Cinco pilares: entenda o plano de R$ 8,2 mi do governo de São Paulo para apoiar a indústria de games

Plano quer consolidar SP como referência no setor. Marília Marton, secretária da Cultura, Economia e Indústria Criativas, falou ao TGE
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Marília Marton, secretária da Cultura, Economia e Indústria Criativas de São Paulo. Foto: SECEIC-SP, Divulgação

O estado de São Paulo agora tem uma política pública para o setor de jogos eletrônicos. Na última segunda-feira (21), um evento na sede da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas deu início ao Plano de Desenvolvimento da Indústria de Games, que visa investir R$ 8,2 milhões em editais, além de outras ações integradas para o segmento.

De acordo com Marília Marton, secretária da pasta, o plano está organizado em cinco pilares, ou “eixos estruturantes”: formação profissional e empregabilidade, fomento e financiamento, produção e distribuição, internacionalização e governança.

“Errar, nós vamos. Mas a orientação e a sensibilidade que vocês têm do mercado são imprescindíveis para que a gente tenha mais sucesso nesse plano”, declarou Marília, diante de dezenas de desenvolvedores de estúdios independentes, produtores culturais e representantes de associações ligadas à área – a apresentação se desenrolou no formato “escuta pública”, com o microfone aberto para a plateia oferecer opiniões e contrapontos à proposta.

Antes, foram reveladas as intenções de cada pilar. O eixo de formação profissional engloba cursos técnicos, criativos e de gestão, ministrados por uma Escola de Audiovisual, Games e Tecnologia, além de “programas de capacitação continuada, mentorias e laboratórios de criação, em parceria com a rede estadual de ensino técnico, universidades públicas e espaços culturais”.

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Por meio de editais, a área de fomento e financiamento vai disponibilizar R$ 8,2 milhões para desenvolvimento, finalização e publicação de jogos eletrônicos e conteúdos em realidade aumentada, virtual e mista. Além disso, linhas de crédito de até R$ 300 mil serão oferecidas a estúdios especificamente para aquisição de equipamentos, por meio da agência de fomento Desenvolve SP.

O pilar produção e distribuição é definido como um programa de aceleração para negócios criativos (até R$ 50 mil por projeto), com “formação empreendedora e parcerias internacionais para certificação técnica em engines profissionais”.

Já a proposta do eixo internacionalização é oferecer apoio institucional e logístico para a participação de estúdios locais em eventos internacionais, “além de estimular a exportação de jogos desenvolvidos no estado e a integração com plataformas globais de distribuição”. Por fim, a governança será reforçada por meio da criação e monitoramento de indicadores setoriais, em articulação com instituições como Abragames, ACJogos-SP e XRBR.

Após o evento, Marília Marton conversou com o The Gaming Era sobre os bastidores da elaboração do plano, que contou com contribuições de diversos agentes da indústria.

The Gaming Era: A criação desse plano e seus pilares sempre aconteceu nesse sistema de escuta do mercado e das partes interessadas?

Marília Marton: Sempre, porque desde 2023 eu venho ouvindo eles. Eu viajei com eles, fui aos eventos… A gente vai colhendo, conversando e entendendo essas aflições. Porque veja, grande parte do que eles falam não é de meu conhecimento. Eu não sou entendida. Temos que entender como tudo funciona. Que mercado é esse? Como a gente pode formar, incentivar? Porque é [importante] sempre olhar o ecossistema completo.

Uma das coisas que a gente tem percebido é: não adianta o Governo vir com uma ideia mirabolante sem entender se o mercado está preparado.

Então, a ideia é sempre compor com eles, entendendo quem são as pessoas. A discricionariedade do Governo está exatamente em olhar para esse mercado e [decidir] como trabalhar estrategicamente.

TGE: Na época em que Gilberto Gil foi Ministro da Cultura [entre 2003 e 2008], circulou essa ideia de que videogames seriam muito importantes no “Brasil do futuro”, e que por isso era um mercado que devia ser estimulado. Isso meio que morreu na década seguinte, e agora presenciamos uma espécie de renascimento dessa “causa”. Quando você assumiu como secretária da Cultura, já pensava que os jogos poderiam ser uma bandeira de sua gestão?

Marília: Não. Foi exatamente nessa reunião em janeiro de 2023 que fiz com os setores. Eu assumi a Secretaria em primeiro de janeiro, junto com todo o Governo [de Tarcísio de Freitas]. A partir do dia 8, começamos as escutas setoriais. E o último setor com o qual me reuni foi o Audiovisual, por conta da Lei Paulo Gustavo.

Quando fizemos a reunião do Audiovisual, teve uma turma que falou: “Não esqueça de chamar a galera de games”. Eu falei: “Olha, é um setor que, tirando o Atari que jogava quando era pequena, eu desconheço completamente”.

Aí, trouxemos o Anderson [Abraços, assessor de cultura pop da Secretaria] logo no começo, e ele reuniu várias pessoas, como o [presidente da Abragames Rodrigo] Terra, o Gustavo [Steinberg, CEO da Gamescom Latam], a Simone [Kliass, atriz e dubladora], a Eliana [Russi, cofundadora do BIG Festival], para essa reunião, para tratar de audiovisual.

Estava todo mundo meio misturado, e em determinado momento me puxaram de lado: “A gente vai precisar de uma reunião específica”.

A comissão do Plano de Desenvolvimento da Indústria de Games respondeu às perguntas durante a escuta pública. Na foto, a partir da esquerda: Bruno Pato (XRBR), Marília Marton, Rodrigo Terra (Abragames) e Marcelo Rigon (ACJogos-SP). Crédito: SECEIC-SP, Divulgação

Logo em seguida, teve início uma série de reuniões, quando eles começaram a se estruturar. Tanto que, se você pegar o nosso histórico, logo na sequência a gente trocou o nome da Secretaria e incluiu a palavra “Indústria”. A ideia de Indústria nasce dessa reunião do Audiovisual, com o pessoal da música, do design… E o game estava junto. Aí, todo mundo disse: “Olha, isso é a indústria do futuro”.

Se aquele sonho do Gil lá atrás foi “game é o futuro”, o futuro é agora. E agora é a hora de fazer essa estrutura, porque essa é a indústria do século XXI.

TGE: Para boa parte dos estúdios de pequeno e médio porte que estão aqui, o tema que mais chama a atenção é o dos editais – todos querem saber quanto dinheiro estará disponível, a quem será destinado… Desses anunciados hoje, quão diferentes são dos que já haviam? Um deles é para fomento a equipamentos…

Marília: O equipamento é um fomento de linha de crédito, né? Veja, é a primeira vez em que um banco do Estado [Desenvolve SP] vai entrar em uma linha de Cultura – é algo que até hoje nunca aconteceu, não apenas em games. O pessoal fica: “Ah, tem que fazer isso, tem que fazer aquilo”. Eu falo: “A gente tá chegando”. Então, é um primeiro passo.

Nós entendemos que equipamento é uma coisa que, seja para games ou para a turma do audiovisual, é um gargalo. Porque é tudo muito caro. Nossa balança de taxas é enorme, o câmbio está horroroso. Então, está todo mundo sem condições de fazer. O Estado, por sua vez, [analisa] onde precisa entrar para ajudar as pessoas a impulsionar.

Dos editais da linha de promoção direta, que são aqueles que a gente paga, eu acho que tivemos ajustes importantes. Lembrando que temos linhas de games há pouco tempo. Em 2021 e 22, foi muito acanhado. Em 2023, com a Lei Paulo Gustavo, tivemos [investimento] um pouco maior. Em 2024, cometemos algumas falhas, que agora em 2025 já vamos ajustar.

Conforme o tempo for passando, em mais um, dois anos, teremos um edital muito bem estruturado e apurado. Então, a briga começa pelo valor, nas disputas de quanto dinheiro vamos pôr.

E é aí que está a parte de governança desse plano, que mostra que temos de apresentar as estruturas numéricas de quanto a gente impacta. O governo olha para números – não só para o impacto cultural, aquele imensurável, mas quanto de geração de renda e crescimento esse setor está impulsionando. Estamos agora com uma parceria com a Fundação Seade, já assinada, justamente para que a gente tenha esses dados de forma bem apurada.

TGE: Na prática, houve alguma influência da aprovação do Marco Legal dos Games na fundamentação deste plano?

Marília: Acho que tudo está convergindo, né? Claro, a Abragames tem falado muito sobre o Marco Legal, e nós temos conversado muito com os advogados que têm trabalhado nisso. Mas o plano de ação da Secretaria vem sendo estruturado nos seus cinco pilares, como uma forma de estruturação dos próprios dados da Cultura.

Então, tudo isso que estamos fazendo para games, estamos fazendo para cada uma das áreas – justamente por entendermos que a questão de governança, de olhar de forma sistêmica para cada setor, é fundamental para conseguirmos criar um marco regulatório, em que tenhamos políticas estruturadas que sejam perenes, para não hoje, mas para o longo prazo.

TGE: No seu discurso, você falou justamente sobre perenidade. Imagino que a ideia seja, quando você sair do cargo, que esse projeto continue? Afinal, essa é uma das grandes questões no Brasil: cada nova gestão encerra o que foi feito antes…

Marília: Acho que cada Governo pode ter sua marca, mas tem políticas que são continuadas.  O sucesso do Estado de São Paulo no setor da Cultura é justamente porque temos uma política cultural de mais de 50 anos, e que vem em um caminho crescente.

E o que acontece com um setor como o dos games, que é mais “jovenzinho” e está começando agora? Se não estruturar a base, se ficar toda hora mudando, nunca vai se conseguir ter realmente um escalonamento. Isso não pode acontecer. E isso, é o próprio setor que tem de resguardar.

Eu posso estar aqui à disposição hoje; amanhã, pode ser uma pessoa que não esteja. Como que se resguarda isso? É isso que o [Rodrigo] Terra falou: tem que ser lei, tem que ser publicado, tem que ter perenidade, tem que ter diálogo o tempo todo. Porque essa é a função do Estado.

TGE: Para mim, é interessante ver os games sendo considerados ao lado de outras manifestações culturais mais tradicionais. Porque sempre estivemos no meio do caminho entre cultura e tecnologia, além de haver uma discussão constante de que “videogame não é arte”. Chega a ser engraçado ver os jogos entrando nesse debate: “Oi, somos um segmento novo e queremos um espacinho…”

Marília: Eu vou falar a verdade: isso não me causou estranheza. O que me causou estranheza foi não ter acontecido antes. Por isso, para mim foi fundamental botar esse tema na pauta muito rápido e fazer com que o Estado tivesse esse protagonismo de entender que, realmente, game é cultura.

É sobre a nossa História, é sobre como a gente cria uma trajetória. Games são sobre isso.

TGE: E agora, você joga?

Marília: Eu jogo muito pouco. Eu confesso a você que eu brincava de Atari, e para mim aquilo era fantástico. Jogava muito, adorava. Botaram quatro botões a mais e já começou a ficar muito complicado [risos].

Quando vou às feiras, o pessoal fica mandando eu fazer teste de jogo. Eu falo: “É só para fazer eu passar vergonha, né?”. Mas faz parte do jogo de ser secretária, e está tudo bem.

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