É o ano do breakeven para a Black Dragons, uma das mais antigas organizações de esportes eletrônicos do Brasil, liderada pela conhecida e reconhecida influenciadora, streamer e ex-pro-player Nicolle Merhy, a Cherrygumms. Para quem não está familiarizado com os jargões do mundo das startups, isso quer dizer que a empresa, desde 2022 parte do Grupo Dreamers, dos mesmos sócios do Rock in Rio, equilibrou faturamento e despesas e pode pensar em horizontes mais distantes.
“Estamos em uma operação lucrativa, o que nos faz conseguir pela primeira vez pensar a médio e longo prazo”, diz ao TGE, com exclusividade, a jovem executiva carioca. “Eu gosto da analogia de que ser empreendedor é como navegar: você quer ver um pôr do sol com golfinhos, mas para chegar lá tem que passar por muita tempestade, pelo Triângulo das Bermudas. E hoje talvez tenhamos superado a chuva.”
Nicolle se refere, claro, ao período difícil enfrentado por quem está no setor de esportes eletrônicos, especialmente quando se está nele há tanto tempo. Aquilo que se convencionou chamar de “inverno dos eSports”, quando a explosão de atenção do público obtida durante a pandemia de COVID-19 esfriou e, junto com ela, o interesse das marcas patrocinadoras não-endêmicas.
“Não é que o cenário esteja diminuindo, mas sim que só os fortes vão ficar”, diz Nicolle, citando a FURIA e LOUD como exemplos de organizações de sucesso, além da própria Black Dragons. “Vejo que agora vamos consolidar o mercado. Cravamos uma estaca em que vão se firmar os mais fortes. Não sabemos qual o futuro [dos eSports], mas é inegável que existirá”, diz.
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O caminho para a maioria das organizações foi buscar outros modelos de negócio, que tragam sustentabilidade financeira sem depender unicamente do binômio patrocínios-premiações.
É o caminho que a Black Dragons trilha atualmente, o que significa não só um “rebranding” com identidade visual renovada, mas também um reforço de equipe: novos profissionais de atendimento e criatividade foram contratados. O novo modelo de negócios, mais “agressivo”, compreende tanto a line-up, que continua concentrada em Rainbow Six Siege, da Ubisoft, com quem a BD tem uma parceria de longa e lucrativa data, mas também uma agência para o provimento de serviços de alto valor agregado
O alvo: as marcas interessadas no mundo dos games. Para Nicolle, deveriam ser todas elas.
“As marcas estão entendendo que não vai ter como fugir do mercado gamer”, assegura a CEO. “Mas tem que saber fazer direito. Não é [entregar] qualquer coisa. Esse foi o grande erro do mercado. Muitos players prometeram mundos e fundos [aos patrocinadores], fizeram trabalhos ruins e assustaram as marcas. Mas elas estão voltando porque entendem que não tem como fugir do digital.”
Os próximos passos da organização incluem buscar um investimento internacional de grande porte, replicando o caminho seguido por outras “orgs” nacionais e internacionais. “Eu quero o maior grupo de eSports do mundo [como investidor]. Eu sei que vou chegar lá, mas demora. Leva tempo, trabalho, energia, saúde”, diz.
Confira a seguir os melhores momentos da conversa do TGE com Nicolle Merhy.
The Gaming Era: A Black Dragons está prestes a completar 10 anos. O que te passa pela cabeça quando olha para o passado?
Nicolle Merhy: A BD foi funda como clã em 1997. Como clã, tem a minha idade, 28 anos. Mas como empresa foi fundada em 2016, e o CNPJ foi uma MEI [microempresa individual] no meu CPF. Só para emitir notas fiscais para receber as premiações da Ubisoft.
Eu estava na faculdade de Direito, e jogando. Ganhei fama, “a menina que joga”. Eu tinha 19 anos na época. Cada uniforme custava em torno de R$ 45. A gente gastava mais de R$ 300 só com uniformes, e eu com 19 anos não tinha esse dinheiro. Mas aos poucos foi crescendo.
De fato estou há muito tempo [no cenário]. Tivemos um momento de um boom muito grande dos eSports, primeiro em 2014 até 2016, e dali para 2019 até 2021, muito tracionado pela pandemia. E agora há uma retração, eu diria. Mas não é que o cenário esteja diminuindo, mas sim que só os fortes vão ficar.
Vimos muitos times falindo, times reconhecidos inclusive, e agora estamos em um momento em que os fortes vão conseguir continuar. Vamos consolidar o mercado. A FURIA está enorme, muito firme e forte. A própria BD passou por transformações. Estamos vivendo um momento de consolidação.
Cravamos uma estaca em que vão se firmar os mais fortes. Ela é a fundação para o futuro dos eSports. Não sabemos qual futuro, mas é inegável que existirá.
E a BD está nesse momento de consolidação após quase uma década de trabalho, com erros e acertos, derrotas e glórias. Mas também muito amor e força de vontade.
TGE: E qual é a diferença entre uma organização forte e uma fraca? Por que certas organizações sobreviveram e outras não?
Nicolle: Eu acho que a palavra é estruturação. Vários times nasceram e entrou muita verba de 2016 até 2021. Muito investimento, muitas marcas. Muita gente nova ganhou audiência, mas também responsabilidade. A BD foi uma dessas.
Em 2021 vendemos a vaga [na Liga Brasileira de Free Fire] por R$ 800 mil para a TSM FTX. Mas não tínhamos a estrutura de negócios. Os times não tinham, por isso muitos faliram e fecharam. Antes de entrar [nos eSports] eu estava na faculdade de Direito e nem pensava em estrear nos games. Eu jogo desde pequenininha, entrei por hobby e amor, e por acaso virou profissão.
Eu não tinha a estrutura, a cabeça de negócios. E a BD começou a ficar grande. Eu não sabia administrar uma empresa, então queria alguém [como parceiro] que iria aportar conhecimento, gestão. E esse foi o erro dos grandes times. E falo por mim também. Nos últimos três anos tivemos perdas, demissões e trocas. Mas agora estamos em um patamar muito diferente.
Os times atuais precisam cada vez mais se entender como negócio. E negócio no fim das contas precisa ser lucrativo e sustentável. E são muitos gastos em novos talentos, equipes etc. E não temos mais o mesmo investimento das publishers e das marcas. Para aqueles que não se estruturaram a tempo, a conta chegou.
TGE: E o que isso significa no longo prazo para a Black Dragons?
Nicolle: Buscar uma rodada de investimento internacional. A primeira foi com o Grupo Dreamers, e a segunda eu quero que seja internacional. A FURIA já teve mais de seis [rodadas], a Team Liquid mais de nove. A BD terá a segunda.
Eu quero o maior grupo de eSports do mundo [como investidor]. Eu sei que vou chegar lá, mas demora. Leva tempo, trabalho, energia, saúde.
Muitos times deram a largada na frente porque tem conexões. A FURIA, por exemplo, a LOUD também. Os principais times nacionais tiveram grandes rodadas. Eu almejo isso também.
Embora o patrocínio seja uma das principais receitas, temos que ter vários dedinhos. Seja venda de itens no metaverso, mapas, publicidade, campeonatos, influência, investimento, administração.
Os times grandes estão mais bem estruturados por conta das rodadas de investimentos. E os que querem continuar tem que entrar nessa caminhada.
TGE: No pilar “agência”, como a Black Dragons atua? Vocês já tinham uma operação de agência antes, certo?
Nicolle: Em 2022 o Grupo Dreamers tinha essa visão sobre as agências gamers nascendo. A Druid [Creative Gaming] já tinha nascido [em 2021]. E o investimento feito na BD foi para dois lados: a Game Code, uma agência dedicada às marcas entrantes no mercado de games, que durou até metade de 2024. Mas eu não conseguia liderar duas empresas, então internalizamos a operação.
O ano de 2025 foi muito tracionado por essa decisão. A BD tinha todo poder e conhecimento para ser o que a Game Code queria ser: uma agência full service. Fizemos esse movimento tracionados pela parceria com a Ubisoft, vendemos itens dentro do jogo [Rainbow Six], tivemos a melhor performamos na história do R6 Share, com € 1 milhão em vendas no último ano.

Nos últimos dois anos eu fiz uma metamorfose ambulante como empreendedora. Aprendi a ser uma melhor gestora e líder. E fizemos esse reposicionamento [de marca], que não veio do nada, mas de muitos erros e acertos. A BD tem estrutura e know how para ser esse hub de serviços do mundo gamer.
Fazemos desde a comunicação dedicada de uma marca, até narrativa e estratégia de comunicação, tudo isso gerido pela BD. E são essas linhas de negócio: influenciadores, itens, comunicação de marca, patrocínio, campeonatos etc.
E meu trabalho tem sido muito esse, didático. As marcas estão entendendo que não vai ter como fugir do mercado gamer.
Muitos players no passado prometeram mundos e fundos, mas fizeram trabalhos ruins e assustaram as marcas. Mas elas estão voltando porque entendem que não tem como fugir do digital. As futuras gerações estarão cada vez mais imersas no digital.
TGE: E no pilar eSports? Em quantas modalidades vocês estão agora e há planos de ampliação para além do ecossistema de Rainbow Six?
Nicolle: No passado estivemos em mais de 25 modalidades. Coisa pra caramba. Passamos por quase todas. A única que nunca passamos foi League of Legends.
E gastamos muito dinheiro com isso, assim como enaltecemos os talentos de mulheres. Somos o time que mais teve modalidades femininas na história dos eSports no Brasil.
Mas isso é muito custoso se não volta em linha de receita. Que é patrocínio, venda de itens, influenciadores. As equipes gastam muito mais do que trazem de receita, mas trazem a comunidade. A audiência.
O que faz um time estar em várias modalidades? Não é só a competição e ganhar prêmios, mas ser reconhecido pela comunidade como empresa de fomento do cenário. O intuito é ser visto por várias comunidades.
E nesses últimos três anos, em que todo ecossistema teve essas oscilações e modificações, optamos por estar só no R6. No entendimento de estruturar o que temos. É muito fácil abraçar várias equipes e quebrar. E foi o que aconteceu com vários.
A comunidade quer saber por que se desligou um time, e no fim das contas vira um tiro no pé. A BD teve que desligar equipes em momentos muito bons de mercado. É muito custoso desligar uma equipe com a comunidade em cima. Por isso pesamos muito mais antes de entrar [em uma modalidade nova].
Minha ambição sim é voltar a ter mais modalidades, está previsto no nosso plano de negócios futuro. Mas eu não vou dizer quais. Novos jogos estão surgindo. E muitos times estão entrando em novas modalidades pela Copa do Mundo [Esports World Cup]. Muitas publishers estão dependendo da EWC para ter investimentos, e isso está transformando o cenário.
Eu ainda não tenho entendimento fechado sobre isso, mas tenho certeza que sim, queremos estar em novas modalidades, mas de forma estruturada e inteligente. Se for para entrar, vou para fazer barulho. Tenho que ter certeza que é um bom negócio.
Vou criar a sede pra BD em outros países, mas isso vai ser em um médio prazo. Eu sou ex-atleta, a competição corre no meu sangue. A vontade de ter jogadores brilhando corre na minha alma, mas preciso saber quando vai chegar o momento.
TGE: Hoje que percentual do faturamento da Black Dragons vem dos eSports e qual vem das outras atividades?
Nicolle: Eu diria que está em 50/50. Mas a nossa vontade é que não seja limitado a R6, mas que tenhamos uma propriedade maior de marcas. Queremos pegar novas contas e ser uma agência de publicidade mesmo. Mas as marcas, para mim como criadora, sempre foram o nosso principal negócio.
TGE: Para encerrar, Nicolle, que resultados você espera colher em 2025, nesse novo momento da Black Dragons, e quais suas projeções para 2026?
Nicolle: Esse ano vamos ter um resultado bem melhor que do ano passado. Uma operação lucrativa, ‘breakevada’. Esse ano chegamos no breakeven. Estamos em um ano bom, de lucro expressivo, o que nos faz conseguir pela primeira vez pensar no médio e no longo prazo.
Eu gosto da analogia de que ser empreendedor é como navegar: você quer ver um pôr do sol com golfinhos, mas para chegar lá tem que passar por muita tempestade, pelo Triângulo das Bermudas. E hoje talvez tenhamos superado a chuva. Mas a qualquer momento pode vir mais tempestade.



