Reduflação é um termo que você pode até não lembrar, mas conhece muito bem. Sabe quando a barra de chocolate passou a pesar 90g e não mais 150g? Ou ainda quando o leite de 1 litro agora tem só 800 ml? Pois é, nós brasileiros conhecemos bem esse fenômeno que os gringos agora passam a conhecer pelo nome de shrinkflation.
Países em desenvolvimento estão acostumados com medidas adotadas para lidar com a inflação e a instabilidade econômica. Países desenvolvidos dificilmente enfrentam isso.
E o que a redução do número de bolachas no pacote de Passatempo tem a ver com games? Bem, espero que o suficiente para te convencer de que estamos entrando em uma era em que temos uma grande chance de ser vanguarda.
Seguindo os dados compartilhados para investidores, a Capcom anunciou vendas recordes no ano fiscal que acabou no dia 31 de março de 2025: mais de 51,8 milhões de unidades de jogos vendidas. Isso não deve ser surpresa para você, visto o incrível histórico recente da empresa japonesa.
O que você talvez não saiba é que a maior parte do faturamento não veio do lançamento dos novíssimos Monster Hunter Wilds e Resident Evil Requiem.
Pasme: 75% das vendas da Capcom foram de jogos antigos, o que aqui no Brasil o varejo conhece muito bem como catálogo.
Por aqui, o catálogo sempre foi mais relevante do que os lançamentos para o faturamento saudável das publishers. Isso era verdade há 20 anos, quando as vendas eram todas feitas via varejo com jogos físicos, e continua sendo hoje, com um mercado predominantemente de jogos digitais.
As publishers que estão há mais anos no Brasil, como Sony, EA, Warner Bros. e Ubisoft, entre outras, sabem bem o valor de trabalhar suas propriedades intelectuais para continuar sempre performando bem com jogos dos anos anteriores.
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O Brasil é especialista em construir relacionamento a partir de lançamentos, mas mirando a vida longa do jogo. Cada lançamento é uma oportunidade de vender os jogos anteriores da franquia em uma promoção tentadora e com preço muito mais justo para a parte da população que sofre, veja só, com os efeitos da inflação no seu poder de compra.
Os EUA e demais países do mundo que enfrentam recessões ou impactos da caótica política geoglobal atual estão aprendendo que vender jogos de catálogo é a estratégia mais saudável para suas contas bancárias.
A própria Capcom, ainda nos relatórios para investidores, admitiu que a sua estratégia é fazer promoções de jogos de catálogo próximas ao lançamento dos novos títulos e, assim, impulsionar a venda de diversos jogos a preços especiais. Esse ciclo, ao longo dos anos, gera uma diversidade de faturamento que dificulta que a empresa entre em uma grande crise por conta de um lançamento que talvez não traga os resultados esperados no mês de sua estreia.
É por esse mesmíssimo motivo que, no Brasil, as campanhas de marketing têm pouco ou nenhum investimento em “pré-venda”. Surfamos o hype do lançamento e o imediatismo para vender para o topo da pirâmide, mas o real interesse é sempre movimentar vendas nas promoções que acontecem no decorrer do ano.
O Brasil e a América Latina dominam a arte do catálogo há décadas e temos muito o que ensinar para empresas que, até então, gastavam milhões em seus lançamentos e ignoravam todos os jogos anteriores, renegados ao esquecimento.
A Capcom aprendeu rápido essa lição e aplica a estratégia em nível global. E as demais publishers que enfrentam essa nova realidade do mercado podem confiar que o catálogo talvez seja a vacina mais eficiente para os tempos de crise pelos quais o mercado global passa. É mais sustentável e inteligente.
Gringos, aprendam com a gente.



