A Visa, multinacional americana de serviços financeiros conhecida especialmente pela bandeira de cartão de crédito, está investindo mais no mundo dos games – e não deve parar em 2025. A estratégia da marca no setor, que se tornou ao longo das últimas décadas uma empresa de tecnologia e segurança para meios de pagamento, inclui estar cada vez nos serviços e plataformas relacionadas a games, além de competições de esportes eletrônicos, inclusive na América Latina e Caribe.
O objetivo, conforme explica em entrevista exclusiva ao TGE o diretor de marketing para games da Visa na região, Andrés Mociulscky, é conquistar a atenção de um público de hábitos cada vez mais diversos apostando especialmente em experiências. Foi isso que levou a marca a firmar parcerias com organizações como as argentinas KRÜ Esports e Isurus, além da operação brasileira da Team Liquid – com a qual tem participado ativamente de eventos como a Brasil Game Show, por exemplo.
“Um dos objetivos principais é pensar formas de falar de forma orgânica e genuína com eles [os jovens]. Partimos dessa premissa: para ser orgânico com a geração Z é preciso ter parceiros que já falam com ela”, explica o executivo.
O esforço não é por acaso. Um estudo recente da própria Visa sobre os hábitos de pagamento da geração Z na América Latina apontou que 80% dos jovens dessa faixa etária na região se identificam como gamers, e 70% afirmam que videogames são sua forma de entretenimento favorita. E, melhor ainda para quem investe no segmento, 57% dizem que descobriram novas marcas enquanto jogavam.
Confira os melhores momentos da entrevista:
The Gaming Era: Você lidera uma diretoria específica na Visa para cuidar de games na América Latina e no Caribe. Isso simboliza o quanto os jogos são importantes enquanto negócio para a empresa?
Andrés Mociulscky: As pessoas tendem a pensar que a Visa está longe de games, mas a verdade é que somos o meio de pagamento da maioria das transações em jogos no mundo. Temos a tecnologia por trás de qualquer tipo de transação e credencial.
Eu comecei nesse cargo quase três anos atrás na Visa porque estamos sempre olhando formas de habilitar pagamentos em todo lugar. E os games são uma paixão tão grande para as pessoas ao redor do mundo, assim como na América Latina.
Minha atuação está relacionada não apenas aos negócios, mas a amplificar acesso. Os gamers são uma comunidade muito interessante de trabalhar.
TGE: Enquanto marca, a Visa é bastante presente em esportes tradicionais. Os games são então uma extensão dessa estratégia?
Mociulsky: A Visa é parceira oficial da Olimpíada e Paraolimpíadas, e da NFL [liga de futebol americano] na América do Norte. Os eSports são a evolução de como a Visa faz parcerias.
Estamos tentando ajudar a desenvolver comunidades ao redor do mundo.
TGE: No caso específico dos eSports na América Latina, quando a Visa entra?
Mociulsky: Começamos em 2023 com o apoio à KRÜ Esports, organização liderada Sergio ‘Kun’ Agüero e pelo Leonel Messi [ex-jogadores de futebol]. Queríamos entrar fundo na comunidade gamer por meio de duas lendas, e na comunidade falante de espanhol.
Não somos a primeira empresa a trabalhar com jogos, e provavelmente não seremos a primeira marca que vem à mente desse público. Mas queremos criar experiências.
Estamos no segundo ano de um contrato de três anos. É uma parceria muito boa para nós. E queremos sempre aprimorar o conteúdo gerado.
Em 2024 fizemos uma parceira com Isurus, também da Argentina, mas com uma comunidade forte em toda região, principalmente México, graças ao League of Legends. E assim começamos a pensar em complementariedade, alcançando a comunidade de LoL e de Valorant.
Com a Isurus o mais espetacular é apoiar a Liga Valkyria, mais importante liga semiprofissional de LoL para a comunidade inclusiva e diversa.

E agora no Brasil desenvolvemos uma das nossas parcerias mais fortes, com o Team Liquid, que tem instalações impressionantes em São Paulo. Somos patrocinadores do time inclusivo. Queremos ser uma marca mais próxima dos games em todas as regiões, e estamos sempre investindo no cenário inclusivo.
TGE: Por que vocês escolheram esse foco em diversidade?
Mociulsky: Estivemos pesquisando essa comunidade e há muitas estatísticas sobre o quanto ela pode ser tóxica. Pensamos que poderia ser uma “side quest”.
Queremos ter melhores os produtos e soluções financeiras para os gamers, para que eles se sintam mais confortáveis para jogar e aprimorar o gameplay, mas também queremos estimular uma diversidade maior.
TGE: Outro aspecto importante para as empresas que investem em games atualmente, especialmente as marcas ditas não-endêmicas, é falar com geração Z. Qual o desafio de falar com jovens para a Visa em específico, uma empresa dona de uma marca tão tradicional?
Mociulsky: É um dos “hot topics” atuais. Quando comecei três anos atrás um dos briefings que recebi dizia que precisávamos falar a língua da geração Z. E achamos que os games não são um ponto final para esse objetivo, mas parte de uma estratégia.
Um dos caminhos é tentar conquistar a preferência [dos jovens] e nos tornarmos a forma preferida de movimentar dinheiro. Para fazer isso através dos games, começamos a mudar todo o ecossistema na região, pensando em quem estava fazendo as coisas certas sob a nossa perspectiva. Tentamos organizações, ligas profissionais etc.
Um dos objetivos principais é pensar formas de falar de forma orgânica e genuína com eles. Partimos dessa premissa: para ser orgânico com a geração Z é preciso ter parceiros que já falam com ela, e são as pessoas digitais, que nasceram com a internet.
Temos que falar com eles de dentro da paixão deles, não de fora.
TGE: E como vocês medem esse retorno? Não me parece algo tão simples.
Mociulsky: Existem algumas formas, mas não é fácil. Como tudo na vida. (Risos) Tem algumas maneiras de medir o sucesso. Do ponto de vista de negócios, quantas transações vindas [das iniciativas] de gaming ocorrem por ano, ou por mês etc. Temos ferramentas internas.
Tem também outro conjunto de ferramentas que podemos medir o marketing: o impacto de social media, que é o meio mais comum de se comunicar com a geração Z. Pode ser Instagram, TikTok, ou Discord e Twitch.
Eu diria que estamos no bom caminho, tanto pelo conteúdo que estamos fazendo como pelo feedback que recebemos, quase instantâneo.
E no longo termo usamos as pesquisas. Fazemos pesquisas para tentar medir como a Visa se sai em “brand preference” e como os games tem impacto na nossa comunicação.
TGE: O ano de 2024 foi difícil para o setor de games, e de eSports também. Isso posto, quais suas expectativas para 2025?
Mociulsky: Houve um certo inverno. Algumas organizações tiveram que fechar, houve layoffs. Mas foi um movimento parte de um processo natural de correção. Acontece, especialmente depois da pandemia, quando tivemos um grande “boom”.
Para o próximo ano, esperamos um crescimento médio positivo. Veremos mercado de gaming crescendo, especialmente na América Latina e no Caribe. Algumas publishers também fizeram correções em seus projetos de eSports, o que são provavelmente bons passos para um desenvolvimento do ecossistema mais sustentável.
Patrocínios, salários dos pro-players, custos etc: quando uma bolha explode, tudo vai para o ralo.
TGE: Quais as perspectivas da Visa para 2025 no cenário gamer?
Mociulsky: Para nós, 2024 foi um ano de crescimento e aprimoramento. Crescemos acima da média no mercado gamer. Vimos nossa estratégia funcionando. Não temos uma receita mágica, mas temos visto sucesso.
O próximo ano será muito bom. Temos muitas coisas cozinhando nos bastidores, e esperamos crescer nossa rede de parcerias, patrocínios e iniciativas na região.
E queremos começar a conectar os pontos entre as diferentes parcerias que criamos. Vemos um futuro muito opositivo para o mercado de games.