O velho questionamento “game é arte?” soa cada vez mais datado. O debate hoje não é se os videogames são arte, mas que tipo de arte eles são e que tipo de poder exercem. Com uma previsão de faturamento de US$ 188,8 bilhões em 2025, superando as indústrias do cinema e da música somadas, os games deixaram há tempos de ser meros passatempos. Eles são, hoje, forjas de imaginários, vetores de ideologias e identidades nacionais.
O conceito de Soft Power, cunhado por Joseph Nye, descreve a capacidade de um país influenciar outros não pela coerção (hard power), mas pela atração e persuasão cultural. Se o século XX foi dominado pelo cinema de Hollywood e pela música pop americana, o século XXI vê essa batalha ser travada dentro das telas interativas. Os jogos eletrônicos emergiram como o novo e poderoso vetor dessa influência.
Algumas nações já internalizaram essa lógica há décadas. O Japão construiu, por meio de ícones como Mario, Final Fantasy e Persona, uma estética globalmente reconhecida que associa o país à inovação e a uma sensibilidade artística única. A Coreia do Sul transformou o K-Pop e os eSports em um dos projetos de diplomacia cultural mais bem-sucedidos da atualidade.
Já a China adota uma estratégia diferente: com aquisições e investimentos massivos – como os da Tencent, dona da Riot Games (League of Legends) e acionista da Epic Games (Fortnite) –, ela financia e molda ecossistemas culturais globais. Muitas vezes, ao jogar um título supostamente “ocidental”, o jogador está, na verdade, imerso em um ecossistema de influência chinesa.
Essa disputa é simbólica tanto quanto econômica. Quando um torneio de eSports mobiliza milhões de espectadores, o que está em jogo não é só entretenimento, é influência, identidade e narrativa. Trata-se de soft power em sua forma mais contemporânea.
Brasil no tabuleiro global
Durante muito tempo, o Brasil tratou os games como entretenimento importado, não como ativo cultural. Esse cenário, no entanto, está em transformação. Sinais concretos apontam para uma mudança de mentalidade: a Petrobras patrocinando premiações de eSports; a Embratur lançando concursos de jogos para promover o turismo nacional; e governos estaduais investindo em polos de desenvolvimento.
No campo competitivo, o País já é uma potência consolidada, com uma das bases de jogadores mais apaixonadas e engajadas do mundo e times de renome internacional. No entanto, o alto custo para manter e elevar uma carreira profissional ainda é uma barreira significativa para novos talentos.
Superar este desafio depende da consolidação de um ecossistema robusto, que una investimentos privados sustentáveis, patrocínios estratégicos e políticas públicas que profissionalizem a cadeia dos esports. Há um novo entendimento em gestação: jogo também é política cultural.

Na teoria construtivista das Relações Internacionais, as identidades e os significados no sistema global não são dados fixos, mas construídos socialmente por meio da cultura. E, hoje, a cultura é também o que se joga. Se um país é visto e vivido nos games, ele existe de forma mais tangível no imaginário coletivo global.
The Witcher imerge o jogador no folclore eslavo da Polônia. Os jogos da Remedy carregam saberes e até o rock da Finlândia. Cada ambientação, cada sotaque digital, é uma forma de presença simbólica.
E é nesse terreno que o Brasil começa a fincar sua bandeira. Ainda não por meio de grandes IPs globais, mas através de uma base institucional e criativa que se fortalece. O Marco Legal dos Games foi sancionado em 2024 e aguarda as regulações pertinentes, e o Ministério da Cultura inseriu o setor entre as prioridades para a economia criativa. São movimentos que sinalizam a transição de um paradigma de consumo para um de produção e representação.
Exemplos e desafios
O Brasil já possui uma cena independente vibrante e premiada, com mais de mil estúdios registrados, cerca de 300 apenas no estado de São Paulo, o maior polo do País, seguido por Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Um exemplo emblemático de suporte institucional é o Plano Estadual de Desenvolvimento da Indústria de Games e Tecnologias Imersivas de São Paulo, anunciado em julho, que prevê investir R$ 8,2 milhões em editais para desenvolvedores independentes.
A semente de uma indústria criativa nacional já floresce em jogos que carregam a nossa identidade. Na última década, títulos como Dandara (Long Hat House) e ÁRIDA: Backland’s Awakening (Aoca Game Lab) pavimentaram o caminho. Inspirado na figura histórica de Dandara dos Palmares, o primeiro funde arte, resistência e mecânicas desafiadoras em um universo político e poético. O segundo, por sua vez, transformou o árido sertão nordestino em um cenário jogável, levando a cultura e as adversidades da região para o mundo.
Agora, temos o que aguardar: Sky Dust, da Orbit Studio, anunciado na Gamescom Latam de 2024. Este projeto ambienta o jogador em uma versão futurista de São Paulo, utilizando elementos da cultura paulistana não como pano de fundo vazio, mas como alicerce narrativo para uma imersão profunda na maior metrópole da América Latina.
Juntos, esses títulos, do passado recente ao futuro próximo, demonstram a consolidação de uma estética brasileira híbrida, que atravessa o realismo social e a criatividade tropical. Eles não comercializam apenas jogabilidade; vendem imaginários brasileiros. E é exatamente aí que reside o cerne do poder cultural: na capacidade autoral de contar suas próprias histórias.
O desafio que se coloca para o Brasil agora é transformar esse impulso cultural inicial em um projeto de Estado consistente, superando a natureza pontual do entusiasmo atual. A consolidação do País como produtor de conteúdo simbólico, e não apenas como consumidor, dependerá de um tripé: políticas públicas contínuas, formação de mão de obra técnica qualificada e fomento a parcerias internacionais.



