Figura bastante emblemática da região Sul do Brasil, especialmente no estado do Rio Grande do Sul – mas também na Argentina, no Uruguai, no Paraguai e até em partes da Bolívia –, o gaúcho tem potencial para ser um grande protagonista de um jogo de videogame, além de atrair uma audiência não só dessas regiões, mas de todo o Brasil e do mundo. É essa a aposta da Epopeia Games, estúdio e publisher que lança nessa quarta-feira (16) seu aguardado Gaucho and the Grassland.
O jogo de aventura com elementos de simulação de “fazendinha” chega primeiro ao PC (via Steam) por R$ 60, com 15% de desconto durante as duas primeiras semanas. Há versões previstas para Xbox, Switch e PlayStation, mas ainda sem uma data de lançamento.
O jogo recebeu bastante atenção da mídia especializada e ganhou prêmios em eventos ao longo do período de desenvolvimento. Apareceu também em transmissões internacionais como o Latin American Games Showcase – da qual, aliás, a Epopeia é parceira.
“Metade da nossa wishlist é [de pessoas] de mercados internacionais, de países até inusitados como o Vietnã [risos]”, conta Ivan Sendin, cofundador da Epopeia Games, em entrevista exclusiva ao The Gaming Era. Segundo ele, alcançar audiências para além da América Latina foi um objetivo durante o desenvolvimento do jogo. “Tomamos cuidado para contentar os dois lados: a galera brasileira, explorando bastante a cultura, porém tentando universalizar…”.
Gaucho and the Grasslands é mais um da crescente e desejada série de jogos brasileiros com temática local. O game contrasta bastante com o alucinante Mullet MadJack, jogo da Hammer95 publicado com estrondoso sucesso pela Epopeia em 2024, e sequer tem a pretensão de repetir o mesmo resultado comercial. A proposta aqui é outra: um jogo “cozy”, (bem mais) calmo, altamente inspirado pelos títulos da série The Legend of Zelda, da Nintendo.
Os criadores também citam outros sucessos brasileiros do passado: Sendin cita nominalmente o estúdio baiano Aoca, do jogo Arida: Backland’s Awakening (2019), e Xilo (2013), do estúdio paraibano Kaipora Digital, ambos com temática do Nordeste brasileiro e que tiveram enorme recepção positiva, inclusive fora do Brasil. “Isso nos inspirou a fazer algo com a cultura daqui”, diz o fundador do Epopeia.
Em Gaucho, o jogador vive, bem, um gaúcho, figura um tanto mitológica dos pampas, cavaleiro que é a versão latino-americana dos cowboys: intrépido, duro e explorador de regiões até então ermas para o colonizador europeu. É claro que aqui o “herói” ganha uma versão muito mais simpática: sua missão é explorar campos, colinas e praias, interagindo com seres mágicos e ajudando os habitantes locais a transformar o mundo em “um lugar mais harmonioso”.

O progresso nas aventuras depende de realizar atividades agrícolas e rurais, incluindo laçar animais e transportá-los, pescar, ordenhar, coletar ovos, consertar cercas etc. O protagonista também tem um que de mágico: é um “guardião dos pampas”, capaz de revelar elementos místicos durante a história do jogo.
Confira a seguir a entrevista com Ivan Sendin na íntegra.
The Gaming Era: Quanto tempo Gaucho and the Grassland ficou em desenvolvimento? Quantas pessoas trabalharam nele?
Ivan Sendin: No total foram quatro anos. Começamos com cinco pessoas, mas durante os anos foi subindo até chegarmos em 20 pessoas.
TGE: Contou com editais para o desenvolvimento?
Sendin: Sim. Recebemos R$ 100 mil do edital FAC Movimento da Secretaria de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul. Foi importante para iniciar o projeto.
TGE: Qual a expectativa de vendas do jogo no lançamento? Quão importante é o jogo para a Epopeia?
Sendin: A expectativa é somar, com outras receitas, [dinheiro suficiente para] manter a empresa estável para os próximos anos. É uma projeção factível e pé no chão. Preferimos pensar assim, e o que vier a mais é consequência positiva.
TGE: O jogo conseguiu bastante marketing, participando de transmissões no YouTube, inclusive internacionais. Isso aumenta a expectativa?
Sendin: Ajuda a disseminar mais o produto, atingir mais pessoas. Ajudou a criar diversos relacionamentos com essa galera que se disponibilizou a nos ajudar, e seremos sempre gratos a eles por isso.
Acho que aumenta mais [sentido] externo do que interno. Sempre tomamos cuidado para manter os pés no chão e fazer nosso melhor, para corresponder às expectativas da galera.

TGE: De onde veio a ideia de fazer um jogo sobre a vida do gaúcho? E porque um “simulador de fazendinha”?
Sendin: Aqui eu sempre acho importante citar o passado. Em 2015 tivemos um workshop da ADjogosRS [Associação de Desenvolvedores de Jogos Digitais do Rio Grande do Sul] com o Rodrigo Motta, que tinha produzido um game chamado Xilo, sobre a cultura do Nordeste. Trocando ideias com ele, e vendo a recepção que [o jogo] gerou lá fora, nos inspiramos a fazer algo com a cultura daqui.
Ele, a Aoca e outros que fazem jogos culturais nos inspiraram para desenvolvermos o nosso. Acho importante citar essa galera.
Na verdade era para o jogo ser um adventure. Fizemos um teaser na época chamado Pago, que atraiu interesse de publishers como a 11bit e a Raw Fury, mas éramos muito inexperientes e não conseguimos evoluir bem. Acabamos engavetando o projeto até estarmos mais maduros, o que levou cinco anos [risos].
“Fazendinha” é uma tag que achamos que tem potencial, e que casa bastante com a nossa cultura – mais uma vez juntando o útil ao agradável.
TGE: Que potencial vocês enxergam nesse personagem para “furar a bolha” brasileira e da América Latina (especialmente Uruguai e Argentina)? É possível levar esse tema para mercados mais distantes?
Sendin: É sim. Tanto que metade da nossa wishlist [lista de desejos no Steam] vem de mercados internacionais, países até inusitados como Vietnã [risos] Tomamos cuidado para contentar os dois lados: a galera brasileira, explorando bastante a cultura, porém tentando universalizar [o jogo] colocando alguns elementos de forma mais “rasa”.
Um exemplo é o boitatá: para o gringo é uma cobra de fogo, para nós é algo mais profundo. Tentamos toda hora pensar dessa forma.

TGE: Vocês acreditam que Gaucho and the Grassland vai repetir o sucesso de outros títulos recentes do Epopeia, como o Mullet MadJack, que foi muito elogiado no mundo todo?
Sendin: No mesmo nível financeiro, não. Mullet teve três vezes mais wishlists que o Gaucho, ainda sim termos mais de 50 mil wishlists. Acho que é uma bela conquista, dá para a gente se orgulhar. Mas não entendemos como uma competição.
Gaucho veio para fazer o melhor que ele pode, dentro das nossas metas. Acreditamos que ele vai conseguir o sucesso que desejamos.
Uma coisa é certa: existe engajamento do mercado brasileiro com ele e isso já é maravilhoso para nós. Vamos aprendendo com erros e acertos em cada um desses jogos pra ir melhorando para os próximos.
Nosso sonho é um dia nos tornarmos uma empresa e uma publisher de referência na América Latina, e acho que esses dois jogos estão nos ajudando a avançar alguns passos. Seremos sempre gratos por essas experiências.
Então, em suma, acreditamos que ele irá bem no nicho que buscamos atingir.



