Programada para ser divulgada entre a última semana de novembro e a primeira de dezembro, a próxima edição da Pesquisa da Indústria Brasileira de Games terminou recentemente a fase de coleta de dados e entrevistas. O objetivo do estudo, encomendado pela Abragames e executado em parceria inédita com a Go Gamers, do SX Group, ganhou novos contornos: além de descobrir quantos e onde estão os estúdios e desenvolvedores brasileiros, também medir o consumo de jogos nacionais dentro do próprio País.
O The Gaming Era conversou com exclusividade com Rodrigo Terra, presidente da Associação Brasileira das Empresas Desenvolvedoras de Jogos Digitais, sobre as novidades da próxima edição do estudo. Para o executivo, a parceria com a Go Gamers – responsável pela Pesquisa Game Brasil, o mais importante termômetro sobre o consumo e o consumidor brasileiro de jogos digitas – vai permitir novas métricas.
“Com a Go Games vamos avançar um pouco mais esse olhar de onde estamos com relação ao mercado internacional. E a Go Gamers, por ser brasileira, consegue trazer comparativos com o mercado de consumo. Até para entender se a população brasileira joga ou não jogos brasileiros, e por quê. Onde estão oportunidades e fraquezas”, pondera.
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A edição de 2026 é a terceira da Pesquisa, que busca com os dados oferecer subsídios para “melhor direcionar as ações de fortalecimento do ecossistema”, além de apresentar uma “leitura mais atual, ampla e representativa” da indústria local, segundo a associação. Serve ainda para dar subsídio a políticas públicas e atrair investimentos.
As edições anteriores foram publicadas em meados de 2022 e no fim de fevereiro de 2024. Essa última utilizou dados referentes aos anos de 2022 e 2023, tendo sido questionada à época pela demora na publicação e pela falta de dados mais atualizados, após um processo de desenvolvimento descrito pelo setor como “atribulado”. Ela descobriu, entre outras coisas, que havia 1.042 estúdios nacionais em atividade, crescimento de 3,2% em relação ao ano anterior. E que eles publicaram cerca de 2.600 jogos entre 2020 e 2022.
A nova edição dirá se esses números caíram, ficaram estáveis ou cresceram – essa última é a expectativa do próprio Rodrigo Terra. “Eu não acho que vá ser uma explosão [do número de empresas], porque isso já aconteceu na pandemia. Foi um movimento atípico. Vamos ter um crescimento de estúdios, mas não uma explosão. Já passamos de 1.040, provavelmente teremos mais de 1.100”, diz ele.
Terra diz estar curioso com relação à capacidade de reinvenção dos estúdios brasileiros nos últimos anos, já que o mercado internacional sofreu com lay-offs e contratos perdidos. Outro ponto de interesse é o uso de inteligência artificial, que apesar da aversão dos desenvolvedores e consumidores no mundo todo tem crescido em adoção.
Confira a seguir os principais momentos da conversa com o presidente da Abragames.
The Gaming Era: A pesquisa de 2026 é basicamente uma atualização do estudo anterior ou há novidades? Qual seu objetivo geral e importância?
Rodrigo Terra: Ela é um repeteco, mas também não é. Com a parceria da Go Gamers, a ideia é fazer melhorias a cada pesquisa. A ideia é que a gente consiga ter uma consistência e regularidade nos dados. Estamos há três anos sem atualização, até por conta dos movimentos da própria pesquisa, e entendemos que nesse período não houve mudanças tão drásticas. Por isso resolvemos deliberadamente esperar um pouco mais, e buscar novas parcerias.
A Go Gamers é a grande novidade porque conseguimos ampliar a medição do mercado. Muito do que se usa de dados da indústria já parte deles, da Pesquisa Game Brasil. E tanto o poder púbico como as empresas, as entidades, acabam norteando um pouco o mercado pela pesquisa nacional [da Abragames].
Temos dois desafios paralelos, mas em que estamos vendo avanços. Primeiro identificar quem é o desenvolvedor brasileiro. Temos 11 CNAEs [Classificação Nacional de Atividades Econômicas, que tipifica a atividade econômica exercida por uma empresa], um espectro muito amplo. Com a criação de CNAEs para o desenvolvimento de jogos, vamos aos poucos tirar uma radiografia mais precisa de como estamos.
E [o segundo desafio] é entender o estado atual da indústria [brasileira de games]. Para que órgãos, entidades e empresas possam utilizar [o estudo] para estabelecer políticas, projetar para onde está indo o mercado e entender o tamanho e o peso dele em crescimento daqui para frente.
TGE: Outras entidades e iniciativas também medem de diferentes formas o mercado e a indústria de games brasileira, inclusive consultorias internacionais. Mas é diferente quando a Abragames faz isso. Qual o peso dessa responsabilidade para a entidade?
Terra: Temos um papel de representação do mercado. Pesquisas externas contemplam algumas informações que nós mesmos usamos para fazer a pesquisa nacional. Usamos dados de estudos internacionais também. Elas têm seu valor. Mas medem muito o consumo e têm um olhar de comparação com o mercado internacional, o que também é importante.
A Abragames, enquanto entidade de empresas, olha para o setor enquanto indústria mesmo. E medimos o mercado por dentro. Nós estamos no dia a dia das empresas, entendemos o que acontece, os movimentos e tempos do mercado, sejam bons ou ruins. Acaba que a gente consegue ter uma radiografia melhor, porque vivemos o mercado interno.
Com a Go Games vamos avançar um pouco mais esse olhar de onde estamos com relação ao mercado internacional. E a Go Gamers, por ser brasileira, consegue trazer comparativos com o mercado de consumo. Até para entender se a população brasileira joga ou não jogo brasileiro, e por quê. Onde estão oportunidades e fraquezas. É uma novidade que vamos buscar.
TGE: Fale um pouco mais sobre a parceria com a Go Gamers. Que outras novidades eles trazem? Houve mudanças na metodologia?
Terra: A metodologia fizemos a quatro mãos. Trouxemos a nossa, que vínhamos trabalhando em outros anos, porque quisemos garantir a consistência de comprar laranja com laranja, sem uma disrupção em relação às anteriores. Temos um compromisso com a consistência. Muitas entidades, incluindo a academia, exigem isso. Um olhar histórico para olhar para atrás e para o agora. E fizemos também melhorias, até pela forma como a Go Gamers trabalha.
Temos um conselho formado por entidades e as empresas que tocaram os estudos anteriores, além de players de mercado. Representando academia, grandes empresas, publishers nacionais, para terem um olhar sobre a utilidade dos dados. Ele ajuda a dar consistência e a avançar.
E vamos ter uma radiografia melhor de quem são as empresas do País. Temos uma parceria institucional com o Sebrae, por conta do trabalho com o Sebrae Nacional, que busca alcançar o desenvolvedor realmente pequeno, no interior, que muitas vezes não está conectado com as grandes redes de desenvolvimento de jogos e não acompanha a mídia especializada.
Através dessas parceiras vamos ter dados realmente granulares, para entender as características reais dessas empresas.
TGE: Nas edições anteriores da pesquisa houve críticas com relação ao timing de divulgação e a alguns dados. Que aprendizados vocês tiraram desses questionamentos e o que eles permitiram no estudo desse ano?
Terra: Eu acho que muito em relação à metodologia mesmo. Em anos anteriores tentamos buscar a maior quantidade de bancos de dados possíveis, e fazer a pesquisa direta com as empresas, pessoas jurídicas, profissionais etc.
O grande aprendizado foi fazer parcerias estratégicas, que ajudam a chegar mais longe. Na MEI, no freelancer, pegar quem não é PJ mas está trabalhando. E dar visibilidade para isso, onde existe possiblidade de formalização, saber quem ainda está estudando games etc. Eram grupos que a gente conseguia alcançar, mas pouco. Por isso precisamos desenvolver essas parcerias.

TGE: Você mencionou os CNAEs para empresas de games em resposta anterior. Esse é um item previsto no Marco Legal dos Games que ainda não saiu do papel. A Abragames tem uma expectativa sobre quando essas novas classificações serão finalmente publicadas?
Terra: Fizemos um trabalho quanto a isso durante o período do grupo de trabalho interministerial [que gerou o decreto assinado recentemente pelo presidente Lula], e um dos itens de entrega era a concretização dos CNAEs. Alguma coisa deve ser anunciada em breve, mas não sei quando.
É um trabalho que o IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] faz a cada X anos com o ISIC [International Standard Industrial Classification, lista mantida pela divisão de estatísticas da ONU, a UNSD], e já existe um movimento de organizar os novos mercados digitais. A ISIC ainda tem coisas anacrônicas, como classificar videogames como software, que é uma categorização dos anos 1990 que foi sofrendo puxadinhos ao longo das décadas. E game não é exatamente software. É outro produto.
Mas acho que vamos ter novidades sim. Achamos que ano que vem. E depois vem um segundo movimento, que é o de mudar o contrato social das empresas, e aí tem a questão tributária, com a Reforma Tributária aprovada recentemente. O CNAE para fins de mapeamento [da pesquisa da Abragames] é muito importante. Mas se houver agora algum movimento [de criação das classificações] ainda temos pela frente o tempo de adesão das empresas.
TGE: E quais são suas expectativas para a próxima edição do estudo. No ano anterior haviam 1.040 empresas de games no País. Você acha que esse número cresceu?
Terra: Eu acho que não vai ser uma explosão [do número de empresas], porque isso já aconteceu na pandemia. Foi um movimento atípico. Vamos ter um crescimento de estúdios, mas não uma explosão. Já passamos de 1.040, provavelmente teremos mais de 1.100.
Para efeito de comparação é mais que o número da França, que tem 900 e alguma coisa. Devemos estar com um número maior, considerando o espectro que vai das MEIs até as grandes.
Eu estou curioso com relação à capacidade dos estúdios se reinventarem nos últimos anos. Como elas estão se organizando nesse momento que sabemos que é macro da indústria: muitos lay-offs, reorganização, contratos perdidos. Houve recuperação? O pequeno está conseguindo se colocar nesse mercado turbulento? Qual a capacidade de geração de negócios das PMEs.
O uso da inteligência artificial também é uma curiosidade. Tem um “ame ou odeie” muito grande agora no mundo, não só no Brasil. Todo mundo está assim, no mundo inteiro. Vamos entender o que vai aparecer na pesquisa. Saber se [essa aversão] é real ou não.



