Quando se observa o movimento da Arábia Saudita para transformar games e esportes eletrônicos em uma indústria estratégica, é fácil concentrar a atenção nos bilhões de dólares investidos, nas aquisições de empresas e na construção de grandes eventos. Mas existe uma dimensão menos evidente e talvez tão importante quanto o capital: onde estão os mercados capazes de sustentar o crescimento dessa indústria no longo prazo?
É nesse ponto que a América Latina ganha relevância. A região reúne uma combinação particularmente interessante de população jovem, forte presença digital, expansão do mercado de games mobile, comunidades competitivas e uma cultura de consumo de entretenimento cada vez mais integrada às plataformas digitais.
Dentro desse cenário, o Brasil ocupa uma posição especial. Não apenas pelo tamanho de seu mercado consumidor, mas pela capacidade de produzir audiência, talentos, conteúdo, comunidades e influência cultural que ultrapassam suas próprias fronteiras.
O Brasil já não pode ser analisado apenas como um país que compra jogos produzidos nos Estados Unidos, na Europa ou na Ásia. O mercado brasileiro desenvolveu uma comunidade gamer própria, com hábitos de consumo, criadores de conteúdo, organizações de esportes eletrônicos, competições, desenvolvedores independentes e uma indústria de serviços que participa de diferentes etapas da cadeia. Isso muda a natureza da oportunidade.
Para uma empresa global, entrar no Brasil não significa simplesmente vender mais cópias ou aumentar o número de downloads. Significa acessar uma das maiores comunidades de jogadores do mundo e, ao mesmo tempo, estabelecer uma presença em um território que pode funcionar como laboratório para produtos, estratégias comerciais e modelos de relacionamento com comunidades. A escala brasileira permite testar hipóteses que, depois, podem ser adaptadas para outros mercados latino-americanos.
Essa característica se torna ainda mais relevante quando analisamos a expansão dos jogos mobile. A América Latina possui uma relação muito particular com o celular como principal porta de entrada para serviços digitais. Em muitos casos, o smartphone foi o primeiro dispositivo conectado utilizado de maneira intensiva por milhões de consumidores. Isso criou condições favoráveis para a expansão de jogos que conseguem combinar acessibilidade, competição, interação social e modelos gratuitos ou de baixo custo de entrada.
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Títulos como Free Fire demonstraram que é possível construir comunidades gigantescas fora dos mercados tradicionalmente considerados centros da indústria. League of Legends e outros grandes títulos competitivos também ajudaram a consolidar uma cultura de esportes eletrônicos na região, mostrando que o público latino-americano não quer apenas jogar, mas também acompanhar campeonatos, torcer por equipes, seguir jogadores, consumir transmissões e participar das comunidades.
É justamente essa combinação entre consumo e participação que torna a América Latina estrategicamente interessante. Um mercado de games não é formado apenas por pessoas que compram ou baixam jogos. Ele é composto por jogadores, espectadores, criadores de conteúdo, streamers, influenciadores, organizações, desenvolvedores, publishers, patrocinadores, plataformas de pagamento, empresas de tecnologia, universidades e uma série de outros atores.
Quanto maior a capacidade de interação entre esses grupos, maior tende a ser o valor econômico e cultural produzido pelo ecossistema. Por isso, quando uma empresa avalia a América Latina, precisa olhar para muito mais do que indicadores tradicionais de vendas. É necessário compreender a capacidade de formação de comunidades e de criação de audiência que existe na região.
Nesse contexto, a aquisição da Moonton pela Savvy Games Group ganha uma dimensão particularmente interessante. A empresa responsável por Mobile Legends: Bang Bang construiu uma presença significativa em mercados asiáticos e em outras regiões emergentes, incluindo a América Latina. O movimento saudita, portanto, não representa somente a aquisição de uma desenvolvedora e de uma propriedade intelectual. Ele amplia a capacidade de atuação em mercados onde a expansão dos games mobile ainda possui enorme potencial.
Para uma estratégia que pretende construir uma indústria global de games e esportes eletrônicos, controlar empresas com capacidade de operar em diferentes regiões significa também adquirir conhecimento sobre públicos, comunidades, modelos de monetização e hábitos culturais que não podem ser simplesmente importados de um mercado para outro.
Multiplicidade
E aqui existe uma questão que merece atenção: a América Latina não é um mercado homogêneo. Brasil, México, Argentina, Chile, Colômbia e outros países possuem diferenças importantes de renda, infraestrutura, cultura, comportamento digital e organização do mercado de esportes eletrônicos. Tratar a região como um único território pode ser um erro estratégico.
Ao mesmo tempo, existem elementos culturais e linguísticos que permitem construir estratégias regionais, especialmente quando empresas conseguem identificar lideranças locais e compreender as características de cada comunidade. O Brasil, por seu tamanho, pode exercer um papel de porta de entrada, mas não deve ser confundido com toda a América Latina.
Essa posição brasileira é reforçada por uma característica que muitas análises econômicas deixam em segundo plano: o Brasil produz cultura gamer. Produzimos jogadores, equipes, narrativas, memes, influenciadores, transmissões e comunidades que alcançam milhões de pessoas. Algumas dessas manifestações permanecem restritas ao País, enquanto outras conseguem ultrapassar fronteiras.
O brasileiro possui uma capacidade particularmente forte de transformar entretenimento em fenômeno social. Isso pode ser observado não apenas nos grandes campeonatos, mas também na maneira como comunidades se organizam em torno de criadores, equipes e jogos. Para uma indústria global, esse tipo de engajamento possui valor econômico, porque audiência recorrente é um dos ativos mais importantes do entretenimento digital.
Mercado vs indústria
É nesse ponto que precisamos mudar a maneira como discutimos o papel do Brasil. Durante muito tempo, o País foi visto principalmente como um grande mercado consumidor. Essa visão é insuficiente. O Brasil pode ser simultaneamente mercado, laboratório, produtor de talentos, polo de serviços, centro de eventos e plataforma cultural para a América Latina.
A diferença parece apenas semântica, mas possui consequências econômicas enormes. Um país que se enxerga somente como consumidor tende a atrair produtos. Um país que se enxerga como parte da cadeia produtiva começa a atrair investimentos, empresas, formação profissional, pesquisa, desenvolvimento tecnológico e propriedade intelectual.
Essa transformação é particularmente importante porque o custo de operação também influencia as decisões internacionais. A América Latina pode oferecer estruturas de custo competitivas em determinadas atividades da cadeia dos games, seja em desenvolvimento, produção de conteúdo, suporte, localização, marketing, operações ou serviços especializados.
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Entretanto, seria um erro transformar esse argumento em uma competição baseada simplesmente em mão de obra barata. Se essa for a principal vantagem oferecida pelo Brasil, sempre haverá outro país capaz de oferecer custos menores. A estratégia mais inteligente é combinar competitividade com qualificação. Talento barato pode atrair um projeto; talento qualificado, criatividade e capacidade de inovação podem construir uma indústria.
O Brasil possui condições para avançar nessa direção, mas ainda enfrenta obstáculos importantes. A formação de profissionais especializados continua sendo um desafio. A integração entre universidades e empresas precisa avançar. A burocracia, a tributação, as dificuldades de acesso a capital e a falta de políticas públicas de longo prazo também reduzem a capacidade de crescimento de empresas brasileiras.
O País possui uma enorme comunidade de jogadores, mas isso não significa automaticamente que possua uma indústria proporcional ao tamanho desse público. Existe uma diferença entre ter milhões de consumidores e conseguir transformar parte desse consumo em produção, propriedade intelectual, empregos qualificados e empresas competitivas internacionalmente.
Oportunidades e estratégia
É justamente nessa diferença que pode estar a maior oportunidade para a América Latina diante da expansão saudita. Capital estrangeiro pode acelerar processos que demorariam décadas para serem construídos internamente. Pode financiar eventos, adquirir empresas, desenvolver produtos, criar infraestrutura e conectar mercados. Mas, para que esse capital produza valor duradouro, é necessário encontrar um ecossistema capaz de absorvê-lo.
Não basta trazer dinheiro para o mercado. É preciso ter pessoas qualificadas, empresas capazes de executar projetos, instituições de ensino conectadas à indústria, segurança jurídica, mecanismos de financiamento e comunidades dispostas a participar.
Investimento sem ecossistema gera dependência. Investimento combinado com capacidade local pode gerar desenvolvimento.
Essa questão também coloca o Brasil diante de uma escolha estratégica. Podemos simplesmente esperar que grandes grupos internacionais decidam quanto querem investir no País e em quais áreas desejam atuar. Ou podemos construir uma agenda própria para games e esportes eletrônicos, identificando nossas vantagens e estabelecendo prioridades.
Essa agenda deveria envolver educação, desenvolvimento de jogos, tecnologia, infraestrutura digital, eventos, pesquisa, propriedade intelectual, internacionalização de empresas e formação de profissionais. Também deveria reconhecer que games não são apenas entretenimento. Eles fazem parte da economia digital, da indústria criativa, da tecnologia e, cada vez mais, da disputa internacional por atenção e influência cultural.
A experiência saudita mostra exatamente por que essa discussão precisa ser ampliada. O país está utilizando seu poder financeiro para ocupar posições em diferentes pontos da cadeia global dos games. Não se trata apenas de organizar torneios ou financiar equipes. A estratégia envolve participação acionária, aquisição de empresas, desenvolvimento de eventos, criação de infraestrutura e construção de uma presença internacional.
A América Latina, nesse cenário, pode representar uma das regiões onde essa estratégia encontrará mercados consumidores relevantes e comunidades capazes de sustentar novos ciclos de crescimento. O desafio para os países latino-americanos será decidir se querem apenas receber esse movimento ou se pretendem utilizá-lo para fortalecer suas próprias capacidades.
Para o Brasil, isso significa pensar além da lógica de “atrair investimento”. Investimento estrangeiro é importante, mas a pergunta mais importante é o que fica depois que o investimento chega. Quantos profissionais serão formados? Quantos estúdios serão criados? Quantas propriedades intelectuais brasileiras poderão nascer? Quantas empresas locais conseguirão internacionalizar seus produtos? Quantas universidades estarão conectadas à indústria? Quantos empregos qualificados serão gerados? Quantas empresas latino-americanas poderão utilizar o Brasil como plataforma para alcançar outros mercados?
Essas são perguntas muito mais importantes do que simplesmente contabilizar o volume de dinheiro que entrou no país.
Local e global
Também existe uma dimensão cultural que não pode ser ignorada. Games são produtos globais, mas são consumidos localmente. Uma estratégia que funciona na Ásia pode precisar ser completamente adaptada para a América Latina. Comunidades possuem códigos próprios, jogadores possuem referências culturais diferentes e os modelos de comunicação variam significativamente.
Quem compreender essas particularidades terá vantagem. Por isso, o conhecimento produzido localmente é um ativo estratégico. Pesquisadores, organizações, criadores, jogadores e empresas latino-americanas não deveriam ser vistos apenas como consumidores de uma indústria global, mas como fontes de conhecimento sobre um dos mercados mais promissores do entretenimento digital.
O Brasil também precisa compreender que sua força não está somente em seu tamanho. Está na diversidade. Temos diferentes regiões, comunidades, perfis de jogadores e manifestações culturais. Temos uma capacidade de criação que já se mostrou competitiva em música, audiovisual, publicidade, tecnologia e economia criativa. Games podem se beneficiar dessa mesma capacidade.
O grande desafio é transformar criatividade dispersa em indústria estruturada. Para isso, precisamos de políticas públicas consistentes, ambiente regulatório adequado, capital, formação e, principalmente, uma visão de longo prazo.
A América Latina, portanto, não deveria olhar para a movimentação saudita apenas como uma história sobre dinheiro do Oriente Médio chegando ao setor de games. Existe uma transformação muito maior acontecendo. O mercado global está percebendo que o crescimento futuro dos games não estará concentrado exclusivamente nos mercados tradicionais.
África, Oriente Médio, Sudeste Asiático e América Latina terão papel crescente na expansão das audiências, na formação de novos jogadores e na construção de novas comunidades. Quem conseguir estabelecer presença nessas regiões terá acesso não apenas a consumidores, mas a novos talentos, novas ideias e novas oportunidades de negócio.
PEDRO ZAMBON: Os bastidores do Marco Legal dos Games: como surgiu a legislação mais importante da história do País para o setor?
Para o Brasil, a questão é ainda mais direta. Não precisamos competir com a Arábia Saudita em volume de capital. Precisamos competir em capacidade de transformar pessoas, criatividade e mercado em valor. O dinheiro saudita pode construir infraestrutura e comprar ativos. O Brasil pode oferecer algo que não se compra facilmente: uma enorme comunidade, diversidade cultural, talento criativo, capacidade de formação de audiência e uma posição estratégica dentro da América Latina.
Mas essas vantagens só terão valor econômico se forem organizadas dentro de uma estratégia nacional.
No fim, a grande oportunidade brasileira talvez esteja justamente em compreender que a disputa global pelos games não será vencida apenas por quem tem mais dinheiro. Será vencida por quem conseguir combinar capital, tecnologia, talento, cultura e comunidade. A Arábia Saudita já demonstrou que pretende disputar essa corrida com enorme capacidade financeira. O Brasil ainda precisa decidir qual será o seu papel.
Seremos apenas um dos grandes mercados consumidores dessa nova indústria global ou teremos ambição para nos tornar um dos lugares onde essa indústria também é criada? Essa é a pergunta estratégica que o Brasil precisa responder antes que outros países respondam por nós.



