Qual é a definição de o que é um videogame? Perguntei para o Gemini, a IA generativa do Google, e a resposta foi: “Videogame é um jogo eletrônico que envolve a interação com uma interface de usuário para gerar feedback visual (e geralmente sonoro) em um dispositivo de vídeo”.
Há alguns dias, ações de diversas empresas de games caíram vertiginosamente após o anúncio da nova versão do Project Genie, modelo de inteligência artificial do Google capaz de criar mundos interativos usando a tecnologia generativa.
Capcom, Konami e Nintendo viram seus papéis recuarem entre 1,3% e 7%. Até mesmo as desenvolvedoras chinesas, que costumam ser menos afetadas com questões tecnológicas ocidentais, recuaram. A Take Two, que este ano lançará o provável novo recordista da indústria do entretenimento, GTA VI, também viu as ações desabarem 10%.
E quem tomou o maior tombo no insignificante mercado financeiro foram as empresas que criam os “motores gráficos” para jogos, como Epic Games e Unity – essa última, por exemplo, derreteu 20%.
O mercado vê os avanços de IA generativa como o Project Genie como uma ameaça ao modelo centralizado, caro, complexo e autoral de produção de jogos.
Se existir uma ferramenta capaz de criar mundos altamente detalhados em segundos, por que investir numa empresa que gasta milhões de dólares em talento humano que demora anos produzindo esses mundos interativos? E, volto à minha pergunta do começo do texto: o que faz um videogame ser um videogame?
Se nos contentarmos com a resposta do Gemini, as experiências criadas pelo Genie certamente são games. Um usuário interage, algo acontece e é reproduzido numa tela. Simples, né?
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Não muito satisfeito, recorri também ao Michaelis (lembra que existe um troço chamado dicionário? É divertidíssimo, você deveria conhecer) que tem uma definição levemente diferente: “Jogo em que imagens e sons aparecem numa tela de televisão ou de computador desafiando o usuário a manipulá-las eletronicamente, a tomar decisões rápidas e/ou a responder a perguntas e desafios exibidos na tela; videojogo.”
Ambos concordam que um videogame exige interação e uma tela, mas o Michaelis aprofunda que a interação é incentivada a partir de desafios. E é justamente a essência do desafio que, no fundo, define verdadeiramente o que é um videogame.
Não sou nem o maior inimigo nem o mais ferrenho defensor de AI. Acredito que a tecnologia é uma ferramenta poderosa para a execução de tarefas e até mesmo de arte.
Não há filme sem uma câmera, e hoje em dia não é mais uma questão dizer que cinema não é arte porque isso se restringe à atuação ao vivo nos palcos do teatro. E, ainda usando a sétima arte como exemplo, não se questiona mais se animações como Toy Story ou Guerreiras do K-POP merecem concorrer a prêmios da academia.
Em todos esses casos, a tecnologia é uma aliada importante e imprescindível para criação de arte. Então o mesmo seria verdadeiro para as IA generativas, certo? Não. E o motivo, eu sei, é extremamente banal: crime.
Se para fazer Vida de Inseto a Pixar tivesse utilizado partes de diversos desenhos da Disney, certamente seria acusada por plágio. Roubar a arte de alguém é plágio, e plágio é crime (Art. 184 do Código Penal Brasileiro).
Há quem diga que as camadas de criação das linguagens de IA generativas são tão profundas que já não constituem plágio. Por curiosidade, perguntei pro Gemini se ele acha que IA comete plágio: “A resposta curta é: depende de como você define a cópia e de como o resultado final se parece com o original”.
Espertinha, né?
Essa é uma discussão longa somente pelo interesse comercial absurdo das principais e mais ricas empresas do mundo. E também porque existem usos extremamente legítimos para inteligência artificial como ferramenta, e na internet é impossível ter discussões ponderadas sobre qualquer assunto.
Se você ainda não está convencido de que IA comete plágio – ou, ainda, se não se importa com isso -, nem adianta eu te falar o que o Gemini e o Michaelis esqueceram de adicionar na definição do que é um videogame. Ainda assim, eu te conto a minha:
“Videogame é uma experiência multimídia interativa criada por meio da expressão de um ou vários indivíduos que desenvolvem desafios com base em experiências, referências, ideais, aspirações ou curiosidade em um sistema de regras e ciclos de feedback concebidos através de ferramentas tecnológicas”.
Portanto, Project Genie não é videogame e provavelmente nunca será.



