Há mais de 15 anos, a Brasil Game Show criou uma relação poderosa entre o feriado de Dia das Crianças e videogames. E isso é uma conquista inegável, extremamente relevante para o mercado de games no nosso País.
E ela corre grandes riscos de acabar.
Associar um feriado nacional com os games é importante para os negócios, mas principalmente para a cultura gamer. Cria-se uma expectativa e conexão imediata entre o público mais importante para qualquer tipo de entretenimento e a indústria de jogos.
Quem ignora essa conquista certamente não acompanha o fiasco que o “Dia do Gamer”, em 29 de agosto, tem sido, principalmente para o varejo, nos últimos anos.
Logo, quero deixar claro o reconhecimento em como a BGS é protagonista nessa história. Foi por meio dela, seus organizadores, apoiadores e, especialmente, público que a conexão virou uma tradição.
Tanto é que em 2023 mais de 320 mil pessoas compareceram ao evento, a maior edição da história do evento. Em 2026 o público novamente compareceu. São veteranos e novatos atraídos não por uma atração em específico, mas pela forte conexão entre um evento de games acontecer ali, no feriado do Dia das Crianças, em outubro.
Mas precisamos conversar sobre a saúde da BGS. Em 2026, todas as dificuldades que o evento está enfrentando ficaram absurdamente explícitas. E são várias: momento complicado da indústria, competição com a Gamescom Latam, desaceleração da economia global e até mesmo problemas internos da organização.
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Quem esteve na BGS esse ano sabe que, sem que aconteçam grandes mudanças, o evento não deve conseguir recuperar o prestígio que construiu. E não por culpa do público, que continua aparecendo. Mas foi, no mínimo, constrangedor ver a ausência de conteúdos relevantes no evento. E a barra é alta graças ao histórico criado pela própria organização. Afinal de contas, não se pode esperar pouco do maior evento de games da América Latina.
Já participei de treze edições da BGS representando diversos clientes da minha agência e frequentemente converso com colegas de indústria que também participaram: publishers, marcas não endêmicas, agências, criadores, indies.
É quase unânime o sentimento de frustração em relação ao evento, seja pela dificuldade em negociar, os custos desafiadores e a abordagem poucas vezes amistosa. A BGS sequestrou o que ela mesmo criou e, no processo, virou refém de si própria carregando consigo toda a indústria.
Se não fossem Nintendo e SEGA, a BGS 2026* teria sido um enorme desastre, criando o risco de perdermos um evento que continua tendo uma fortíssima conexão entre games e o Dias das Crianças. E quem conhece os vencimentos dos contratos das duas publishers sabe que talvez essa seja uma bomba relógio muito prestes a explodir.
A BGS conseguiu criar algo que, para mim, é mais importante que a própria existência do evento. E, enquanto indústria, temos que fazer uma reflexão dos graves custos que vamos pagar caso não tenhamos mais um evento forte acontecendo nessa data do calendário.
Precisamos trabalhar em conjunto para não perder essa conexão entre outubro e videogames no Brasil. Ainda que a Gamescom Latam seja um evento importante, convenhamos, o primeiro semestre não é o melhor momento para o calendário global das publishers.
E pelo fato da CCXP, dos mesmos organizadores, Omelete Company, acontecer em dezembro, é pouquíssimo provável que eles tentem “pegar” a data de outubro.
Eu ainda acredito que o mercado brasileiro é capaz de comportar dois grandes eventos de games por ano. Mas algo não está dando certo com a BGS. Precisamos resgatar essa data enquanto ainda há tempo. Seja via BGS ou qualquer outra iniciativa.
* Visitei a BGS 2026 na sexta (9) a convite da organização e voltei na segunda (12) com ingresso próprio.



