Em um vídeo curto publicado no canal do Xbox no YouTube nessa terça-feira (17), a presidente de Xbox na Microsoft, Sarah Bond, anunciou a assinatura de um novo acordo de fabricação de dispositivos de próxima geração com a AMD. Não se trata exatamente de uma novidade, já que os chips da empresa estão nos consoles da Microsoft pelo menos desde o Xbox One – o Xbox original e o Xbox 360 tinham CPUs da concorrente Intel. É, isso sim, um movimento de continuidade expandida.
A AMD, aliás, também está no Xbox Ally, anunciado recentemente em parceria com a Asus. Para sermos justos, também está em todos os dispositivos de games da concorrente e líder do mercado de consoles Sony desde o PlayStation 4. E ainda nos PCs gamers portáteis, como o Steam Deck, da Valve, Legion GO, da Lenovo, e até no sumido Zeenix, da brasileira Tectoy, nessa nova categoria que a empresa liderada por Lisa Su viabilizou e ajudou a criar.
Ou seja, o anúncio feito por Bond confirma um domínio absoluto do “time vermelho” sob os dispositivos de jogos dedicados na atualidade. A única exceção é a Nintendo, que escolheu a Nvidia como parceira tanto no Switch original como no sucessor e recém-lançado Switch 2.
É uma vitória da arquitetura x86, que está na imensa maioria dos processadores de PC. Mas também é um contraste, considerando que nos PCs gamers tradicionais, notebooks inclusos, a Nvidia domina com larga vantagem o mercado de placas gráficas (GPUs), tanto financeira como tecnologicamente falando, enquanto a Intel segue na frente em CPUs – apesar de ter perdido terreno para a AMD nos últimos anos.
Os chips de arquitetura ARM, que predominam em smartphones e tablets e têm players de peso como Qualcomm e Mediatek entre os principais apoiadores, até aqui falharam na tentativa de se mostrarem viáveis para jogos nos ainda poucos notebooks que equipam, e cujo foco repousa na produtividade e no uso corporativo. Nos desktops sequer apareceram.
Em dispositivos “fechados”, ou OEM, no jargão corporativo, a opção da Microsoft (e provavelmente da Sony também) pela AMD indica um movimento de continuidade em termos de arquitetura para os dispositivos de jogos de próxima geração. E, nas entrelinhas, faz supor uma capacidade da AMD de balancear poder gráfico e de processamento com, claro, preço – afinal, em consoles e dispositivos para games o custo de produção é fator chave para o sucesso comercial e a rentabilidade.
Mas, ao menos com certeza no caso da Microsoft, significa algo mais.
Estratégia multi-Xbox
No vídeo, Bond não se aprofunda muito nas razões técnicas ou comerciais da continuidade com a AMD (é um vídeo promocional, no fim das contas). Diz que a “parceria estratégica para múltiplos anos” tem como objetivo não só permitir acesso aos jogos de todas as gerações anteriores em máquinas atuais (a tal da retrocompatibilidade), mas também de diversas naturezas – consoles, desktops, notebooks, portáteis e servidores rodando jogos na nuvem.
A AMD não comentou oficialmente (ainda) a notícia. Já há algum tempo se sabe que a Microsoft terá uma nova geração de consoles, mas o vídeo de Bond faz supor que o anúncio dos novos Xbox está próximo. Ou já está acontecendo.
“É por isso que estamos investindo na nossa linha de hardware de próxima geração”, diz a executiva logo no começo do vídeo. A ideia com a AMD é “codesenhar silício [chips] através de um portfólio de múltiplos dispositivos, incluindo a nossa próxima geração de consoles Xbox na sua sala e nas suas mãos”.
Ou seja, Xbox não é mais um console, mas uma linha de dispositivos – o que, convenhamos, também não é exatamente novidade, já que os Xbox Series são dois: o S e o X. Mas não estamos mais falando só de consoles.
Bond cita também o “poder da IA” na estratégia de entregar uma “próxima geração de inovação em gráficos” e em “qualidade visual”. Os produtos mais recentes da AMD (e da concorrência) contam com núcleos dedicados e processamento para inteligência artificial, as NPUs. A IA nos games tem sido usada até aqui sobretudo para gerar quadros adicionais e aumentar a resolução dos jogos, mas a expectativa é que a tecnologia entregue muito mais que isso no futuro.
Essa estratégia, no fundo, parece fazer sentido para empresa de Cupertino. Já há algum tempo os movimentos da Microsoft nos games pouco tem a ver com exclusividades: a ideia é entregar software onde quer que o jogador queira consumi-lo. Vale tanto para dispositivos (PlayStation e Switch) como para lojas concorrentes (Steam). Em muitas medidas é algo que combina com a vocação histórica da Microsoft, nascida e criada em trono de um modelo de negócios de licenciamento e assinatura. É a dona do Windows, do Office e da Azure – essa última uma das maiores infraestruturas de nuvem do planeta.
Mas crescer no mercado de games, como bem provam a Nintendo e a Sony com suas franquias imediatamente reconhecidas até por quem nunca jogou na vida, significa ter títulos capazes de vender sistemas – ou, que seja, serviços como o Game Pass. O futuro do Xbox invariavelmente depende disso, de atrair a atenção e os bolsos dos jogadores e retê-los. O que pressupõe bons jogos.
Não por acaso a companhia fez aquisições bilionárias nos últimos anos, como a da Zenimax (com a Bethesda a reboque) e da Activision Blizzard King. No capitalismo, com dinheiro suficiente talento também se compra. Mas curiosamente o vídeo de Bond pouco fala sobre os jogos, apenas sobre “a experiência Xbox”, seja lá o que isso signifique. O tempo dirá.



