Criatividade vs direitos autorais: as modificações (mods) em jogos eletrônicos

Franquias bilionárias nasceram como mods, mas controle de autores e criatividade dos jogadores gera questões jurídicas complexas
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Thomas, o trem, no remake de Resident Evil 2: mod fez a festa dos jogadores de PC. Imagem: Reprodução

A evolução da indústria de jogos eletrônicos tem gerado mudanças significativas nas relações entre desenvolvedores e jogadores, especialmente no que se refere à criação de modificações, comumente chamadas de “mods”, em jogos preexistentes. Embora essa prática seja amplamente popular e permita aos jogadores expandir e aprimorar a experiência de jogo, ela também acarreta questões jurídicas complexas, particularmente no tocante aos direitos autorais

Os mods consistem em modificações feitas por jogadores em jogos originais, variando desde mudanças gráficas até transformações significativas na narrativa ou nas mecânicas do jogo. A Lei nº 9.610/98, que regula os direitos autorais no Brasil, oferece as bases legais para tratar dessas questões. Mas o cenário envolve um conflito entre a liberdade criativa dos jogadores e os direitos dos desenvolvedores sobre suas obras.

Esses mods são considerados obras derivadas, ou seja, criações baseadas em uma obra pré-existente. A Lei nº 9.610/98, que regula os direitos autorais no Brasil, protege as obras derivadas, desde que resultem em uma criação intelectual nova. 

No entanto, para que uma obra derivada possa ser criada e explorada comercialmente, é imprescindível a autorização do titular da obra original, conforme o artigo 29 da referida lei.

Assim, a criação e distribuição de mods sem a devida permissão do detentor dos direitos autorais do jogo original configuram violação dos direitos patrimoniais do autor. Mesmo que o jogador tenha autonomia criativa, a obra derivada permanece dependente da autorização do autor da obra original para sua exploração.

Além dos direitos patrimoniais, a lei confere ao autor da obra original o direito moral, que inclui a proteção à integridade da obra. O artigo 24, inciso IV, da Lei de Direitos Autorais assegura ao autor da obra a possibilidade de se opor a modificações não autorizadas que distorçam, prejudiquem ou atentem contra sua honra ou reputação. 

Isso significa que, mesmo que um mod seja tecnicamente criativo, ele poderá ser considerado uma violação dos direitos morais do autor se distorcer significativamente o conceito ou a integridade da obra original. Em um cenário de criação colaborativa, a liberdade criativa do “modder” deve ser balanceada com o respeito à obra original, o que envolve a aplicação rigorosa dos direitos morais previstos na legislação.

Questão de interpretação

No contexto digital dos jogos, a Lei nº 9.610/98 aplica-se plenamente, mas o ambiente virtual impõe desafios interpretativos. O artigo 7º, inciso XI, da referida lei, estabelece que as adaptações de obras são protegidas como criações intelectuais novas, mas sempre dependem da autorização do autor da obra original. 

No caso dos mods, isso implica que, embora um modder seja considerado o criador de uma obra derivada, ele não pode explorar comercialmente ou distribuir seu mod sem a permissão do titular dos direitos autorais do jogo original. A legislação brasileira não contempla um equivalente direto ao “fair use” dos Estados Unidos, o que torna os mods não autorizados ilegais, mesmo quando se configuram como expressões criativas ou críticas à obra original.

Além das questões legais envolvendo os direitos autorais, a relação entre os jogadores e as desenvolvedoras é regulada por contratos de licença, comumente conhecidos como EULAs (End User License Agreements), ou Termos de Uso. Tais contratos estabelecem as condições sob as quais os jogadores podem utilizar os jogos e interagir com seu conteúdo original.

Frequentemente, os EULAs proíbem a criação de mods sem autorização ou impõem restrições severas. Empresas como Riot Games e Activision incluem cláusulas que vedam o uso de mods sem permissão, enquanto outras, como Mojang, adotam uma postura mais permissiva, liberando a criação de mods dentro de determinados limites.

Contudo, a validade dessas cláusulas, especialmente em contratos de adesão, tem gerado controvérsias, pois elas não podem violar os direitos morais do jogador. No Brasil, é possível que cláusulas excessivamente restritivas sejam contestadas com base no Código de Defesa do Consumidor.

A principal tensão que surge em torno dos mods é o conflito entre a liberdade criativa dos jogadores e o controle editorial dos desenvolvedores sobre suas obras. Para os jogadores, os mods representam uma forma de expressão e de participação na criação do conteúdo, podendo até prolongar a vida útil dos jogos e fomentar comunidades.

Mods: útero dos eSports

Muitos gêneros de jogos, como os MOBAs e os battle royales, surgiram de mods, o que evidencia o potencial inovador dessa prática. No entanto, os desenvolvedores veem os mods como uma ameaça à sua propriedade intelectual, ao controle sobre o conteúdo do jogo e à geração de receita, especialmente quando competem com conteúdos pagos ou afetam a experiência do jogo.

O desafio está em encontrar um equilíbrio entre permitir a criatividade dos jogadores e proteger os direitos dos desenvolvedores, com empresas adotando posturas diversas, desde políticas permissivas, como as de Valve e Bethesda, até rigorosas, como as de Nintendo e Take-Two.

Entende-se, portanto, que os mods representam uma forma significativa de expressão criativa dos jogadores, além de constituírem um meio de participação ativa no universo dos jogos eletrônicos. No entanto, sua criação e distribuição devem ser analisadas à luz da Lei nº 9.610/98 e dos EULAs. 

A tensão entre a liberdade criativa dos jogadores e o controle dos desenvolvedores sobre suas obras impõe um desafio jurídico complexo, que ainda carece de uma solução definitiva. Embora os mods possam, de fato, enriquecer a experiência dos jogadores, sua exploração não autorizada configura, em última instância, uma violação dos direitos autorais.

Assim, a busca por soluções jurídicas que conciliem a proteção dos direitos dos desenvolvedores com o incentivo à criatividade dos jogadores continua sendo um tema fundamental para o avanço da regulamentação no campo dos direitos autorais digitais.

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