Este é o terceiro artigo de opinião de uma série sobre a política de desenvolvimento da indústria de games e eSports na Arábia Saudita. Depois de entender por que o país entrou nesse mercado e quem são os principais atores envolvidos, agora vale olhar para a lógica por trás dos movimentos: a tentativa de controlar toda a cadeia da indústria. É aqui que a estratégia deixa de ser apenas financeira e passa a ser estrutural.
O termo usado para isso é verticalização. Pode soar técnico, mas a ideia é bastante direta. Em vez de atuar em apenas uma etapa do processo, o objetivo é estar presente em todas. No caso dos games, isso significa participar desde a criação do jogo até a sua transformação em espetáculo global.
Para quem está fora desse universo, vale explicar como essa cadeia funciona. Tudo começa com os estúdios de desenvolvimento. São eles que criam os jogos, escrevem as histórias, programam os sistemas e dão vida aos produtos. Empresas como a Electronic Arts operam tanto como desenvolvedoras quanto como distribuidoras, mas existem muitos estúdios independentes que focam apenas na criação.
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Depois entram as publishers, que financiam, distribuem e comercializam os jogos. Elas cuidam do marketing, da relação com plataformas e da estratégia de lançamento. Sem elas, muitos jogos simplesmente não chegam ao público.
Em seguida vêm as plataformas e o ecossistema de distribuição. Isso inclui consoles, lojas digitais e, principalmente no mobile, os ambientes onde os jogos são consumidos e monetizados.
Por fim, temos os esportes eletrônicos e os eventos. É aqui que os jogos deixam de ser apenas experiências individuais e se tornam produtos de entretenimento coletivo. Empresas como a ESL FACEIT organizam campeonatos, criam ligas e conectam jogadores profissionais a uma audiência global.
O que a Arábia Saudita está fazendo é se posicionar em todas essas camadas ao mesmo tempo. Ao investir em empresas como EA, Take-Two, Scopely e Moonton, o país participa da criação e distribuição de jogos. Ao adquirir estruturas como a ESL FACEIT, entra diretamente na organização de competições e eventos.
Na prática, isso significa que um jogo pode nascer dentro de uma empresa do portfólio, ser distribuído globalmente e, depois, transformado em um campeonato assistido por milhões – tudo dentro de um mesmo ecossistema de influência.
Do ponto de vista econômico, isso é extremamente eficiente. Ao controlar mais etapas, você captura mais valor. Em vez de dividir receita com múltiplos intermediários, consegue integrar processos e aumentar margens. Além disso, reduz dependência de terceiros e ganha mais poder de negociação dentro do mercado.
Cenário maior
Esse tipo de estratégia não é novo. Grandes empresas de tecnologia e entretenimento já fizeram movimentos semelhantes. A Disney, por exemplo, controla produção, distribuição e até parques temáticos. Plataformas digitais também operam de forma integrada, conectando criação, distribuição e monetização.
Mas existe uma diferença importante quando falamos de games. Trata-se de uma indústria profundamente dependente da comunidade. Jogadores não são apenas consumidores passivos. Eles interagem, produzem conteúdo, criam narrativas próprias e influenciam diretamente o sucesso ou fracasso de um jogo.
Além disso, há uma forte presença de desenvolvedores independentes, que muitas vezes são responsáveis por inovação. Muitos dos jogos mais criativos surgem fora das grandes estruturas corporativas.
Isso torna o ambiente mais orgânico e menos previsível. Diferente de outras indústrias, não é possível controlar completamente o que vai engajar o público.
É aí que aparece o principal risco da verticalização. Ao tentar organizar demais o ecossistema, existe a possibilidade de reduzir a diversidade criativa. Excesso de controle pode levar a decisões mais conservadoras, focadas em retorno financeiro imediato, e isso pode limitar inovação.
Outro ponto delicado é a percepção do público. Comunidades de games costumam valorizar autenticidade. Se houver a sensação de que tudo está sendo controlado por uma única estrutura, pode surgir resistência.
Por outro lado, a estratégia também resolve problemas reais do setor. A indústria de games é fragmentada, com muitos atores diferentes disputando espaço. Isso pode gerar ineficiências, dificuldades de coordenação e perda de valor ao longo da cadeia.
Ao integrar essas partes, a Arábia Saudita cria uma estrutura mais coesa. Isso pode facilitar investimentos, acelerar projetos e criar experiências mais completas para o público. Existe também um benefício estratégico. Ao estar presente em múltiplas camadas, o país não depende de um único modelo de negócio. Se um segmento sofre, outros podem compensar. Isso traz resiliência em um mercado que, apesar de grande, é volátil.
No fundo, o que está em jogo é um equilíbrio. De um lado, a eficiência e o controle que vêm com a verticalização. Do outro, a necessidade de manter um ambiente criativo, aberto e dinâmico. Se a Arábia Saudita conseguir equilibrar esses dois pontos, pode construir um dos ecossistemas mais completos da indústria global. Não apenas como investidora, mas como um verdadeiro centro de produção, distribuição e competição.
Mas se errar a mão e tentar transformar uma indústria criativa em uma estrutura excessivamente controlada, pode enfrentar limites importantes. A estratégia é ambiciosa. E, como quase tudo nesse movimento saudita, o sucesso vai depender menos do tamanho do investimento e mais da forma como ele é executado.



