O Indie Games Fund, programa do Google que acelera e apoia criadores de jogos latino-americanos que queiram levar seus games para os dispositivos móveis, chega a quarta edição mais maduro, assim com o mercado local. Muito embora o programa tenha o nobre objetivo de ajudar o ecossistema regional a crescer, também considera fortemente o potencial de crescimento dos estúdios e dos projetos apresentados para seleção.
Na prática, não se trata apenas de boas intenções, mas de negócios.
“Queremos ver jogos que vão propor coisas diferentes e com potencial comercial”, explica Daniel Trócoli, líder de desenvolvimento de negócios e parcerias em games para o Google Play na América Latina, em entrevista exclusiva ao The Gaming Era. “E olhamos para isso na seleção [dos estúdios]: para a qualidade do jogo em si e para o potencial comercial. Tanto para o Google Play como para a sustentabilidade do estúdio. Queremos um cenário em que todos ganhem.”
As inscrições para o Indie Games Fund – ou IGF, como escreveremos no resto dessa matéria para simplificar – terminam nessa quinta-feira (31), às 12h, nesse link, e estão abertas desde 1º de julho. Serão distribuídos, como nos anos anteriores, até US$ 2 milhões para 10 estúdios da região, ou seja, entre US$ 150 mil e US$ 200 mil para cada projeto. Podem participar estúdios da América Latina (menos Cuba) que tenham menos de 50 colaboradores e um jogo já publicado, seja no Google Play ou em outra plataforma.
Segundo Trócoli, a ideia é tanto trazer os desenvolvedores latinos para um mercado potencial gigantesco – o Android tem mais de três bilhões de usuários no mundo, segundo o Google –, como oferecer a oportunidade de obter receita recorrente ao incluir esses jogos no serviço de assinatura Play Pass. Além de, claro, aumentar o catálogo disponível para os assinantes e imprimir nele um “tempero local”.
Confira a seguir os melhores momentos da entrevista com Daniel Trócoli:
The Gaming Era: Chegamos em 2025 a quarta edição do Indie Games Fund. Essa continuidade indica que o programa é um sucesso? Que resultados você elenca para o Google e a loja Google Play?
Daniel Trócoli: Esse programa tem acontecido de forma anual. Queremos estimular e incentivar o ecossistema de desenvolvedores [de games] na América Latina. Essa consistência, e o fato de termos conseguido quatro edições reforça o comprometimento com a região, que tem uma afinidade muito grande com os jogos eletrônicos, em diferentes ambientes.
A gente vê que existe muito espaço para que o desenvolvedor da região consiga mais acesso aos consumidores. Do nosso lado, o que gostaríamos de ver são desenvolvedores mais bem sucedidos no Google Play. Também demonstrar que é viável ter sucesso no Google Play, e no Play Pass.
Uma das coisas que percebemos em todas as edições é que nossa indústria está em um processo de maturação há alguns anos. Eu fico muito feliz quando vou em um evento como a Gamescom Latam e vejo a mudança de mentalidade do desenvolvedor local, que era no começo 100% paixão. Mas aos poucos vai se profissionalizando.
Antigamente eu me sentava para falar com esses desenvolvedores e eles tinham pouca visão de negócio. Hoje chegam mais preparados, trazem apresentações, protótipos. Eu via muitos jogos com escopos gigantescos no passado e equipes reduzidas, então você via que era muito difícil aquilo virar realidade. Agora vejo projetos que vão chegar ao final, vão ser lançados.
TGE: Mas essa maturidade se converte em benefícios de negócio diretos para o Google? Para a empresa, vale a pena investir no IGF?
Trócoli: É um benefício para o Google Play na medida em que eles [os usuários] passam a ter benefícios. Também no catálogo do Play Pass, porque através do programa eu incentivo a indústria local e trago conteúdo para o assinante. E também trazemos um “sabor local”.
Vai ter o benefício comercial tanto para a Google Play como para o desenvolvedor [dos jogos]. Olhamos para isso na seleção [dos estúdios participantes do IGF]: para a qualidade do jogo em si e para o potencial comercial. Tanto para o Google Play como para a sustentabilidade do estúdio. Queremos um cenário em que todos ganhem.
Estamos falando de um ecossistema e esses atores precisam estar em equilíbrio. Sem sucesso comercial não tem próxima edição.
TGE: Já que você mencionou o processo de seleção, existe uma diversidade nos estúdios selecionados no passado. O IGF já apoiou estúdios mais maduros, e outros menos. Existe alguma faixa de maturidade privilegiada ou não necessariamente?
Trócoli: O grande objetivo quando fazemos esse projeto é identificar estúdios que possam ser bem-sucedidos. Isso vem de uma visão de que o estúdio de games está mais próximo de uma strtup do que de um estúdio de cinema. E sendo uma startup, estendemos que eles não vão acertar de primeira, vão falhar. E o desenvolvimento não se resume só ao produto em si, que é o foco de um edital.
Queremos investir no estúdio. Mas a única forma de avaliar é através do produto. Por isso pedimos um produto já lançado. Tentamos inferir o grau de maturidade. Mas fundamentalmente olhamos para os estúdios.
O tamanho do estúdio importa? Nas primeiras edições trabalhamos com estúdios muito pequenos, e fomos tendo aprendizados a cada edição. Os pequenos são valiosos, mas também precisam de mais tempo de maturação etc. Por isso temos buscado estúdios que às vezes já estão em um momento mais avançado, respeitando os critérios globais do Google, de que o estúdio independente tem que ter menos de 50 desenvolvedores.
Parece alto para o Brasil, mas é uma régua global.
TGE: Por que existe um critério global? Existem outros programas como o IGF em outras partes do planeta?
Trócoli: Temos o Indie Games Accelerator. Por isso o critério global. Ele é uma aceleradora de conhecimento, um programa em que os “devs” recebem mentorias, fazem muito networking entre si, e foi presencial. Depois da pandemia ficou online.
Ainda não temos previsão de edição esse ano, mas se houver vocês serão informados. O Accelerator se foca em mercados emergentes. Para os mais estabelecidos temos o Indie Games Festival. Um prêmio em que escolhíamos os melhores jogos em determinadas categorias.
TGE: Se minha matemática não estiver errada, até aqui metade dos escolhidos do IGF foram brasileiros. Isso significa que somos o mercado mais maduro na região em termos de desenvolvimento de games mobile?
Trócoli: Mais da metade, na verdade. Foram 17 brasileiros e 13 da “América Latina espanhola” até aqui. Nos focamos muito na qualidade. Então quando recebemos as inscrições tentamos dar uma diversificada, entender onde temos um “pool” de talentos, e na maioria das edições tentamos ter pelo menos metade/metade. Cinco em espanhol e cinco do Brasil. Por uma questão de tamanho do Brasil, mas não é uma regra.
TGE: O sucesso do Indie Games Fund em alguma medida também revela um bom momento do serviço de assinaturas Play Pass na América Latina e no Brasil? Qual o número de assinantes por aqui?
Trócoli: Eu não sou o [executivo] responsável [pelo Play Pass no Brasil], mas a longevidade é um bom sinal. É um programa que existe há bastante tempo [foi lançado no Brasil em dezembro de 2020]. Ele é um programa com aplicativos e jogos. Isso às vezes não fica tão claro. E nesse sentido ele tem uma proposta de valor muito atrativa.
Ele tem um benefício bem razoável para o desenvolvedor, que passa a ter acesso a usuários no mundo todo. Eles passam a ter receita recorrente, o que é interessante.
Estamos em um momento de um mundo multitelas. Existem diferentes formas de entrada para mesma experiência. O Genshin Impact, por exemplo, vai muito bem no Google em várias plataformas. É um jogo que entende essa natureza: transicionar entre diferentes telas.
Do ponto de vista de consumidor, temos o Play Games on PC, que é uma nova janela aberta. Víamos muito esse movimento dos desenvolvedores indo do console ou PC para o mundo móvel, e muitos do mundo móvel queriam fazer o caminho contrário. Então foi criado um conjunto de tecnologias que tem sido bem interessante para os desenvolvedores.
Mas sim, é um produto bem-sucedido. Não podemos abrir números, mas a longevidade e atualizações de produto são interessantes. Há dois anos ele tem benefícios em jogos free to play, além de algumas ofertas que o assinante pode acessar mensalmente. Vamos modificando o produto para atender a demanda.
TGE: Para encerrar, quais suas expectativas para a edição de 2025 do Indie Games Fund?
Trócoli: Eu estou com a expectativa muito alta. Temos visto jogos cada vez mais complexos, no bom sentido. Bem polidos, game design interessante, não tão derivativos. Não queremos mais um jogo de sudoku. Alguns inscrevem jogos que não tem inovação quase nenhuma. Queremos ver jogos que vão propor coisas diferentes e com potencial comercial.
Nossa expectativa é cada vez mais alta. Ainda temos jogos lindos que serão publicados pela edição anterior [do IGF]. O Astrea: Six-Sided Oracles [do estúdio Little Leo Games], o Just King [VISH Game Studio]. São jogos que vão funcionar muito bem nas interfaces móveis.
Seria o nosso ponto de virada: um jogo incrível que já está em outra plataforma e que casasse muito bem com o dispositivo móvel. É esse game que vai catapultar o estúdio para outro patamar.



