Você já ouviu falar do famoso “Gato de Schrödinger”? O experimento do físico Erwin Schrödinger apresenta um paradoxo de como a mecânica quântica permite que existam coisas em múltiplos estados simultaneamente, citando que um gato dentro de uma caixa pode estar, ao mesmo tempo, vivo ou morto.
E se, ao invés de um gato, colocássemos o metaverso dentro da caixa. Eu te pergunto: estaria ele vivo ou morto?
Metaverso foi o termo queridinho dos “tech bros” há alguns anos. Mark Zuckerberg talvez tenha sido seu maior entusiasta: investiu aproximadamente US$ 80 bilhões na empreitada e literalmente mudou o nome de sua empresa para combinar com a ideia. E se você já tinha esquecido que “Meta” vem de metaverso, talvez o objeto dentro da caixa já esteja mesmo morto.
Marquinho chegou a definir o metaverso como “um reino digital onde as pessoas trabalhariam, socializariam e viveriam” como a próxima grande fronteira da empresa. Ele chamou de “sucessor da internet móvel” e disse que a Meta seria “metaverse-first”.
Provavelmente morto.
E não foi só o Facebook que entrou de cabeça: o Google investiu quase US$ 40 milhões em um fundo de private equity voltado a projetos de metaverso, Walmart contabilizou dezenas de pedidos de marcas registradas para o metaverso e marcas como Nike e Disney criaram suas próprias unidades de negócio dedicadas.
Só que os investimentos globais no metaverso despencaram de US$ 7,6 bilhões em 2022 para US$ 707 milhões em 2023. Em 2023, rodadas de investimento em 278 empresas de metaverso levantaram apenas US$ 530 milhões, uma queda de 87% em relação a 2022; o menor valor anual desde pelo menos 2018, segundo a S&P Global.
É, muito possivelmente morto.
No entanto, se a gente ampliar um pouco o significado de metaverso para algo que não é (somente) um termo especulativo (e talvez um conveniente bode expiatório que o Facebook teria usado para desviar as atenções das seríssimas alegações de infringir privacidade justamente na mesma época) pode ser que ainda exista vida dentro dessa caixa.
Há poucos dias, a Epic Games anunciou a chegada da Unreal Engine 6, uma atualização numerada do seu motor gráfico, que é o mais utilizado do mundo. Diferentemente da última vez que isso aconteceu, em 2022, a nova versão dessa vez parece mais um incremento premium do que algo completamente inovador.
Uma das principais novidades anunciadas até agora é a maior integração entre as ferramentas tradicionais e as da UEFN, a versão simplificada do motor gráfico para criação de experiências dentro do Fortnite.
Não precisa ser um físico quântico para juntar os pontos e entender a direção que a Epic está dirigindo esse barco; Fortnite não só quer um pedaço da torta da “creators economy” de Roblox. A Epic quer ser a dona da torta inteira!
Roblox não é um jogo, é uma plataforma onde as pessoas jogam, socializam e trabalham… Eu acho que já escutei essa definição em algum lugar.
Sim, surpresa: a cobiçada torta se chama metaverso. Ta-dah!
Uma plataforma que permite que as pessoas criem suas próprias experiências em ambientes imersivos altamente sociáveis e personalizados é uma das mais antigas definições de metaverso. Já era assim desde a época do Ultima Online, passando por Ragnarok, WoW, Destiny e tantos outros jogos.
O que o Vale do Silício tentou fazer no ápice da pandemia foi produtificar um dos comportamentos mais antigos dos games. Só que massificar esse comportamento exige algo que ninguém parece ter priorizado: motivação.
Seu sobrinho entra no Roblox ou nos mapas personalizados do Fortnite para jogar com amigos por um motivo muito simples: é divertido, diverso e descentralizado. Exatamente o oposto de tudo que a Meta tentou fazer.
A Unreal Engine 6 ser desenvolvida pensando em dar ainda mais ferramentas para as pessoas criarem experiências é um forte sinal que ainda há muita esperança para o que há dentro da caixa.
Talvez, esteja vivo e não se pareça nada com a descrição que fizeram.



