O japonês Shuhei Yoshida ganhou status de lenda graças ao longo período em que trabalhou para a Sony — especialmente entre 2008 e 2019, quando exerceu o cargo de presidente da divisão SIE Worldwide Studios (depois rebatizada PlayStation Studios). Nos anos seguintes, liderou a iniciativa PlayStation Indies, focada no fomento a estúdios e produções de pequeno porte, até sua aposentadoria, no início de 2025.
Atualmente, aproveita a fama adquirida para fazer o que mais gosta: conhecer produções independentes e levantar a bandeira da cena indie mundo afora. Foi essa uma das missões que o trouxe a São Paulo em maio último, como uma das principais atrações da Gamescom Latam (a outra foi ser agraciado pelo evento com o prêmio “Lifetime Achievement Award”).
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Conhecido pelo bom humor e sinceridade de suas declarações em redes sociais, o executivo de 61 anos mergulhou fundo na experiência brasileira: visitou botecos e provou iguarias locais (caipirinha também, obviamente), além de tirar fotos com fãs anônimos e velhos amigos.
Ao The Gaming Era, Yoshida deu opiniões sobre temas diversos, como preços dos jogos e o futuro dos títulos blockbusters AAA, além de eleger alguns dos games indies mais interessantes que jogou esse ano.
Acompanhe a seguir os melhores momentos da conversa:
The Gaming Era: Como você deve saber, o consumidor brasileiro enfrenta questões bem específicas quando se trata de videogames. É cada vez mais difícil para as pessoas comprarem novos consoles e jogos, já que tudo é influenciado pelo câmbio e pelas altas taxas de importação…
Shuhei Yoshida: Sim, sim. E eles deveriam mudar isso. Porque não estão protegendo a indústria local [com os impostos], certo? Eles estão apenas dificultando para as pessoas daqui aproveitarem essa forma de entretenimento.
TGE: Sim, nós também não entendemos por que continua dessa forma. Mas tem outra questão, que é um dos assuntos mais quentes da indústria: os preços dos jogos, não só aqui, mas no mundo todo. A barreira dos US$ 80 foi quebrada com Mario Kart World do Switch 2. E GTA 6 foi adiado para 2026, então parece claro que a barreira dos US$ 100 também será superada. Como um veterano que já viu situações parecidas, acha que é o pior momento que já enfrentamos nesse sentido?
Shuhei Yoshida: Ah, eu não acho que seja assim. Comparado a outros produtos, os preços dos jogos se mantiveram os mesmos por tempo demais, na minha opinião.
E considerando a inflação dos últimos anos, US$ 70 hoje é muito mais barato do que US$ 70 há cinco anos.
Então, na minha visão, o preço já deveria ter sido ajustado antes, para que a indústria pudesse continuar sustentável. Mas eu não acredito que todo produto tenha de ter o mesmo preço, porque, veja, estamos falando de produtos digitais.
Cada jogo tem um tamanho, uma escala, e um valor diferente para o consumidor. Por isso, acho saudável que as publishers definam preços com base na percepção de valor de cada título. E o consumidor não deveria esperar que todo jogo custe US$ 70 ou qualquer outro valor fixo.
TGE: Então, por que você acha que as pessoas estão reclamando tanto hoje em dia? Seria por causa da facilidade de repercutir nas redes sociais?
Shuhei Yoshida: Ah, você sabe, o consumidor quer tudo de graça, né? [risos] Então, eles têm razão em reclamar e, por isso, se não gostarem, não deveriam comprar o produto. Mas, se o produto realmente oferecer valor suficiente, as pessoas vão ficar felizes em gastar. Então, cabe a cada um escolher cuidadosamente no que investir seu dinheiro.

TGE: Aparentemente, o problema dos preços altos afeta especialmente a produção dos jogos AAA. Isso, teoricamente, poderia abrir espaço para um mercado de jogos mais baratos, os indies. Como vê essa oportunidade para os desenvolvedores? Como eles poderiam convencer o público de que games independentes podem ser tão bons quanto os AAA?
Shuhei Yoshida: Bom, o valor de um jogo não é definido só por seu custo de produção. Muitos games criados por desenvolvedores solo, como Balastro ou Blue Prince, oferecem uma incrível quantidade de entretenimento. Esses títulos estão disponíveis a preços mais acessíveis e são um excelente custo-benefício para os jogadores.
A diferença entre jogos grandes e pequenos sempre vai existir, porque são muitos jogos sendo produzidos atualmente, o que torna um desafio para o consumidor encontrar o produto “certo”.
Eu acho muito saudável que bons jogos como esses que mencionei sejam divulgados pela mídia ou por influenciadores, para que mais e mais pessoas possam descobrir games de alta qualidade dentre toda essa quantidade enorme de títulos sendo lançados.
E os preços mais altos podem até ajudar as pessoas a buscarem alternativas. Se isso fizer com que mais gente perceba que existem muitos jogos ótimos na cena indie — para quem ainda não buscou algo nessa área —, isso acaba sendo ótimo para a indústria como um todo.
TGE: E o mercado de consoles? Tem quem diga que esse formato ficará ainda mais caro e insustentável no futuro. Outros dizem que tudo dependerá do que as gerações Z e Alfa vão preferir — será que o mobile vai imperar? Dá para prever o que vai acontecer?
Shuhei Yoshida: Bom, consoles… Na minha opinião, sempre vai existir a necessidade de se jogar na sala, em uma TV grande, e o console é a melhor opção para essa situação.
Enquanto as pessoas continuarem comprando TVs grandes para suas salas de estar, sempre haverá espaço para os consoles.
E, claro, os jogos mobile estão cada vez melhores, mas por causa da forma de controlar, a experiência de jogo é diferente de se utilizar um joystick em um console. As pessoas podem aprender a usar a touch screen para jogar games de ação no celular, mas não é a mesma qualidade de experiência que se tem jogando em um console.
Então, os jogos que mais se encaixam ao celular vão continuar sendo aqueles pensados para essa plataforma. E os jogos criados para consoles serão aqueles que as pessoas vão preferir jogar em consoles. Por isso, creio que os dois mercados continuarão existindo por muito, muito tempo.

TGE: Minha última pergunta é sobre o Brasil. Essa não é sua primeira visita ao País, então sabe que a cena indie está mudando. Agora que você está aqui, viu muitos games e conversou com várias pessoas. Acha que estamos evoluindo como o esperado? Comparado ao cenário mundial, existe um “jeitinho brasileiro” em nossos jogos?
Shuhei Yoshida: Sim, eu estive aqui há três anos para o BIG Festival, e vi muitos jogos bons, Mas, comparado ao que vi esta semana, há muito mais jogos de alta qualidade sendo produzidos no Brasil e na América Latina.
Então, definitivamente, a indústria aqui está evoluindo e progredindo tanto na quantidade de jogos produzidos quanto na qualidade. Mas, do ponto de vista global, a maior atenção agora é dada aos jogos vindos da Ásia, especialmente da China e da Coreia – a qualidade é incrível.
Eu espero que a comunidade internacional de publishers preste atenção aos jogos vindos desta região [América Latina], porque a qualidade existe e alguns jogos, como você disse, se inspiram na cultura local, seja na mitologia, na música, na comida ou até mesmo na história.
Um dos jogos que vi esta semana conta a saga de pessoas levadas da África para a América Latina e suas lutas para se libertarem da escravidão. Esta é uma trama muito interessante para um RPG! Games assim só são possíveis de serem criados com autenticidade aqui nesta região.



