Não canso de dizer que trabalhar na indústria de games é um privilégio. Fazer parte de um segmento onde arte, entretenimento e criatividade se conectam com as minhas habilidades profissionais é motivo de sorrisos e agradecimentos quase diários. Como jogador e fã de games desde criança, muitos momentos acabam se tornando ainda mais especiais.
Como veterano de feiras como BGS e BIG Festival (agora Gamescom Latam), também tive a oportunidade de conhecer eventos marcantes da indústria, como a E3 em Los Angeles (EUA), a Gamescom em Colônia (Alemanha), eventos de eSports como IEM em Katowice (Polônia), dentre outros.
Mais recentemente, fui conhecer a Dreamhack em Estocolmo (Suécia) devido ao trabalho. Um lugar que sempre foi especial mesmo sem nunca ter conhecido.
Onde tudo começou
A Suécia foi um dos primeiros países que conheci virtualmente. Na febre das lan houses, que ajudaram na conexão de milhões de jovens brasileiros que não sabiam o que era ter computador e muito menos internet, Counter-Strike era a língua comum entre jovens e adultos de diversas idades e escolaridades.
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No servidor, não importava se você era aluno ou diretor, contanto que fosse capaz de ajudar o time a vencer. Quanto mais jogávamos, mais ouvíamos histórias sobre a Inferno Online, uma lan house gigante com mais de 500 computadores no norte da Europa. Era o lugar onde grandes equipes como o NiP, SK e team9 jogavam buscando a glória dos primeiros campeonatos mundiais.
Nessa época de menino ainda, sonhávamos em conhecer o lugar onde a história era feita e os melhores jogadores forjados. Avançando 25 anos no tempo, chegou o convite de conhecer o país que praticamente tornou o Counter-Strike o fenômeno que ainda é.
Cidade gamer
Já na chegada à cidade, após mais de 16h de voo e uma conexão em Amsterdam, me chamou a atenção a quantidade de comunicações sobre o evento no mobiliário público. Outdoors, cartazes e adesivos me davam as boas-vindas a um dos berços da cultura viking.

O trajeto aeroporto-centro levou 40 minutos com o trem expresso. Como toda metrópole europeia, o transporte público é sempre a melhor opção.
Passada a primeira noite de descanso, fui conhecer o centro de convenções em que aconteceria o evento, o imponente Stockholmsmässan. Fazendo parte de uma comitiva do governo do estado do Rio de Janeiro, sabia que a viagem seria curta, então queria aproveitar bem os dias na cidade.
Apesar do frio e a sensação térmica ser bem abaixo de zero, fui bem preparado com roupas e casacos adequados.
Festa da cultura gamer
A Dreamhack nasceu há quase 30 anos atrás como um evento de comunidade, onde jogadores levavam computadores para jogar entre si em lan. Essas comunidades cresceram e se multiplicaram, não apenas em números de jogadores, mas na quantidade de gerações que cresceram jogando.
Pessoas com diversos tipos de background, unidas pelo videogame. Na edição 2024, me surpreendi com a quantidade de famílias, com crianças e adultos de todas as idades.
Com dezenas de stands de empresas endêmicas como Intel, Lenovo e Riot Games, e algumas não endêmicas como Lego e Elgiganten – patrocinadora master do evento – me chamou atenção um espaço da polícia sueca, em que jovens podiam jogar eFootball na presença de policiais fardados simpáticos e prontos para tirar dúvidas sobre melhores práticas de segurança.

Jogar videogame faz parte da cultura sueca há décadas, então nada mais verdadeiro do que o governo e suas entidades também participarem desses momentos de celebração da comunidade. O evento juntou mais de 40 mil pessoas em três dias e mais de 2 mil computadores na área de lan house.
Passado e futuro
Com a missão cumprida, sobraram algumas horas para conhecer um dos lugares mais icônicos para quem é fã old school de Counter-Strike: a Inferno Online. A lan house original no centro de Estocolmo cresceu e se transformou em um grupo com quatro lojas na capital sueca e duas em Malmo.
Infelizmente o grupo passa por dificuldades financeiras, mas nada apaga a sensação de pisar onde a história dos eSports foi construída. Com design moderno e confortável, o espaço também conta com centros de treinamento e o espaço Red Bull Gaming Sphere, além de centenas de computadores para uso pessoal.

O mundo gamer extrapolou a comunidade de jogadores e é um movimento social, hoje incentivado por diferentes esferas público-privadas para que as pessoas possam confraternizar. Não só em eventos de games, mas festas, shows, cosplay.
Considerando que a quantidade de jogadores no mundo passa dos 3 bilhões de pessoas, o incentivo a eventos de games é oportunidade única de fazer parte de momentos de formação de opinião, compra, socialização.
Torço para que esse entendimento seja expandido no Brasil fora o eixo Rio-São Paulo, cidades que já enxergam a oportunidade de investir no mundo de games. Quem sabe alguma dessas iniciativas de hoje não vire um espaço único, que será lembrado e buscado por jovens daqui há 10 ou 20 anos? Fico na torcida!