A essa altura você já sabe: a Netflix, que mudou a forma como se assistem filmes e séries no mundo, pode ser a próxima nova dona de parte da Warner Bros. Discovery, centenário conglomerado americano de mídia e entretenimento. O negócio de US$ 82,7 bilhões (ou impressionantes R$ 475 bilhões pela cotação atual), anunciado nessa sexta-feira (5), coloca no colo da empresa de streaming os estúdios da Warner Bros. Pictures e da New Line Cinema, a DC Comics, as produções da Warner Bros. Television e da HBO, além do streaming HBO Max e, sim, a Warner Bros. Games.
Já na preparação para ser vendida após anos de resultados ruins, a Warner havia anunciado em junho desse ano a separação em duas grandes partes. Uma, a Streaming & Studios, ficaria responsável pelas marcas citadas acima, enquanto a outra, chamada Global Network, cuidaria apenas das redes de televisão, incluindo os canais da Discovery, a Cartoon e a gigante de notícias CNN, entre tantas outras. A que pode ser comprada, se as devidas aprovações regulatórias e dos acionistas forem concedidas, é a da primeira.
O cheque da Netflix será composto de US$ 10,3 bilhões em dinheiro, US$ 60,7 bilhões em débito e US$ 11,7 bilhões em opções de ação. O valor proposto aos acionistas atuais é de US$ 27,75 por ação, ou 13% a mais do que o valor pela cotação antes do anúncio. Uma reunião de acionistas é necessária para que a proposta seja aceita.
A expectativa é que a separação da WB em duas seja concluída no 3º trimestre de 2026, antes do fechamento da compra pela Netflix, que deve de fato ocorrer no mínimo daqui um ano, ou seja, em dezembro de 2026, de acordo com a expectativa mais otimista da Netflix (a pessimista é maio de 2027). O negócio, resumindo, dá à Netflix um imenso catálogo de filmes e séries. E tira o pé da Warner da lama.
O que nos interessa nessa história toda, ou seja, os games, é um pouco mais nebuloso. A WB Games – no passado conhecida como Warner Bros. Interactive Entertainment – é um dos estúdios mais profícuos da história da indústria global de jogos, tendo sob sua batuta sucessos como a série Batman Arkhan, da Rocksteady, os jogos mais recentes da franquia Mortal Kombat, da NetherRealm’s, e Hogwarts Legacy, da Avalanche Software, inspirado na franquia Harry Potter e o jogo mais vendido do ano de 2023, com mais de 22 milhões de cópias.
A empresa também é dona da TT Games (da franquia Lego) e de estúdios próprios em Montreal (Canadá), Boston, Nova Iorque e São Francisco (EUA). É ainda dona dos assets de estúdios lendários como Midway, Williams Electronics e Atari Games.
Ok, houve alguns escorregões recentes que corroeram a divisão financeiramente – como o desligamento de MultiVersus e o mal desempenho de Suicide Squad: Kill the Justice League e Harry Potter: Quidditch Champions –, mas chama a atenção que tamanho ativo intelectual não tenha sequer sido mencionado pelos executivos que nessa sexta-feira (5) comentaram o negócio.
É isso mesmo que você leu. Durante a conferência entre analistas de negócio e os executivos da Netflix responsáveis pelo negócio, ninguém, absolutamente ninguém, sequer mencionou a Warner Bros. Games. A única referência foi um logo tímido de Mortal Kombat 1 [no slide 7, caso você queira procurar]. Nem mesmo a palavra “games” saiu da boca de ninguém (a não ser para mencionar a série Game of Thrones).
O que se sabe até agora é o que um porta-voz da Netflix confirmou ao site Game Developer: sim, a divisão de jogos está incluída no negócio. Mas é só isso mesmo.
Oportunidade ou jabuticaba?
Desde 2021 a Netflix tenta emplacar o seu próprio negócio de jogos eletrônicos, que tem caminhado aos trancos e barrancos. Ao mesmo tempo em que a empresa anuncia a chegada de games de sucesso com Red Dead Redemption, da Rockstar, ao Netflix Games, e engorda o catálogo com jogos que fizeram sucesso no celular e ports de consoles, por outro faz demissões de executivos e fecha estúdios, quando não simplesmente os vende de volta aos fundadores.
Ou seja, não parece exatamente o melhor momento para a Netflix comprar um dos maiores publicadores e desenvolvedores de jogos AAA da indústria. Mas o silêncio sobre o destino da divisão de games da Warner talvez se deva ao fato de ela ter sido, por muitos meses, alvo de rumores sobre uma possível venda.
Desde 2024 sites de notícias especializados em games mencionam que a WBD estaria considerando vender a divisão de games inteira, ou partes dela, para remediar prejuízos. Também chegou a ser discutido, segundo esses rumores, o desinvestimento total em franquias gigantescas, como Harry Potter, jogos inspirados em personagens da DC Comics ou em Game of Thrones, e mesmo em Mortal Kombat. Os prejuízos chegaram a US$ 384 milhões no ano passado.
Quando os rumores de venda cessaram, já em 2025, o discurso da própria WB Games falava em mais “eficiência” e “reestruturação”. Estúdios como a Monolith Productions, o Player First Games e a WB Games San Diego foram fechados – todos ao longo desse ano. Projetos como o jogo da Mulher Maravilha foram cancelados. Não se sabe que destino terão novos games com Batman ou mesmo no universo de Harry Potter, que supostamente tem uma sequência em desenvolvimento pelo menos desde 2023.
É provável que as próximas semanas revelem o verdadeiro destino da Warner Bros. Games, caso a aquisição realmente se efetive. Mas não deixa de ser um pouco triste que a atual crise coloque sob interrogação algumas das franquias mais amadas e definidoras de gêneros da história.




