Em um ano e meio, como para qualquer empresa, a vida de um estúdio de videogame pode virar de ponta cabeça – seja por motivo positivo ou negativo. Em 31 janeiro de 2024, após o lançamento do primeiro trailer de Silent Hill 2 Remake, o time da Bloober Team sentiu com força a porrada dos fãs e da crítica especializada: ninguém gostou muito do que viu naqueles primeiros minutos apresentados.
O estúdio polonês, entretanto, não se deixou abalar. Continuou trabalhando em seu projeto mais ambicioso em parceria com a Konami e, sim, entregou um dos jogos mais impactantes e bem avaliados da atual geração de videogames.
Depois dessa montanha russa de emoções no ano passado, 2025 promete ser o ano da Bloober Team. Há poucos dias o estúdio anunciou a produção de Silent Hill 1 Remake em nova parceria com a publisher japonesa e – mais do que isso – esperam lançar seu game autoral mais ambicioso ainda este ano, Cronos: The New Dawn.
O estúdio tem em torno de 250 funcionários e é conhecido por jogos de terror psicológico como Layers of Fear, Observer e The Medium, e alcançou outro patamar após o sucesso com a Konami. Eles sabem que as expectativas do mercado global em relação aos seus projetos também são inéditas.
Aqui no The Gaming Era, gosto de trazer histórias que ainda ninguém contou. E por isso, na minha coluna deste mês, trago uma conversa exclusiva com Jacek Zięba, game director da Bloober Team. Para ele, bons parceiros podem ser “metade do caminho para o sucesso (…) não apenas as que parecem mais lucrativas no momento.”
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Zięba tem 10 anos de experiência na indústria e está à frente de Cronos: The New Dawn. Trabalhou nas principais franquias da Bloober e está no time desde 2014. O diretor tem passagem por cargos estratégicos — incluindo Lead Producer e Game Producer – e comçou a carreira como QA Tester.
Confira abaixo meu bate-papo completo com ele!
O remake de Silent Hill 2 foi um enorme sucesso, alcançando mais de dois milhões de cópias vendidas. Como esse resultado impactou o posicionamento e os planos de crescimento do estúdio nos últimos meses? Você acredita que atingiram um novo patamar dentro da indústria?
Jacek Zięba: Definitivamente, isso foi um marco para o nosso estúdio. A equipe se dedicou muito, e somos gratos pelo que conseguimos realizar juntos. Como Bloober, aprendemos muito com essa experiência –não só em termos de aprimorar nossas habilidades, mas também em ganhar reconhecimento.
Cada um dos nossos títulos nos ensinou algo, mas é justo dizer que Silent Hill 2, junto com os projetos anteriores, teve um papel importante em nos ajudar a dar um passo adiante e alcançar um público mais amplo dentro do gênero de horror.
‘Cronos: The New Dawn’ é um dos projetos mais aguardados de 2025. Como um estúdio conhecido por jogos de terror, vocês acreditam que este jogo marca uma transição do horror psicológico para um horror mais voltado à ação, visando um público mais amplo? A ideia com esse novo jogo é alcançar mais jogadores ou permanecer como um estúdio de nicho?
Zięba: Por que não ambos — um estúdio de nicho que pode alcançar mais jogadores? Para ser justo, com cada jogo queremos evoluir, mas sem perder nossas raízes. Então sim, Cronos é mais voltado para ação, mas a base do horror psicológico ainda está lá.
Cronos, como nossa evolução, combina horror psicológico, horror filosófico e horror de ficção científica em um só — e, ao mesmo tempo, é mais orientado para ação do que qualquer um dos nossos títulos anteriores.
Se você gosta de desafio e ação — este jogo é para você. Se você gosta de histórias interessantes e misteriosas — este jogo é para você. Se você gosta de terror — este jogo é para você.
O Bloober sempre foi reconhecido por sua capacidade de criar atmosferas densas e narrativas maduras em jogos de terror, como Layers of Fear, Observer e The Medium. Como vocês mantêm essa consistência criativa e quais são os maiores desafios para inovar dentro desse nicho?
Zięba: O maior desafio é não se repetir continuamente ao contar uma nova história. É algo realmente difícil de fazer e de perceber, mas ao mesmo tempo traz muita motivação para explorar novos caminhos e encontrar novas ideias.
Então, ao mesmo tempo em que queremos olhar para frente, não podemos esquecer o que ficou para trás.
Após o sucesso de Silent Hill 2, houve mudanças significativas na estrutura da equipe (contratações), investimentos em novas tecnologias ou parcerias estratégicas para apoiar projetos mais ambiciosos como Cronos?
Zięba: Crescemos significativamente, tanto em termos de estrutura de equipe quanto em nossas ambições. Para Silent Hill 2 e para Cronos, trouxemos especialistas de alto nível, especialmente em áreas como design de combate, onde queríamos elevar o padrão.
Hoje, temos duas equipes incríveis que colaboram de perto, apoiando-se mutuamente na criação de novos jogos e experiências empolgantes.
Em 2023, a Bloober Team anunciou que deixaria de focar exclusivamente em horror psicológico para buscar jogos de terror com apelo mais amplo. Quais lições de projetos anteriores foram fundamentais para essa transição?
Zięba: Acredito que não nos afastamos do horror psicológico – ele continua sendo parte fundamental da nossa identidade. O que está evoluindo é a nossa abordagem. Agora estamos mais focados em encontrar o equilíbrio certo entre narrativa e jogabilidade, especialmente integrando mais elementos de ação quando eles servem à história.
No caso de Cronos, há uma ênfase maior na ação (afinal, é um jogo de survival horror), mas isso não significa que estamos abrindo mão da narrativa. O jogo ainda oferece uma história profunda, cheia de camadas, com a tensão e atmosfera que nossos jogadores esperam.
Quanto às lições aprendidas, cada projeto foi um passo à frente. Com cada título, nos desafiamos com novos objetivos, crescemos como equipe e buscamos entregar experiências que não só ressoem com fãs de terror, mas que também sejam genuinamente divertidas de jogar.
O mercado de jogos de terror é altamente competitivo, com franquias estabelecidas e grandes expectativas dos fãs. Como a Bloober Team trabalha para se diferenciar e manter relevância global, e quão importantes são as parcerias com gigantes como a Konami?
Zięba: Uma boa parceria pode ser metade do caminho para o sucesso. Por isso, é sempre importante buscar novas conexões e oportunidades — sem esquecer os parceiros com quem já trabalhamos antes e explorando como podemos colaborar novamente. Cada parceria é única e traz algo novo para a mesa. Buscamos escolher aquelas que melhor se alinham com a nossa empresa e nossa abordagem criativa — não apenas as que parecem mais lucrativas no momento.
Quanto a como a Bloober se destaca — honestamente, não acho que o mercado de terror esteja saturado como alguns pensam. Ainda há muito espaço para diferentes empresas e ideias novas.
Isso significa que você pode permanecer fiel a si mesmo e às histórias que quer contar — e ainda assim ter sucesso. Então, ao invés de focar em como somos diferentes dos outros, focamos no jogo que realmente queremos fazer a seguir.
O estúdio tem talentos de várias partes do mundo e, acredito, cresceu muito nos últimos anos. Como vocês gerenciam a cultura organizacional e o fluxo criativo em projetos de grande escala, mantendo a identidade única do estúdio?
Zięba: Focamos no equilíbrio. Como não crescer demais ou deixar nossos projetos se tornarem grandes demais (o que não é fácil de evitar). É um princípio central para nós: como podemos realizar nossos projetos dos sonhos sem perder nossa essência?
A chave é o equilíbrio — e, junto com ele, o espírito. Nos esforçamos não só para criar ótimos jogos, mas também para construir equipes fortes que possam trabalhar juntas por muitos anos.

Com o aumento do escopo dos projetos e a assinatura de novos acordos de distribuição, quais são as principais prioridades de negócios da Bloober Team para os próximos anos?
Zięba: Nosso principal foco para os próximos anos é continuar expandindo, sem perder aquilo que nos torna quem somos. No fim do dia, somos uma equipe de desenvolvimento dedicada a fazer ótimos jogos e criar experiências divertidas para fãs de terror, e para nós mesmos.



