Este é o primeiro de uma série de nove artigos de opinião sobre a política de desenvolvimento da indústria de games e esportes eletrônicos na Arábia Saudita. A ideia é olhar com calma para o que está acontecendo, entender quem são os atores envolvidos, quanto dinheiro está sendo investido e, principalmente, o que isso significa para o futuro da indústria – inclusive para países como o Brasil.
Durante décadas, a Arábia Saudita construiu sua economia sobre uma base muito clara: o petróleo. Esse modelo funcionou – e muito bem – ao longo do século XX e início do XXI, gerando riqueza, estabilidade interna e relevância internacional. Mas também criou uma dependência estrutural difícil de ignorar.
O petróleo é finito, sofre variações constantes de preço e, mais recentemente, passou a enfrentar pressões globais ligadas à transição energética e à descarbonização. Em outras palavras, continuar apostando exclusivamente nesse modelo deixou de ser uma estratégia segura.
Foi a partir dessa leitura que o país lançou o Vision 2030, um plano amplo e ambicioso que busca redesenhar a economia saudita para as próximas décadas. A ideia central é simples de entender, embora complexa de executar: diversificar fontes de receita e posicionar o país em setores que tenham relevância no futuro.
Não se trata apenas de substituir o petróleo, mas de construir novas bases econômicas.
Nesse contexto, ganha protagonismo o PIF (Public Investment Fund), fundo público de investimento. Ele funciona como um grande motor financeiro do Estado saudita, responsável por aplicar capital em áreas consideradas estratégicas.
Estamos falando de um fundo com centenas de bilhões de dólares sob gestão, capaz de influenciar mercados inteiros com suas decisões. E, nos últimos anos, poucos setores receberam tanta atenção quanto a indústria de games.
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À primeira vista, pode parecer uma escolha curiosa. Mas basta olhar com um pouco mais de calma para entender a lógica. O mercado global de jogos movimenta mais de US$ 180 bilhões por ano. Mais importante do que o tamanho é o comportamento do público. Games são consumidos por uma base jovem, globalizada e altamente engajada, exatamente o tipo de audiência que define tendências culturais hoje.
Games deixaram de ser apenas lazer. São espaços de convivência, competição, criação de conteúdo e até identidade. Plataformas como Fortnite, Roblox ou League of Legends não são apenas jogos, mas ambientes sociais onde milhões de pessoas passam horas diariamente. Para um país que busca relevância no século XXI, ignorar isso não é uma opção.
Quando a Arábia Saudita decide investir mais de US$ 38 bilhões nesse setor, está fazendo uma aposta que vai além do retorno financeiro. Está tentando se posicionar dentro da chamada economia da atenção, modelo em que o ativo mais valioso não é um recurso natural, mas o tempo e o engajamento das pessoas.
É uma mudança profunda de mentalidade. Em vez de exportar petróleo, o país passa a buscar participação em fluxos globais de cultura digital.
Esse movimento também carrega uma dimensão geopolítica importante. Ao longo do século XX, os Estados Unidos consolidaram parte significativa de sua influência global por meio de Hollywood e da indústria cultural. Filmes, séries e música ajudaram a projetar valores, estilo de vida e narrativa. Hoje, os games ocupam um papel semelhante, e em muitos casos ainda mais poderoso, por serem interativos.
A Arábia Saudita entendeu isso. Ao investir em grandes empresas, adquirir estúdios, financiar eventos e participar do ecossistema global, o país tenta construir não apenas presença econômica, mas também relevância simbólica. É uma tentativa de entrar no imaginário coletivo de uma geração que consome mais jogos do que televisão.
Desafios
O acerto estratégico é difícil de contestar. Poucos governos conseguiram articular uma visão tão clara sobre o papel da cultura digital na economia contemporânea. Ao entrar cedo e com escala, a Arábia Saudita garante espaço em um setor que ainda está em expansão e transformação.
Mas o risco também é significativo. Diferente de setores tradicionais, a indústria de games não responde de forma linear ao investimento. Não basta colocar dinheiro para garantir sucesso. Jogos são produtos culturais, e seu desempenho depende de fatores difíceis de prever: criatividade, timing, aceitação do público e dinâmica de comunidade. Grandes projetos podem fracassar, enquanto ideias simples podem se tornar fenômenos globais.
Além disso, existe o desafio de construir legitimidade. Participar do mercado é uma coisa. Ser reconhecido como parte relevante da cultura gamer é outra.
Comunidades de jogos valorizam autenticidade, e essa é uma dimensão que não se compra facilmente.
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No fim, o que a Arábia Saudita está fazendo não é apenas entrar no mercado de games. É tentar reposicionar sua economia e sua imagem global a partir de uma nova lógica, onde cultura, tecnologia e entretenimento se misturam. É uma aposta ousada, coerente com o momento histórico, mas que carrega incertezas próprias de uma indústria que, por natureza, resiste a previsões simples.
Se essa estratégia vai se consolidar como um novo modelo de desenvolvimento ou se enfrentará limites ao longo do caminho, ainda é cedo para dizer. Mas uma coisa já está clara: os games deixaram de ser periféricos. E a Arábia Saudita entendeu isso antes de muitos outros países.



