Fundada em 2011 como uma loja digital de jogos para PC, a plataforma brasileira Nuuvem se aproxima dos 15 anos de vida maior e diversificada. A empresa, que ainda vende os códigos, claro, mas também gift cards para consoles e outros itens, além de ter se firmado como uma profícua publisher de jogos brasileiros – já foram 10 publicados, o que já significa mais de 10% do faturamento atual.
A Nuuvem cresce em média 40% ao ano, e atingiu a marca de R$ 200 milhões em faturamento no ano passado – com meta de chegar a R$ 500 milhões até o fim de 2028.
O próximo passo no plano de se tornar “uma plataforma global de games” foi dado essa semana, com um anúncio de investimento obtido por parte da gigante japonesa Square Enix. E o dinheiro tem um objetivo claro: ajudar a Nuuvem a terminar e aprimorar a plataforma Spawnd, tecnologia que permite aos PCs (até os mais modestos) rodarem demonstrações (as “demos”) direto no navegador, sem necessidade de baixá-las usando uma loja já estabelecida – como a Steam, da Valve, ou a Epic Games Store, entre tantas outras.
Segundo Fernando Campos, CEO da Nuuvem, o dinheiro servirá para que a tecnologia, lançada primeiro em fase alfa com cerca de 13 jogos, chegue ao fim desse ano já em sua versão definitiva. A meta é ter mais de 100 demonstrações disponíveis no mesmo prazo – inclusive de jogos mais pesados.
“Ele [o Spawnd] usa as APIs mais novas que os browsers estão oferecendo. Uma das mais novas é a WebGPU, que permite que o navegador acesse toda capacidade gráfica do computador, inclusive com Ray Tracing e coisas que você julgaria impossíveis de rodar em um navegador”, explica Campos, em entrevista ao The Gaming Era.
A missão com a nova tecnologia, segundo o executivo, é ajudar estúdios e editoras a lidarem com uma dificuldade típica das lojas digitais: a visibilidade dos produtos (nesse caso, os games). E a forma de fazer isso seria deixando com que os jogos encontrem os jogadores, e não o contrário. Mas sem substituir as lojas com as quais os jogadores já estão acostumados.
“Eu sou um jogador do Steam, a maior parte dos meus jogos estão no Steam, nós entendemos a paixão pela plataforma. Nós [a Nuuvem] só existimos por causa do Steam, e somos muito gratos por isso”, explica o CEO. “Uma das nossas prioridades é não depender do gargalo das plataformas. Alguns jogos bons vão sempre ficar enterrados, então porque não deixar em aberto para que os jogos possam encontrar as pessoas, não só as pessoas os jogos?”
Confira a seguir os melhores momentos da conversa do TGE com o CEO da Nuuvem:
TGE: A primeira e natural pergunta é: qual o valor do aporte? Vocês podem revelar o tamanho da participação adquirida pela SE?
Fernando Campos: Não estamos divulgando. Mas é um investimento minoritário. A Nuuvem mantém a independência e o controle, mas agora com um sócio de peso.
TGE: Agora uma pergunta um pouco mais pessoal. Talvez você, como eu, tenha crescido jogando Final Fantasy. Então qual a sensação de receber investimento da Square Enix?
Campos: É emocional. Eu e o Thiago [Diniz, COO e cofundador da Nuuvem] estamos meio extasiados. Minhas primeiras palavras de inglês aprendi com Final Fantasy. Eu usava o dicionário para traduzir para onde tinha que ir… Joguei o game inteiro com o dicionário do lado.
Então para mim é algo muito pessoal. A empresa que fez um dos meus jogos favoritos investir na gente. É bem pessoal mesmo, estamos muito felizes e honrados.
E uma empresa desse tamanho reconhecer o Brasil é muito importante. Para a gente [o aporte] veio curiosamente em paralelo com um acordo de distribuição, em que seríamos um dos primeiros parceiros da Square Enix fora das grandes plataformas. Mas a conversa acabou se aprofundando, já que eles gostaram do que estamos construindo.
E a América Latina é um mercado prioritário para eles, querem muito investir aqui.
TGE: Eu sei que estou perguntando algo que deveria perguntar para a Square Enix, mas qual o interesse deles na região, na sua opinião?
Campos: É um mercado que mantém um crescimento constante. Temos um público maior do que o da América do Norte, apesar do consumo per capta muito baixo. Eles percebem um potencial de crescimento muito grande para quem souber trabalhar no mercado local e entender as peculiaridades. Há muito tempo eles dizem que estão de olho na América Latina.
E aqui está a maior população de origem japonesa fora do Japão, então existe uma identificação cultural. E um dos gêneros mais populares aqui é o RPG, o JRPG. Temos esse carinho enorme pela cultura japonesa.
Sinceramente há uma sinergia muito grande com o Brasil, até maior do que com países europeus, se você pensar bem. Para eles é uma evolução muito natural.
TGE: Você já disse que tudo começou com a discussão do acordo de distribuição anunciado também esse mês, mas que há um interesse da SE pelo Spawnd. São dois acordos diferentes, certo?
Campos: Sim. A discussão com eles começou com o acordo de distribuição. No meio da conversa, com o acordo de representação andando muito bem, mostramos para eles o que estávamos fazendo. E eles adoraram.
A Square Enix investe muito em tecnologias inovadoras. Investiram em cloud gaming muito antes de outras empresas. Eles adoraram e queriam ver mais. E aí fomos conversando, mas acabou que a conversa evoluiu.
São dois acordos separados, um puxou o outro. E fez muito sentido. É uma versão alpha [do Spawnd] que lançamos agora, com poucos jogos. A intenção é aumentar esse número com o apoio da Square Enix.
TGE: Em que o dinheiro obtido com o aporte será investido?
Campos: O foco é expandir a equipe do Spawnd e com certeza o investimento veio com esse foco.
TGE: Talvez eu esteja entrando no campo do segredo industrial aqui, mas como o Spawnd funciona? Ele não é um serviço de nuvem, certo?
Campos: Eu posso falar um pouquinho. Na verdade, dizemos que ele é uma plataforma web native. Roda nativamente no browser, o que significa que não é preciso se preocupar com a instalação. Ele é baixado gradualmente para dentro do computador, e quando está todo carregado dá até para jogar sem internet.
A vantagem é ter uma experiencia igualzinha a nativa, sem fila, sem precisar pagar assinatura. É mais eficiente.
Ele usa as APIs mais novas que os browsers estão oferecendo. Uma das mais novas é a WebGPU, que permite que o navegador acesse toda capacidade gráfica do computador, inclusive Ray Tracing e coisas que você julgaria impossíveis de rodar em um browser.
Eu consigo atender cientes de forma mais simples e barata, de forma análoga a rodar no PC.
É possível rodar até realidade virtual, usar um game pad, gráficos de primeira linha, multiplayer, tudo isso ele é capaz de fazer. A diferença para a nuvem é muito grande, porque não tem os problemas comuns dessas plataformas, como latência, filas…
Obviamente, como roda localmente, depende de [o usuário] ter um hardware médio decente. Roda até melhor [comparativamente] em hardwares mais fracos, mas ainda depende do hardware local.
TGE: Olhando agora para o catálogo de demos disponíveis no Spawnd é possível ver principalmente jogos mais leves, mas você está me dizendo que a tecnologia é capaz de rodar games pesados, até triplo As. Como os da Square Enix.
Campos: Sem dúvida. Temos a possiblidade de fazer isso. O porting demora um pouco mais, mas as limitações técnicas para rodar um triple-A no browser caíram. Não vou dizer que exista uma paridade total, mas [é possível chegar a] 80% da performance nativa. Falta muito pouco.
Os próprios browser vendors estão olhando muito para isso. A inteligência artificial usa essa mesma tecnologia [WebGPU], então é questão de tempo.
TGE: Que recursos do Spawnd já estão disponíveis desde o lançamento? O compartilhamento por incorporação, por exemplo? E quando a versão final deve estar disponível?
Campos: O compartilhamento está disponível desde agora. Você pode “embedar” o jogo onde for permitido ou compartilhar um link usando a versão [com protocolo] Open Graph.
Em termos de sair da versão alfa, esperamos que até o fim do ano já tenhamos saído até do beta. Não vamos chamar isso de lançamento, porque ele já está ocorrendo, e serão muitas features novas.
Muito do que estamos fazendo é para ajudar estúdios e publishers. Temos nos focado muito nos dados, para entender até onde as pessoas estão jogando as demos, com quem estão compartilhando. Elas vão poder facilmente inserir um código e saber que o tráfego veio de um site específico, e quantos foram comprar no Steam. Isso dá muito poder porque você pode se aproximar de uma editora e mostrar o resultado.
A ideia é criar uma ferramenta que ajude o ecossistema como um todo.
TGE: Parece natural supor que o Spawnd também seria capaz de rodar jogos completos no futuro. É esse o objetivo da Nuuvem?
Campos: Está no roadmap, mas não agora. Queremos ajudar os jogos a serem descobertos. Achar a audiência. Essa é uma das grandes belezas de compartilhar uma demo fora de uma plataforma: dá para encontra o jogo em um fórum na Coreia do Sul ou um site de notícias da Polônia, por exemplo. Esse é um dos nossos objetivos.
Mas sim, é uma evolução natural. Em um primeiro momento queremos mostrar que a web é uma maneira eficiente de gerar descoberta para um jogo.
Eu sou um jogador do Steam, a maior parte dos meus jogos estão no Steam, nós entendemos a paixão pela plataforma. Nós [a Nuuvem] só existimos por causa do Steam, e somos muito gratos por isso.
Por isso queremos ser complementares a eles, melhorar o que eles [a Valve] já fazem. Nosso objetivo é sempre dar a escolha para o usuário, não forçar a trocar de plataforma como algumas [plataformas concorrentes] fizeram. Não achamos que esse seja o melhor caminho.
TGE: Você menciona essa questão da visibilidade dos jogos, o que os gringos chamam de “discoverability”. O que traduzindo podemos chamar de “como eu faço para acharem o meu jogo?”. Recentemente noticiamos uma pesquisa sobre o assunto mostrando que é a principal preocupação atual de publishers e desenvolvedores. Era nisso que vocês estavam pensando quando decidiram criar o Spawnd?
Campos: É exatamente isso. Aprendemos na prática porque o Nuuvem trabalha com mais de 450 publishers e temos mais de 11 mil jogos na nossa loja. A dor número 1 que escutamos de indies e triple-As é a mesma: “eu não consigo que meu jogo seja descoberto!”.
O Steam tem feito um excelente trabalho, mas você ainda briga pelo mesmo ranking para conseguir um pouco de visibilidade. A Steam Fest é ótima para as demos, mas é limitada. Só é possível participar uma vez! E são só duas semanas.
As grandes plataformas viraram gargalos de descoberta. Um pequeno número de jogos consegue ter essa visibilidade, outros não. Tem jogos que chegam até a Nuuvem e não acreditamos que não foram grandes sucessos.
É daí que veio o Spawnd. Uma das nossas prioridades é não depender do gargalo das plataformas. Alguns jogos bons vão sempre ficar enterrados, então porque não deixar em aberto para que os jogos possam encontrar as pessoas, não só as pessoas os jogos.
Por isso nos focamos em lançar os recursos de incorporação e compartilhamento desde o início. Porque esse funil leva direto ao Steam. A demo entra gratuitamente [no Spawnd], não precisa pagar nada, nem assinar nenhum contrato. A plataforma é curada, não aceitamos qualquer jogo, mas todo tráfego que vem para o Spawnd direcionamos para o Steam, porque é onde os desenvolvedores querem estar.
TGE: Para encerrar: qual a expectativa de vocês a partir do aporte? Onde vocês querem chegar com o Spawnd? E isso passa por atrair outros investidores internacionais de grande porte como a Square Enix?
Campos: Estamos sempre abertos a novos parceiros e a ter conversas com investidores. Nunca tínhamos tido investidores. Éramos totalmente bootstrappers [jargão do mercado de startups para autofinanciados] até agora. A SE foi uma exceção e estamos muito felizes. Mas estamos sempre abertos a discutir parcerias que nos ajudem a alcançar nossa missão: criar uma plataforma global.
A Spawnd já está disponível em cinco idiomas – mandarim, japonês, espanhol, inglês e português – e devemos incluir outros muito em breve. Queremos que ele chegue a qualquer audiência.
E que tenha mais de 100 jogos até o fim do ano. São 13 no lançamento, mas já temos outros na fila para as próximas semanas. Tem muita coisa legal para vir. E rapidamente queremos escalar isso para milhares!
Não queremos ter milhões, a plataforma precisa ter curadoria. Estamos evitando jogos casuais e hipercasuais, que não são a nossa praia. Nossa praia são os jogos core, como chamamos.
E estamos conseguindo nesse momento ir por um caminho que faz sentido. Mas são “baby steps”, um passo de cada vez. Estamos tomando todo cuidado do mundo.



