Rivalidade que vende: o que transforma disputa esportiva em produto de mídia

Relação só funciona quando existe uma competição capaz de produzir novas histórias, escreve Victor Hugo Cebratelli, do Team Solid
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Imagem: Canva

Nos esportes eletrônicos, nem toda partida desperta o mesmo interesse. O campeonato, a fase da competição e os jogadores envolvidos influenciam a audiência, mas o histórico entre os adversários também pode transformar um confronto em um acontecimento maior.

Uma rivalidade estabelecida cria interesse antes da partida, amplia a repercussão durante o jogo e prolonga a conversa depois do resultado. Para organizações, ligas e patrocinadores, isso abre uma possibilidade comercial: transformar um confronto pontual em uma narrativa acompanhada ao longo da temporada.

Essa dinâmica é particularmente relevante nos eSports porque a competição não termina na transmissão. Organizações, jogadores, criadores e comunidades produzem e distribuem conteúdo continuamente, permitindo que uma disputa seja retomada em entrevistas, redes sociais, vídeos, bastidores e novos confrontos.

Por isso, rivalidades podem ser mais do que consequência da competição. Elas podem ser construídas, narradas e distribuídas ao longo de uma temporada, desde que exista uma história esportiva capaz de sustentá-las.

Rivalidade e relevância

Uma rivalidade pode nascer de diferentes situações: finais consecutivas, disputas por títulos, eliminações, transferências de jogadores, antigos companheiros de equipe ou uma sequência de confrontos equilibrados.

Tenho um ótimo exemplo. No Mid-Season Invitational de League of Legends de 2025, a final entre Gen.G e T1 alcançou 3,45 milhões de espectadores simultâneos, segundo a Esports Charts, estabelecendo o maior pico de audiência da história do torneio. O resultado também se refletiu na força do confronto entre duas das principais equipes do cenário sul-coreano, embora a audiência seja influenciada por diferentes fatores, como a importância da partida e o alcance das equipes.

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O número não pode ser explicado exclusivamente pela rivalidade. A partida era a final de um dos principais torneios do calendário e reunia duas organizações de grande alcance. Ainda assim, o confronto mostra como contexto esportivo, histórico entre equipes e relevância competitiva podem se combinar para ampliar o interesse do público. Para o mercado, a questão é o que acontece depois desse pico.

Oportunidade ao redor da partida

Acredito muito que o valor de uma rivalidade não está apenas na audiência do jogo. Uma disputa relevante pode gerar muito conteúdo de pré-jogo, entrevistas, bastidores, análises, ativações comerciais e materiais para redes sociais.

Isso amplia os pontos de contato entre organização, público e patrocinadores. Uma marca pode aparecer durante a transmissão, mas também participar de conteúdos e experiências associados a um confronto que já desperta interesse genuíno na comunidade.

Pesquisas sobre patrocínio em eSports ajudam a contextualizar essa relação. Um estudo publicado em 2025 na International Journal of Sports Marketing and Sponsorship, com 245 participantes, encontrou associação entre a percepção de adequação entre marca e evento, reconhecimento da marca, atitude e intenção de compra.

Outro estudo, publicado em 2024 na mesma publicação, ouviu 1.355 espectadores regulares de eSports e identificou uma relação entre o vínculo emocional com jogadores, o engajamento com as comunidades e intenções favoráveis às marcas patrocinadoras, como recomendação e compra.

Embora não tenham como foco específico o efeito comercial das rivalidades, os estudos nos mostram como o envolvimento do público com jogadores, competições e comunidades pode se refletir na relação com as marcas patrocinadoras.

O que sustenta uma rivalidade?

Há, porém, um limite para esse modelo. Nem toda tentativa de transformar dois competidores em rivais produz uma história capaz de sustentar o interesse do público. A comunicação pode reforçar uma disputa, mas dificilmente substitui os acontecimentos esportivos que dão contexto a ela. Provocações, campanhas e conteúdos podem ampliar uma rivalidade, mas precisam de fatos que a sustentem.

Para as organizações, o caminho é identificar esses elementos e trabalhar a partir deles. Resultados, títulos, derrotas, transferências e confrontos recorrentes oferecem uma base mais consistente do que uma rivalidade criada apenas para uma campanha.

A diferença é importante porque o público dos eSports acompanha tanto a história quanto a competição. Quando a narrativa não encontra correspondência dentro do jogo, sua capacidade de gerar interesse tende a ser limitada.

Transformar uma rivalidade em propriedade de mídia não significa substituir o competitivo por conteúdo. A relação funciona justamente porque existe uma competição capaz de produzir novos capítulos.

Resultados, títulos, derrotas e confrontos fornecem os acontecimentos. A distribuição digital amplia sua circulação e permite que organizações e ligas mantenham a história presente entre uma partida e outra.

A oportunidade comercial está em ampliar o valor gerado por um confronto para além da transmissão. Uma rivalidade consistente cria novos espaços para conteúdo, distribuição e patrocínio, prolongando a exposição e o interesse em torno de um mesmo acontecimento esportivo.

Para as organizações, isso amplia as possibilidades de monetização da audiência. Para as ligas, pode aumentar a relevância de determinados confrontos e criar pontos de maior atenção dentro do calendário.

No entanto, o grande desafio é fazer isso sem dissociar a narrativa da competição. O valor de uma rivalidade como produto de mídia depende justamente da capacidade de transformar acontecimentos esportivos em interesse recorrente e relevante.

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