Discutindo o jogo com… Alan Mandujano, de Pokémon GO

Country manager da Scopely Explore para a América Latina relembra os 10 anos do game que continua febre nos celulares brasileiros
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Alan Mandujano, head de Pokémon GO na América Latina da Scopely Explore. Foto: Divulgação

O mexicano Alan Mandujano possui um histórico notável como “mestre Pokémon”. Na adolescência, foi um fanático assumido pelos jogos dos monstrinhos de bolso criados pela Nintendo, fazendo o papel informal de líder de comunidade e organizando eventos especiais para jogadores. Já adulto, com o lançamento de Pokémon GO, em 2016, continuou igualmente dedicado a reunir os fãs mexicanos em torno da febre. Suas iniciativas acabaram chamando a atenção da Niantic (então responsável pelo jogo), que o convidou a fazer parte de sua equipe de marketing em 2019.

Atualmente, Mandujano é o head das iniciativas de Pokémon GO na América Latina, comandando um time de dez pessoas direto do México – agora representando a empresa Scopely Explore, que adquiriu o jogo da Niantic em 2025. Falando em vídeo com o The Gaming Era, ele refletiu sobre os primeiros dez anos do app que estreou no Brasil em 3 de agosto de 2016 e continua apresentando aderência impressionante entre jogadores de todas as idades, especialmente adultos na casa dos 40 anos.

Para o executivo de 41 anos, mais do que um jogo ou um trabalho, Pokémon GO é um catalisador de memórias especiais. “Uma vez eu estava com meus pais em um jantar de família e de repente apareceu um Venusaur na rua, algo muito raro na época. Fiquei empolgado, e meus pais viram minha emoção e ficaram também. Largamos tudo e saímos para capturar”, ele conta, com lágrimas nos olhos. “É muito mais do que uma simples criatura digital – é sobre memórias, e isso é muito poderoso. As pessoas que jogam Pokémon GO mais se preocupam não com os detalhes do jogo em si, mas sim com os momentos que ele permite criar”.

The Gaming Era: Pokémon GO acabou de celebrar seu décimo aniversário. Qual seria o principal motivo para essa longevidade, especialmente em um mercado onde a maioria dos jogos para celular tem dificuldade de se manter relevante por muito tempo?

Alan Mandujano: Pokémon GO realmente trouxe um sopro de ar fresco quando foi lançado, não havia nada parecido. E continua sendo, em uma era onde tudo está caminhando para se não precisar sair de casa. Você pode clicar em um botão e receber suas compras em casa, ou nem precisa ir ao cinema porque pode assistir a tudo por streaming.

Há toda essa “digitalização” acontecendo, estamos vivendo sem sair do sofá, e Pokémon GO é uma espécie de exceção nesse sentido. Estamos dizendo para as pessoas: “Saiam de casa!”. É uma experiência digital que leva as pessoas do online para o offline.

Uma década depois, não consigo pensar em outras experiências que começaram no digital e impulsionaram as pessoas para o físico. E de certa forma, acho que as pessoas precisam disso. Portanto, é esse elemento da visão da Niantic, agora Scopely Explore, que mesmo dez anos depois continua muito valioso e único, e que é uma grande parte da razão pela qual o jogo existe há tanto tempo: é porque o mundo precisa de algo assim.

TGE: Um dos aspectos mais interessantes do Pokémon GO é sua base de jogadores adultos. Muitas pessoas que começaram a jogar em 2016 estão agora na casa dos 30, 40 anos ou mais, e incorporaram o jogo em suas rotinas diárias. Por que ele se tornou um “hábito de longo prazo”?

Alan Mandujano: Acho que de certa forma, Pokémon GO nunca foi apenas um produto – é mais uma visão. No primeiro trailer [revelado em setembro de 2015], não havia nenhuma imagem real do jogo. Eram apenas ideias na época, que a equipe de criação trabalhou para trazê-las à vida ao longo dos anos. É um game que evoluiu. Definitivamente, não é o mesmo de 2016.

É um jogo que faz parte de sua vida quando você precisa, e nos momentos em que está aberto para ter essa experiência. E não há muitos jogos explorando esse nicho. Isso se combina ao poder da franquia Pokémon, que atualmente é a mais bem-sucedida do mundo.

Em 2016, Pokémon GO desempenhou um papel importante no renascimento do interesse pela marca, e muito disso veio de jogadores que eram crianças quando os primeiros jogos Pokémon foram lançados – como é o meu caso, eu tenho 41 anos. Então, também tem muita nostalgia envolvida, aquele sentimento de “eu jogava esses jogos quando criança e agora posso jogá-los no celular”. E não só isso, mas também a concretização daquela fantasia de “os Pokémon existem no mundo real”.

Ao mesmo tempo, a franquia Pokémon em si é muito intergeracional. Pessoas que adoravam quando eram crianças agora estão comprando pelúcias do Pikachu para seus filhos. Tudo isso é a prova do que os nossos parceiros da Pokémon Company conseguiram: criar uma franquia intergeracional que atende aos novos jogadores, mas também aos antigos.

Pokémon GO é definitivamente um dos pilares da franquia atualmente, e talvez seja a experiência de maior sucesso tanto para os usuários mais velhos, como eu, como também para as gerações mais novas.

Vídeo de anúncio do Pokémon GO, publicado em setembro de 2026. Crédito: Divulgação

TGE: A Niantic lançou vários jogos usando a mesma fórmula, mas nenhum deu tão certo como Pokémon GO. O curioso é que muitos jogadores nunca foram fãs, não assistiram ao desenho, nem jogaram no Game Boy. Isso dá a entender que o apelo seja realmente toda a mitologia dos monstrinhos. Dá para afirmar com certeza que Pokémon GO é tão forte por ser um produto com a marca Pokémon?

Alan Mandujano: Honestamente, eu acho que foi a combinação perfeita. É importante dizer que não se pode simplesmente colocar o logotipo de Pokémon em qualquer produto para garantir que vai funcionar. E nosso jogo não é licenciado: Pokémon GO nasceu como uma joint venture entre a Niantic e a Pokémon Company, ou seja, como uma parceria igualitária. Acho que o sucesso se deveu em parte a isso.

Houve muita atenção tanto do lado da Niantic, mas também da Pokémon Company, garantindo que esta fosse uma ótima experiência. Foi um jogo pensado para apresentar o universo Pokémon para quem não tem a bagagem do super fã, e essa simplicidade é evidente no design. Você apenas joga uma bola e captura o monstro. É o mecanismo mais simples de toda franquia, porque é assim que deveria ser, e é o que o torna mais acessível para um número maior de jogadores.

Mas eu não diria que todos os jogos falharam em dar vida a esse tipo de experiência. Por exemplo, temos Pikmin Bloom, que tem uma taxa de retenção de 30 dias e é praticamente a mais alta do setor. É um jogo que, quando as pessoas descobrem, sempre voltam. É muito diferente de Pokémon GO, mas também conta com uma jogabilidade do mundo real e voltado para um público casual.

E também temos Monster Hunter, que é direcionado ao público gamer mais tradicional. Esses são jogos que estão em nosso portfólio e estão se fortalecendo em alguns mercados mais do que em outros.

É claro que Pokémon Go é um grande produto e uma ótima parceria, tem todos os ingredientes certos e foi lançado no momento perfeito. Mas eu não diria que esse sucesso não possa ser replicado, já que temos dois jogos baseados em localização que estão repercutindo em públicos diferentes, o que também indica que existe demanda por esse tipo de experiência, mesmo que não seja com a marca Pokémon.

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Com Eric Araki, líder de Pokémon GO para o Brasil, durante evento. Foto: Divulgação

TGE: Sabemos que Pokémon GO raramente divulga seus números, mas você poderia me dizer se o Brasil está entre os maiores ou mais engajados mercados do mundo? E o que torna nosso país tão estrategicamente importante?

Alan Mandujano: Pois é, o Brasil é definitivamente muito importante para nós. É um dos nossos principais mercados em todo o mundo, especialmente no quesito “novos usuários”. É com certeza o nosso maior mercado na América Latina. E isso tem a ver não só com a quantidade, mas também com a qualidade dos treinadores.

Todo esse conceito de jogabilidade no mundo real repercutiu especialmente bem na América Latina. Acho que isso tem muito a ver com a cultura da região. Somos pessoas que gostam de sair e de passar a tarde com os amigos no parque ou na praia. Acho que um jogo como Pokémon GO ressoa lindamente em uma região como a nossa. E também é um público dos mais mobilizados em termos de criação de comunidades.

Ou seja, Pokémon GO encontrou um lugar único na América Latina e nos oferece muitos aprendizados que acabam implementados em outras regiões. Um exemplo é o “programa de embaixador comunitário”, no qual enviamos aos líderes de comunidades alguns presentes e itens para melhorarem suas experiências nos eventos presenciais. Essa ideia partiu da nossa equipe Latam e foi incorporada a um programa global.

Portanto, o Brasil e a América Latina são importantes em vários aspectos, inclusive são um teste para esse tipo de estratégia que replicamos em todo o mundo.

The Gaming Era: Falando especificamente sobre o Brasil, como você descreveria os jogadores daqui? Acha que existem comportamentos, tendências ou características únicas que nos distinguem dos usuários de outras regiões?

Alan Mandujano: Com certeza, sim. Por exemplo, eu diria competitividade. Na opção PVP [jogador versus jogador], o Brasil e o México estão quase sempre entre os cinco primeiros, acima até acima de mercados como a Coreia do Sul, que tem uma cultura de eSports muito grande, ou mesmo os EUA.

Isso é parte da razão pela qual, em nossa estratégia para a América Latina, sempre investimos mais no aspecto competitivo e apoiamos ao máximo os eventos regionais e os torneios que são organizados pela Pokémon Company. Fomos o primeiro jogo de Pokémon a fazer transmissões dos mundiais e das competições oficiais de Pokémon GO em português brasileiro, com casters brasileiros, seja em estúdio no Brasil ou até os enviando pessoalmente aos eventos.

Grande parte dessa estratégia tem a ver com localização, mas não se trata apenas de traduzir o jogo e pronto. Localização é um esforço diário, certo? O jogo precisa parecer local, e de várias maneiras acho que conseguimos isso. Temos criado eventos regionais, como Carnaval e Festa Junina. Há um esforço contínuo para fazer Pokémon Go parecer brasileiro, de uma forma que nem dê para notar que o jogo vem de fora.

The Gaming Era: A aquisição da Niantic pela Scopely foi uma das maiores notícias da indústria de jogos mobile em 2025. O que mudou para o Pokémon GO desde então?

Alan Mandujano: É uma boa pergunta. Toda aquisição é difícil, certo? Sempre há muita incerteza e as pessoas se perguntam o que vai acontecer. Mas a melhor parte é que a equipe permaneceu intacta, o que foi muito positivo, porque não foi como se a Scopely chegasse e nos dissesse como administrar o negócio – mas sim nos perguntou como gostaríamos de administrar.

Até mesmo o novo nome — Scopely Explore — foi algo que surgiu internamente, não foi algo imposto de fora. Mudamos o nome só em julho, embora a aquisição tenha ocorrido há um ano. E muito disso se deu porque focamos em avançar rapidamente no que era importante, e com calma e paciência em outras áreas, enquanto a Niantic e a Scopely aprendiam uma com a outra.

Por exemplo, quando começamos com a Scopely, não tínhamos certeza se os eventos ao vivo seriam considerados uma prioridade. E foi muito empolgante saber que a empresa não só queria que continuássemos realizando eventos, mas que fizéssemos ainda mais. E isso é incrível porque nos permitiu apresentar ideias ainda maiores.

E percebemos muito interesse da Scopely em aprender com a Niantic e permitir que a Scopely Explore continue investindo nas coisas que desejamos.

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Jogadores reunidos durante evento de Carnaval em shopping do Rio de Janeiro. Foto: Divulgação

TGE: Jogadores antigos expressaram preocupações de que o jogo pudesse se tornar cada vez mais monetizado, dada a reputação da Scopely no mercado free-to-play. Mas o que você diria aos jogadores que ainda têm essas preocupações um ano depois?

Alan Mandujano: Como eu disse, o fato de a equipe ter permanecido intacta diz muito sobre como operamos como uma entidade independente dentro da Scopely. E ainda que sejamos parte da Scopely como um todo, nós mesmos decidimos nosso próprio destino. E isso também nos ajudou a seguir com o road map do jogo. Por exemplo, fizemos o Go Fest deste ano ser gratuito para todos. E isso não é algo que indique: “Ei, eles estão querendo monetizar demais!”.

Sendo bem honesto, a Scopely tem sido uma ótima casa. E eu diria também que a Niantic era, antes de tudo, uma empresa de tecnologia, enquanto a Scopely é uma empresa de jogos. Isso também traz uma mudança positiva, porque dá um foco diferente, uma experiência que é mais “o jogo primeiro” em vez de “tecnologia primeiro”.

O slogan da Scopely é “fazemos isso pela diversão”, e acho que essa é uma ótima mentalidade para se ter quando pensamos nos próximos dez anos de Pokémon Go.

Pensando na América Latina, a aquisição foi muito positiva. Nesse momento eu estou no escritório da Scopely na Cidade do México. Anteriormente, a equipe da região era remota e fazíamos parte da equipe dos mercados da América. Mas agora Latam é uma região, tal como a Europa e a Ásia-Pacífico, e cada região tem uma liderança. Temos cerca de dez pessoas no time e ainda estamos contratando. Agora podemos trazer mais eventos.

Anunciamos recentemente que o Go Wild Area acontecerá na Cidade do México, pela primeira vez fora do Japão, de 6 a 8 de novembro. Isso diz muito sobre a confiança que a Scopely tem na América Latina e é uma ótima notícia para qualquer jogador da região.

TGE: A grande discussão atual da indústria é sobre o fim da mídia física, o que cria novas preocupações: o conceito de “propriedade” está em discussão, e muitos jogadores estão preocupados que seus jogos de repente sejam tirados do ar pelas empresas. Mas Pokémon GO é conhecido como um “forever game”. Em tese, deveria existir para sempre. Gostaria de uma reflexão sobre o que esperar do futuro do jogo.

Alan Mandujano: Sim, tudo tem um fim e isso vale para tudo. Até a própria Terra, não é? Porque aprendemos que dentro de alguns bilhões de anos o Sol se expandirá e este será o destino da Terra como a conhecemos: será sugada pelo Sol em algum momento no futuro. E se até a Terra tem um fim, então tudo tem. Mas estamos trabalhando duro para fazer Pokémon Go durar para sempre.

Desde o início, a equipe pensou no jogo como uma experiência que você continua fazendo ao longo da vida e vai evoluindo. Não estamos planejando que Pokémon GO desapareça tão cedo. É um produto que vai contra a onda da digitalização excessiva – embora seja um jogo digital e não tenha forma física, permite muitas experiências offline, mais do que qualquer outro. E essas experiências criam memórias.

Eu acho que se o Pokémon GO acabasse, essas memórias e experiências seriam o que permaneceria para sempre. Poucos jogos oferecem a lembrança de conhecer um novo amigo, ou da viagem que você dirigiu oito horas só porque queria pegar um Pokémon específico. Em algum ponto, nem se trata mais de Pokémon, né? [risos] É sobre ter experiências e uma história para contar. Isso é algo que nunca poderá ser digitalizado e que viverá para sempre na sua memória.

E nesse sentido, o jogo pode realmente viver para sempre.

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