A reunião de condomínio foi cancelada: qual o futuro da EA?

Após ser adquirida por valor bilionário, Electronic Arts só dará satisfações aos donos – aos fãs resta observar, pondera Lucas Patricio
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Sede da EA na Califórnia, nos EUA. Foto: Wikimedia Commons

Imagine a seguinte situação: você está indo para a reunião mensal de condomínio do seu prédio, que deve ter pelo menos 200 apartamentos. Pelo histórico dos últimos anos, você já espera descontentamento, tumulto e até um barraco – principalmente dos proprietários de vários imóveis. “Eles nem moram aqui, só querem saber do que vai ser melhor para o negócio de Airbnb deles”, você pensa.

Um desses investidores, um senhor de cabelos brancos e sempre trajado com camisa de botão aberta no topo, nem espera o síndico chegar para iniciar as reclamações. “O prédio do outro lado da rua contratou portaria remota, cortou oito empregos e economizou 18% dos custos todo mês, quero só ver a desculpa para o síndico não concordar em fazer o mesmo!”. Hoje, não vai ser um dia fácil para você brigar pelas lixeiras de coleta seletiva nos corredores.

O síndico finalmente chega e, dessa vez, está com um sorriso no rosto. “Temos novidades”, ele diz, acompanhado de três engravatados. “O prédio foi vendido”. O silêncio dos condôminos anunciava a surpresa. “Todos vocês receberão um Pix com o valor patrimonial dos seus apartamentos com 25% a mais de bônus”.

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Enquanto todos choram e comemoram em um grande frenesi, você se pergunta: o que será do condomínio em que você viveu por tantos anos? Bom, esse não é mais problema seu.

O síndico está saltitante. Ele não terá mais que atender às necessidades de centenas de moradores. O que vai determinar, no entanto, se o prédio finalmente terá as melhorias necessárias e quais serão as prioridades são, única e exclusivamente, os interesses dos novos donos.

Mas… será que esses donos vão querer reduzir os custos trocando os funcionários da portaria? Qual o nível de preocupação deles com a reciclagem? Será que finalmente alguém vai arrumar a porta do elevador do décimo terceiro andar? Ou será que vão demolir o prédio para construir um shopping center?

Esse interesse agora é privado e só diz respeito aos novos donos. Se vai ser bom ou ruim, bem, isso agora não se conecta com suas vontades ou necessidades. O prédio seguirá os interesses dos novos compradores.

Uma compra histórica

A história acima é absurda e fictícia, claro, mas ajuda a explicar um fato histórico que acaba de acontecer na indústria dos games. Uma das maiores e mais emblemáticas produtoras e distribuidoras de videogames do mundo não é mais uma empresa de capital aberto. A Electronic Arts foi comprada por aproximadamente R$ 290 bilhões — a maior aquisição da história financiada por empresas de private equity.

Não ser listada em bolsa de valores e ter ações negociadas publicamente é quase um luxo para as grandes empresas atuais, sedentas por IPOs. A própria EA é uma das precursoras desse movimento no mercado de games; ela abriu suas ações para o mercado por 36 anos e viu o valor de suas ações passarem de R$ 2,75 para R$ 1.115; valor que será pago por cada cota da empresa nessa transação.

Os compradores, a empresa de private equity Silver Lake Partners, o fundo soberano da Arábia Saudita (PIF) e a Affinity Partners, não são necessariamente novatos no mercado de games. O PIF já era o maior acionista interno da EA e possui outras empresas do setor, como a Scopely.

E não é a primeira vez que uma grande empresa fecha capital: Dell e Burger King o fizeram anteriormente. Nessas ocasiões, os novos donos cortaram custos, otimizaram a operação e fizeram as empresas voltarem a lucrar antes de inevitavelmente abrirem novamente seus capitais e, até onde se sabe, recuperarem o dinheiro investido.

Será esse o futuro da EA? Ou será que os compradores garantirão um foco único e mais claro para a empresa, que nos últimos três anos fiscais não aumentou seu faturamento significativamente?

Capital vs qualidade

Não é novidade minha opinião de que o capital aberto é um dos principais problemas da indústria dos games. Assim como na analogia do condomínio, muitos acionistas só querem saber de maximizar lucro e exigem que a empresa siga o dever fiduciário.

Uma empresa de capital fechado não precisa publicar ganhos e muito menos atender exigências de milhares de acionistas com interesses distintos. Ela precisa atender somente aos interesses dos donos.

Quando comparamos grandes corporações de capital aberto como a Sony com empresas privadas como a Team Cherry (de Hollow Knight: Silksong), percebemos que as de capital fechado fazem aquilo que importa para os proprietários. Seja adiar a aguardada continuação de seu sucesso por sete anos ou ignorar a pressão de mercado e lançar seu jogo por R$ 60 em vez de R$ 150.

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No entanto, não sejamos ingênuos: o interesse de fundos investidores com bilhões de dólares em ativos em todo o mundo não é fazer jogos inspiradores e que sejam lançados somente quando estiverem prontos. Eles seguem a lógica do capital e, no fim, esse jogo é muito parecido com o de uma empresa com acionistas.

O futuro da EA é incerto. Ela definitivamente não estará a salvo da lógica do capital, mas quem sabe pode ter sossego para seguir uma rota única em vez de se dividir para alcançar centenas. Só o tempo vai dizer se vamos ou não sentir falta das tumultuadas reuniões de condomínio.

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