Assim como os fandoms da música pop ou do cinema, os fãs de games são viscerais, unidos e altamente engajados. No entanto, o mercado publicitário ainda comete um erro primário: tratar o “gamer” como uma massa homogênea. A verdade é que o amor pelos jogos revela uma legião de consumidores que se fragmentam em dezenas de microcomunidades, divididas por gênero de jogo, console, franquia e estilo de jogo. E entender essa fragmentação não é mais um capricho, é uma urgência de negócios.
O tamanho dessa urgência é provado em números. Segundo a edição de 2025 da Pesquisa Game Brasil (PGB), 82,8% dos brasileiros consomem jogos digitais. Isso não apenas nos consolida como o maior mercado de gaming da América Latina, mas escancara um dado impressionante: o mercado de games já é maior que o mercado de filmes e música juntos.
No ambiente de vídeo, o cenário é de domínio: 50% dos canais com mais inscritos no YouTube são de gaming, e esses conteúdos figuram no Top 10 dos mais consumidos na plataforma em 2025.
O que temos aqui é o principal motor de atenção do ecossistema digital atual. Falar com esse público é garantir um potencial estratégico incomparável, com oportunidades de exposição recorrentes e prolongadas. E esse consumo se expande para muito além do controle na mão: atrai negócios do dia a dia.
Para se ter uma ideia, dados proprietários da audiência do IGN Brasil revelam que 77% desse público tem alto interesse em food delivery e 49% assinam mais de quatro serviços de streaming – um engajamento 15,5 pontos percentuais acima da média nacional apontada pela PGB. Por que, então, tantas marcas ainda escorregam na hora de falar com eles?
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A frustração da comunidade muitas vezes nasce de ativações genéricas. Vemos grandes eventos híbridos que deveriam materializar o encontro entre o mundo físico e virtual apostando em ações de marketing superficiais, que misturam cultura pop, reality shows e influenciadores, sem respeitar a cultura nativa de quem realmente consome o jogo.
Apesar de representarem uma audiência de alto engajamento, os gamers são um grupo extremamente exigente e fragmentado. Cada fandom tem seu próprio rigor e exigência.
Na prática, é o público que eleva uma adaptação aos céus quando o visual é fiel, como aconteceu com o sucesso do live-action de One Piece, mas que ironiza e repudia atalhos tecnológicos. Um exemplo recente foi a enxurrada de críticas ao uso de inteligência artificial da Nvidia para refazer texturas em jogos clássicos.
No discurso dos corredores de agências, “gamers são todos iguais”. Na prática, são mundos distintos.
Dois exemplos
Para ilustrar, basta olhar para duas comunidades de peso: a FGC (Fighting Game Community) e os Fifeiros (fãs de simuladores de futebol).
- A FGC é focada na técnica, no debate de mecânicas de luta, constrói rivalidades e viaja o País para competir e acompanhar torneios presenciais de cada jogo. É um público de eSports puro.
- Já os Fifeiros enxergam o jogo como uma extensão da sua paixão pelo futebol real. Eles ligam o videogame depois de assistir ao time do coração na TV, buscam nostalgia e encontros sociais, e estarão com o hype nas alturas para a Copa do Mundo de 2026.
Tentar vender o mesmo conceito de campanha para esses dois perfis, apenas porque ambos “jogam videogame”, é jogar dinheiro pela janela.
Falar com gamers não se trata de falar com uma audiência única, mas com um hub de múltiplas comunidades. Entender essas diferenças não é apenas um detalhe criativo: é exatamente o que define se uma marca será reverenciada ou ignorada.
As marcas que já perceberam que essas microcomunidades são, na verdade, macro-oportunidades de negócios já saíram na frente, conquistando a lealdade de consumidores altamente fiéis. Para 2026, a palavra de ordem não é escala, mas sim contexto.
Não basta “anunciar em games”; é preciso entender o calendário, a nostalgia, o comportamento social e o que cada microcomunidade exige antes de dar o play.



