos digitais e jogos de azar. O setor de games, como bem sabemos, conseguiu se desvencilhar dessa “herança maldita” depois da aprovação e sanção do Marco Legal dos Games, em 2024, que definiu de uma vez por todas os games como manifestação e produto cultural legítimo, cujos benefícios podem ser observados não só no entretenimento, mas também na educação e na saúde, entre outras áreas.

O número de publicações que se uniu à iniciativa segue crescendo e, até o momento da publicação desse texto, são – além do TGE – as seguintes: 100fronteiras.com, A Vida no Centro, Agência Lupa, Agência Pública, Agência Tatu, Agora RS, Alma Preta, Amado Mundo, Amazonas Atual, Aos Fatos, Eh Fonte, Escotilha, Fast Company Brasil, ICL Notícias, Jornal GGN e TV GGN, Jornalistas&Cia, Juicy Santos, Lunetas, Manual do Usuário, Matinal, Meio, MigraMundo, Mobile Time, My News, NeoFeed, Nonada Jornalismo, Notícia Preta, Outras Palavras, Plataforma Ocorre Diário, Plural, Ponte Jornalismo, Portal Cansei De Ser Pop, Portal Convergência Digital, Portal Imprensa, Portal Neo Mondo, Porto+ Noticias, Porvir, Rádio Escafandro, Reset, Startups, The AgriBiz, The Conversation Brasil, TI Inside.

Leia abaixo o editorial publicado por todos os veículos de imprensa signatários:

EDITORIAL: Aqui não tem propaganda de bets

Quando a saúde, o bem estar e o orçamento das famílias brasileiras estão em risco, é dever do jornalismo profissional se posicionar. 

Quando um setor econômico traz mais malefícios do que benefícios à população, é com o jornalismo que a sociedade conta para investigar os atores envolvidos e cobrar providências das autoridades. 

É esse o caso das casas de apostas online, ou bets. 

Um estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo indica que as bets são hoje o principal fator de endividamento dos brasileiros, cinco vezes mais que os cartões de crédito e empréstimos. 

Os recursos oriundos do Bolsa Família gastos em bets chegaram a R$ 3 bilhões em agosto de 2024, segundo o Banco Central. O Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) aponta que 1,8 milhão de assistidos usaram o cartão do programa Bolsa Família em casas de apostas.. 

Dados econômicos apontam para uma epidemia. Segundo o Instituto Locomotiva, um terço dos apostadores já estavam endividados em 2024 e 45% afirmaram que as apostas já causaram prejuízo, ao mesmo tempo em que os números de afastamentos no INSS por ludopatia – compulsão por jogos – deu um salto estratosférico, de mais de 2000%.

Liberado em 2018 e apenas regulamentado em 2023, o setor de apostas online reuniu neste ínterim poder econômico e político, arregimentando grande influência no Congresso que impede o avanço de matérias regulatórias.  

Em consequência, os lucros deste setor são hoje exorbitantes. E permitem influenciar, através de patrocínios e apoios, variados setores da sociedade, como é o caso dos influenciadores digitais e celebridades do mundo do entretenimento e dos esportes. 

As empresas de bet investiram só em 2024, segundo a Kantar Ibope Media, R$ 2,3 bilhões em compra de mídia no Brasil — 58% disso pra TV e 42% pro digital. Já a receita bruta dessas empresas chegou a R$ 37 bilhões no ano passado.

Anúncios de bets incentivando apostas estão por todos os lados: em jogos e programas de TV, sites da internet, jornais, revistas, shows, festas populares. Empresas de apostas online batem cotidianamente à porta de empresas jornalísticas e até de organizações sem fins de lucro oferecendo anúncios e parcerias. 

Repudiamos publicamente essa influência, sobretudo sobre o jornalismo, que deve ser, antes de tudo, comprometido com o interesse público. Nosso papel é o da defesa da sociedade e, portanto, o de investigar, denunciar com independência o poder indevido do setor e exigir das autoridades  regras mais estritas às propagandas e à atuação das bets. 

Ao aceitar propagandear os jogos online, consideramos que estaríamos contradizendo informações apuradas com rigor pelas nossas equipes. 

A seriedade da atual epidemia que tem vulnerabilizado, sobretudo, os mais pobres, não pode ser relativizada por conta de interesses comerciais, sob pena de minar a credibilidade do jornalismo.

Mais do que isso: entendemos que os veículos de jornalismo precisam se posicionar institucionalmente contra a influência crescente das bets no debate público – seja pelo lobby, seja pela compra de espaços publicitários. Deve, ainda, cobrar das autoridades ações para proteger a população da propaganda e da influência pública das Bets, assim como regular sua atuação e trabalhar para mitigar os danos já causados. 

Para combater essa epidemia os setores público e privado e a sociedade organizada têm de atuar conjuntamente e com a urgência que a questão social exige.

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