O controle já não está mais nas mãos de um único jogador. Se tem uma coisa que aprendemos nos livros de história é que os grandes pólos de poder se deslocam. As civilizações são organismos vivos em constante reorganização.
Na história dos games ou na geopolítica não é diferente!
Por décadas, a hegemonia cultural da tríplice coroa dos games: EUA, Japão e Europa, reinaram sozinhas. Nomes como Nintendo, Sony, Activision Blizzard, Rockstar e Ubisoft consolidaram não só mercados, mas dominaram a mente e o coração de gerações.
Enquanto virávamos a noite jogando Super Mario 64 ou Street Fighter II na década de 1990, se consolidava o soft power ocidental engendrado pelas grandes publishers. Estávamos imersos, mas todo jogo muda!
Essa virada começou a ficar clara na segunda metade da década de 2010 quando a Tencent, uma gigante chinesa, se tornou a maior empresa de games do mundo ao atingir um valor de mercado superior a US$ 500 bilhões.
Demos um passo além da fronteira.
Estima-se que o tamanho do mercado de jogos da Índia atinja aproximadamente US$ 7 bilhões até 2029. O governo indiano, de olho nesse montante, criou uma força tarefa ministerial para regulamentar e impulsionar o setor de jogos online do País.
O Brasil, além de se consolidar como maior mercado de games da América Latina e um dos maiores do mundo com mais de 115 milhões de players, aprovou seu Marco Legal dos Games e mostra diversas iniciativas de fortalecimento do mercado indie e de grandes festivais.
Os BRICS, que agora são 11 países membros, emergem não apenas como grandes mercados consumidores, mas como protagonistas culturais, criadores de tendências, plataformas e comunidades. É só olhar para o sul global com carinho!
A China com o Genshin Impact, além de dominar o mercado global, impôs tendências estéticas e modelos de monetização próprios. Black Myth: Wukong foi um sucesso com mais de 20 milhões de cópias vendidas só no primeiro mês, com receita de aproximadamente US$ 1 bilhão.
O Brasil com Horizon Chase, Dandara e Enigma do Medo (aquele do Cellbit) são exemplos de jogos autorais que viajam o mundo revelando o potencial do nosso olhar criativo.
Sem falar da Rússia com seu case queridinho de FPS hardcore Escape from Tarkov, ou Broforce da África do Sul, que provou que indie com sátira política pode furar bolhas e viajar continentes.
Fora os outros países do bloco que possuem mercados em ascensão, com juventude moderna e conectada, com consumo digital crescente e um potencial criativo imenso a ser explorado, do Egito ao Irã, da Indonésia à Etiópia.
Não estamos falando apenas de dados de mercado, mas da chance real de redefinir a cultura gamer e criar modelos mais diversos e inclusivos. Tá todo mundo querendo jogar!
Infraestrutura precária, financiamento restrito, políticas públicas incipientes são comuns em países emergentes. É justamente na dificuldade que se cria possibilidade de novos modelos, de fortalecimento de comunidades e desenvolvimento de ideias.
Mais do que nunca, é hora de fomentar parcerias estratégicas entre os países do BRICS. Trabalhar em formas criativas de se fazer negócios. Existem bons exemplos a serem seguidos: o governo da Indonésia fechou acordos com a Riot Games a fim de se fortalecer como um hub regional do setor.
O grupo de investimento Savvy Games Group, criado por um fundo soberano da Arábia Saudita, investiu mais de US$ 35 bilhões em estúdios e publishers globais com objetivo de se tornar referência global em games até 2030. Diga-se de passagem, a Copa do Mundo de eSports (EWC) é um projeto saudita!
Não podemos esquecer também, do projeto Garena, que conectou Brasil e Sudeste Asiático por meio do Free Fire, além dos acordos de facilitação cruzada entre China e Rússia visando estimular quotas e apoio institucional à produção de jogos locais.
Essas pontes mostram que o caminho possível é multiplayer, mas para entrar nesse squad é preciso saber fazer a jogabilidade multipolar, não tem como jogar sozinho!
O BRICS vem farmando!



