Volto da GDC Festival of Gaming (antiga Game Developers Conference) de São Francisco ainda processando tudo o que ouvi ao longo de cinco dias. Em eventos como esse, o mais interessante nem sempre está nas apresentações formais, mas no que aparece de forma recorrente nas conversas entre reuniões, nos encontros rápidos e nas trocas mais francas com quem está operando o mercado no dia a dia.
Depois de mais de centenas de conversas, saí com a sensação de que alguns sinais já não podem mais ser tratados como pontuais.
Mais do que tendências isoladas, o que vi foram mudanças de postura. Em várias frentes, a indústria parece ter deixado para trás a fase da especulação e entrado em uma etapa mais prática, mais direta, e também mais dura. Alguns temas em especial se destacaram ao longo da semana.
IA já não é mais tema de debate, mas de execução
O ponto mais evidente da GDC foi a naturalidade com que a inteligência artificial apareceu nas conversas. Não como promessa distante, nem como assunto sensível a ser evitado, mas como parte concreta do processo de fazer jogos. Em muitos encontros, o tom era aberto e até orgulhoso ao falar sobre como a IA já está sendo usada no dia a dia.
Essa minha percepção é corroborada pelos dados. Segundo o relatório Global AI meets the games industry, publicado em 2025 pelo Google Cloud com The Harris Poll, 90% dos desenvolvedores de jogos já usam IA de alguma forma em seu workflow. E 97% acredita que IA generativa vai ser ou já está sendo transformadora na indústria
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O que mais me chamou atenção foi justamente isso: a sensação de que, para muita gente, o debate já ficou para trás. Falar em evitar IA, naquele contexto, parecia quase estranho. Ninguém estava discutindo “se” usar, mas sim “como” usar de forma positiva.
Isso não significa que todas as dúvidas tenham desaparecido, mas indica com clareza que o centro da conversa mudou, saindo da discussão conceitual e indo para a aplicação prática.
Cargos juniores estão desaparecendo dos centros mais caros
Outro tema que surgiu foi o enfraquecimento quase total dos cargos juniores em cidades de alto custo. Pelas conversas que tive, as poucas empresas que ainda estão contratando talentos nesses níveis parecem estar fazendo isso principalmente na América Latina e no Sudeste Asiático, e não em lugares como São Francisco ou Londres.
Esse foi um dos sinais mais duros da semana, porque revela uma mudança estrutural no mercado. Onde as empresas contratam, para quais perfis e em quais regiões diz muito sobre as pressões que estão moldando o setor. Quando esse padrão aparece repetidamente em conversas diferentes, ele deixa de soar como ajuste pontual e passa a indicar uma alteração mais profunda na lógica de contratação.
Menos discurso, mais adaptação
Se eu tivesse que resumir a semana em uma frase, diria que a indústria parece cada vez mais focada em se adaptar às mudanças tecnológicas e de mercado. A IA já entrou no fluxo real de produção. A geografia da contratação está mudando.
A busca por alternativas às plataformas dominantes ganhou força. E a próxima geração de fundadores precisa levar isso em conta quando for traçar seu caminho.



