ChinaJoy: inteligência operacional como companhia no entretenimento

Felipe Felix foi ao maior evento de games do mundo e reflete sobre contradições e confluências entre o Oriente e o Ocidente
china, xangai
Bandeira da China hasteada em Xangai com a Oriental Pearl Tower ao fundo. Foto: Reprodução, Wikimedia Commons

Nos últimos anos, a China tem sido meu Império Romano e, se você trabalha com tecnologia, games e entretenimento, deveria ser o seu também. Saindo um pouco do óbvio – carros, e tech no geral – e entrando um pouco mais no mercado em que atuo, o país conquistou o título de maior nação no mercado de gaming.

Não apenas no mobile, Tencent e NetEase são dois bons exemplos. A primeira é acionista de Epic, Supercell, Riot Games, Ubisoft, Remedy, FromSoftware; já a segunda reatou seu contrato com a Blizzard e atualmente é a maior parceria da Marvel, com a Marvel Rivals.

Em 2025, a China faturou mais de US$ 20 bilhões com o chamado “Oversea Sale” – vendas internacionais – e ao todo faturou US$ 53 bi.

Já em animes e animações, Nezha 2 se sagrou a maior bilheteria da história com US$ 2 bi de faturamento – superando Divertida Mente 2 e Frozen II – e, pelo menos para mim, teve o produto serializado com a melhor qualidade de 2025, com To Be Hero X.

Justamente por isso que a China não sai da minha cabeça e exatamente devido a isso não só vim à ChinaJoy – maior feira de games do país –, como também participei do CDEC (China Digital Entertainment Congress). E, por mais que eu esperasse o contrário, para minha surpresa o foco da conferência foi exatamente ela: a inteligência artificial.

Passado o hype, sobra a realidade

No momento de êxtase, o mercado tende a esgotar alguns assuntos muito rápido e, assim como o metaverso, a IA já não é mais hype. Foi por isso que ver o assunto dominar a conferência me surpreendeu, mas, diferente do metaverso, o uso prático da IA é real e continua mudando muitos mercados. Aqui, pelo que vi – e ouvi –, o objetivo real não é substituir o homem, e sim o potencializar.

Não foi discutido como fazer mais com menos e sim como fazer ainda mais, seja por meio do seu time ou principalmente usando a força dos consumidores pelo UGC (User Generated Content). Uma das discussões mais legais que escutei foi baseada em como a inteligência artificial pode dar liberdade às pessoas que não possuem determinadas habilidades – ou seja, alguém que adora games agora pode minimamente desenvolver algo seu em seu jogo favorito.

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Obviamente essa pessoa nunca será melhor que um desenvolvedor, mas conseguirá, minimamente, transformar seu sonho em realidade. Enquanto isso, desenvolvedores e designers podem fazer seu trabalho ainda mais rápido e melhor – novamente cito To Be Hero X, que fez um trabalho incrível de transição de estilos utilizando IA.

Também se falou muito no uso da tecnologia empregada em mídia, principalmente programática, integração de reports e também na impregnação dela na escuta ativa em redes sociais. Mas de fato o que realmente me chamou a atenção foi a visão voltada à criatividade, que vai por um caminho diferente do que ando vendo em empresas orientais que pensam em fazer mais com menos e confiam demais na máquina.

O resultado? Uma enxurrada de AI Slop, seja em campanhas da Copa do Mundo, com periquitos estranhos, ou em imagens mal encaixadas dentro de jogos.

Não digo que o AI Slop não deve estar presente por aqui ou na Ásia, mas me parece que a preocupação em manter o humano ainda como principal ativo de trabalho no processo, mesmo que se use o recurso, é um meio termo entre o “não vamos utilizar para nada” e o “vamos usar pra tudo, sem controle algum”.

Jornada de mil jobs

Durante as 22h de viagem até a China, coloquei alguns filmes em dia, um deles Resistência (The Creator). E por mais que pareça óbvio e batido, de certa forma faz sentido.

Em diversas outras ficções de fantasia existe uma antítese entre Ocidente e Oriente em diversas visões, inclusive na coletividade social. E se algo é retratado com tanta frequência, mesmo que em fantasias, é possível que exista uma verdade em como enxergamos as coisas e como eles – aqui – enxergam.

Todos os mercados vêm discutindo IA de diversas formas, principalmente ética. Inclusive, trabalhando no campo da metacrítica, este texto foi totalmente escrito por mim, mas tendo uma IA como companhia para me ajudar a dar um pouco mais de profundidade nas informações e exemplos que já tinha em mente – assim como o que foi debatido na feira.

É claro que existiu um debate técnico muito grande, mas trazer ele aqui seria exaustivo e eu sei que todos já estamos cansados de falar de IA (né, chefe?), mas é sempre bom ver um debate, ao vivo, em um dos maiores mercados do mundo.

E por mais que na época do efêmero o assunto pareça batido, acho que ele vai sempre dar um entretenimento de qualidade, seja produzindo ou virando meme.

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