As novas capitais dos games nos Brasil

Fora do eixo mais tradicional, estados vem ganhando destaque no mercado nacional de games e organizando força interna
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Foto: Canva

Se inaugurarmos esse texto pedindo a você, caro leitor, que se lembre de uma cidade onde esteja sendo desenvolvida uma pujante cena de criadores de jogos eletrônicos, tenho certeza que você vai pensar no eixo RJ x SP. Se muito, você esticará sua mente para o sul do País ou, talvez, para o Distrito Federal.

Seu pensamento fará isso e você, pelo que mostram os dados, poderá se achar no direito de reclamar razão: segundo a última pesquisa da Abragames sobre o setor no Brasil, quase 80% dos estúdios estão concentrados no eixo Sul-Sudeste. Afinal, isso não é exatamente sobre o setor de jogos, mas sobre uma construção histórica da nossa nação, certo?

Mas se pretendemos mesmo ter um lugar ao Sol nesse mercado multibilionário – maior que o dobro da soma das indústrias cinematográfica e fonográficas, diz o brocardo antigo – será que a solução não está mesmo na criatividade e nas experiências únicas vividas fora do eixo já óbvio de todo o restante dos setores da economia brasileira?

A resposta pode ser induzida pelo autor pela mera construção do pensamento, mas podemos ir além disso. Nesse mês de agosto, pude visitar dois estados que têm dados demonstrações recentes de que a criatividade e a organização coletiva podem mesmo ativar uma nova economia, que só o setor de jogos eletrônicos é capaz de movimentar.

O caso capixaba

No começo do mês de agosto, tive a oportunidade de visitar e palestrar, em duas mesas distintas, na Headscon ES, evento realizado pelo Instituto Gamecon que já conta com edições em Brasília (DF) e no Acre. E que tem se dedicado a levar experiências gamers para outras regiões do País, com destaque para a produção nacional.

Por lá, foi importante observar a consistente articulação institucional que tem promovido a GameDev ES, associação de desenvolvedores de jogos do Espírito Santo. Na coletiva de lançamento do evento e nos dias da ação propriamente dita, vi secretários estaduais e municipais de áreas tão diversas como Ciência e Tecnologia, Cultura, Turismo e Desenvolvimento Econômico circulando pelo evento.

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O evento mesmo, aliás, foi viabilizado por uma emenda parlamentar da deputada federal Jack Rocha (PT-ES), que se comprometeu com o setor e tem sido ciceroneada – assim como as várias outras autoridades presentes no evento – pelo presidente da entidade associativa e seu vice, Fabiano de Paula e Victor Hugo de Abreu.

Discussões valiosas trouxeram à tona a relevância das atividades da associação, bem como sobre experiências anteriores de outros segmentos da economia, que hoje são destaques do estado e que começaram a se organizar há muitos anos – aliás, da mesma maneira como hoje estão fazendo os criadores de jogos por lá.

Ficou também nítida a importância dos dados, da pesquisa e da articulação com a academia e a sociedade. De Abreu pesquisou e entrevistou todos os beneficiados com a Lei Paulo Gustavo no estado do Espírito Santo, por exemplo. Verificou como a política pública ajudou a fundar estúdios, construir novos games e, claro, gerar oportunidades de emprego e renda que se disseminaram para toda a cadeia produtiva.

O caso alagoano

Há, no Brasil, entidades associativas em ao menos 20 territórios. Em muitos deles, as associações ainda não estão formalizadas, isto é, organizam a luta dos estúdios e desenvolvedores mas ainda não tem um CNPJ.

Em todos esses territórios, eu tenho sido um insistente defensor de que elas atravessem esse “portal da informalidade” para que tenham mais peso no debate público e na construção de relações com o Estado e com as grandes entidades privadas. Também se tornando capazes de propor de maneira formal projetos e iniciativas.

Um dos lugares que acompanhei mais detidamente nos últimos meses foi o de Alagoas. Em um movimento ora digital, ora presencial, a troca de experiências foi o mote para encontrar caminhos para acelerar a turma do “Paraíso das Águas” a alcançar toda sua potencialidade.

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Durante a última Rio Innovation Week recebemos aqui no RJ a gestora do programa de games do Sebrae-AL, Themis Mendonça, a quem pudemos mostrar as principais iniciativas do nosso estado para o setor de jogos, aproximar a academia (representada pela Universidade Federal Fluminense), os eventos de jogos (com uma visita a sede da Brasil Game Show) e fazer trocas com o poder público local (em reunião com a Secretaria das Culturas de Niterói, cidade não-capital que mais investe em cultura no País).

Na semana seguinte, pude visitar a capital alagoana para acompanhar a fundação da entidade local – que lá se chama ACJOGOS-AL, advinda do coletivo DEJA – em uma reunião de tirar o fôlego. A solenidade de abertura contou com Juliana Khalili (FAPEAL), Marcel Muller (SENAI-AL), Liza Bádue e Áurea Andrade (Sebrae-AL), Themis Mendonça (Sebrae Games AL), Tacyana Batista (Cesmac) e Layane Araújo (UFAL).

Ao todo, mais de 70 pessoas reunidas do setor produtivo para decidir sobre os rumos da sua entidade associativa, tendo elegido Thiago Cortez (presidente), Felipe Jatobá (vice-presidente) e Robson Matos (diretor financeiro). Os três saíram do evento com compromissos da presença da entidade em ações realizadas pela Fapeal em um grande evento de inovação do estado.

Tem (mais) Brasil no jogo

Na tal “indústria criativa” é fundamental falarmos em diversidade. É impossível criar e ser diferente fazendo mais do mesmo, com as mesmas pessoas, nos mesmos lugares. Os cenários bem articulados do Espírito Santo e de Alagoas demonstram de maneira clara que temos muita coisa acontecendo para além dos eixos “óbvios”. 

Sociedade civil, academia, associação de classe, setor produtivo, governo. As “hélices da inovação” estão todas presentes em territórios que mostram que o Brasil tem um largo oceano para navegar, onde pode ser o barco que chama atenção por onde passa se souber se valer de sua diversidade interna em um país que é um continente inteiro.

Bora conhecer – de verdade – esse “Brasil dos games”?

P.S.: Termina na próxima segunda-feira (8) a consulta pública da agenda regulatória da Ancine para 2025-2026. Sugiro fortemente que você leia minha coluna sobre o tema e, claro, se engaje na campanha!

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