Invocação de monstros e patentes: o que realmente está em jogo?

Registro da Nintendo não significa que criatividade nos games acabou, mas pode criar um campo minado, escreve especialista
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Pokebola da discórdia. Imagem de Pokémon Scarlet/Violet. Crédito: Reprodução, Nintendo

Nos últimos dias, você deve ter ouvido falar que a Nintendo patenteou a mecânica de invocar monstros em jogos de turno, certo? Não é mentira, mas também não é verdade. Como quase sempre, a situação é mais complexa e, portanto, bem mais interessante. Mas, antes de tudo, você sabe o que são patentes?

Uma patente não é sobre ter uma ideia genial, mas sobre transformá-la em uma solução concreta – seja um método, produto ou processo que realmente funcione de forma nova e aplicável (guarde essa informação). É uma das formas de Propriedade Intelectual (PI), juntamente com:

  • Marcas: protegem nomes, logotipos e slogans, garantindo que os consumidores reconheçam quem está por trás de um produto ou serviço, tal como “Pokémon” ou no logotipo da Nintendo.
  • Direitos autorais: protegem criações como o design de personagens, trilhas sonoras e roteiros de jogos.

Ainda existem outras, como: indicação geográfica, desenho industrial etc. Mas nem tudo pode ser patenteado, por exemplo: ideias puras, teorias científicas ou softwares isolados não entram na jogada. O que conta é como você transforma a ideia em algo concreto e aplicável, como uma “receita única”.

Por fim, após a patente ser registrada, durante o tempo de proteção, que costuma durar cerca de 20 anos, o inventor tem exclusividade para explorar sua criação, em troca de compartilhar o conhecimento técnico com o mundo.

Então, o que a Nintendo patenteou?

No dia 2 de setembro de 2025, o Escritório de Patentes e Marcas dos Estados Unidos (USPTO) concedeu à Nintendo Co., Ltd. a patente US12.403.397B2, intitulada “Storage Medium, Information Processing System, Information Processing Apparatus, and Game Processing Method”.

Ela tem origem na patente japonesa JP7482585B2, depositada em 16 de agosto de 2022, o que significa que essa é a data “prioritária”, ou seja, qualquer jogo lançado após essa data que use essa mecânica pode ser indagado. E qualquer jogo que já usasse o mesmo método antes dela poderia ser usado para contestar o registro.

Figura 1 – Print da página inicial da patente US12.403.397B2

A patente em questão protege é o fluxo lógico que conecta essas ações:

  • O jogador executa a ação de invocar uma criatura;
  • O jogo define uma “área de determinação” no campo, baseada na posição e direção do jogador;
  • O sistema verifica se há um inimigo nessa área:
  • Se sim → o jogo inicia uma batalha por comandos;
  • Se não → o monstro entra em um modo de movimento autônomo, podendo ser enviado para batalhas automáticas.

Simplificando, a Nintendo patenteou o modo como o jogo decide o que acontece após a invocação dependendo do contexto, não a invocação em si.

Figura 2 – Reivindicação prioritária da patente US12.403.397B2

E por que isso importa?

Essa mecânica está presente em títulos como Pokémon Legends: Arceus e Pokémon Scarlet & Violet, que introduziram o sistema de batalhas automáticas, o “Let’s Go mode”. O registro busca garantir que essa transição entre modos, manual e automático, não seja replicada de forma idêntica por concorrentes.

É uma estratégia legítima de proteção de design de gameplay, mas que naturalmente levanta discussões sobre os limites entre inovação e monopólio.

Figura 3 – Esboço de como a patente US12.403.397B2 funciona
Figura 4 – Modo “Let’s Go” do Pokémon Scarlet/Violet

Mas, isso já não foi feito antes?

Toda patente deve ser nova, e a verificação disso se dá pela busca por arte prévia, ou seja, registros, produtos ou publicações anteriores que descrevem invenções iguais ou similares. Essa análise precisa ser criteriosa e pode levar dias ou meses, para que garanta uma busca completa e segura.

Entretanto, no caso dessa patente, especialistas indicam que ela foi concedida com análise limitada e sem referência a jogos reais. Isso pode gerar uma falha no processo, pois a redação técnica e detalhada do pedido dificulta que examinadores ou terceiros identifiquem se mecânicas semelhantes já existiam.

Além disso, muitas mecânicas de jogos não são divulgadas publicamente pelas empresas, o que torna ainda mais difícil comprovar a existência de sistemas similares, aumentando o risco de concessão de patentes sobre ideias já utilizadas.

Entretanto, é bom lembrar que qualquer patente pode ser contestada posteriormente em tribunal, caso alguém prove que a mecânica já estava presente em outro jogo antes de agosto de 2022. Jogos como Persona, Elden Ring, Final Fantasy, Shin Megami Tensei e Digimon possuem mecânicas semelhantes e que não geraram nenhum conflito direto com a Nintendo. Até porque ter a patente é mais uma forma de defesa do que de ataque da sua propriedade intelectual.

Devo me preocupar com o futuro dos jogos de monstros?

É bom ficar de olho! A patente da Nintendo não significa que a criatividade acabou nos games, mas cria um território bem delimitado: outros estúdios ainda podem fazer jogos de monstros, batalhas automáticas ou sistemas de invocação, desde que encontrem “receitas diferentes”.

O perigo real não é a empresa processar todo mundo, mas como as mecânicas de jogo podem começar a se padronizar e como as análises de propriedade intelectual têm sido feitas. Se patentear sequências de ações virar regra, o design de jogos pode se transformar em um verdadeiro campo minado legal, especialmente para estúdios independentes.

No fim das contas, a pergunta que fica é: até que ponto a inovação poderá avançar frente às fronteiras legais?

Fontes:

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