Uma das mais elogiadas contribuições para o Brasil do Marco Legal dos Games, aprovado em 2024, é o de reconhecer os jogos digitais como ferramentas legítimas para uso e fomento em áreas estratégicas, como a saúde e a educação. Esse entendimento permite, entre outras coisas, o surgimento de jogos como Serrapolis, desenvolvido por uma parceria entre a empresa paulistana Dyxel Gaming e o site de notícias Drops de Jogos.
Lançado gratuitamente no fim de agosto e disponível na plataforma Itch.io, Serrapolis carrega a estética de uma aventura 2D desenhada, que transforma o município de Serra Negra, estância hidromineral e ponto turístico “de inverno” no interior de São Paulo, em uma história interativa pensada para crianças, adolescentes e jovens. O jogo é fruto de uma pesquisa que combina história e cultura, e se inspira em marcos e pontos turísticos da cidade.
Segundo os desenvolvedores, o game tem como proposta ser acessível, e por isso conta com recursos como audiodescrição e linguagem adequada ao público infantojuvenil. A trilha sonora reúne referências portuguesas e italianas, o que contribui para “a criação de uma atmosfera acolhedora e nostálgica”.
A ideia foi aproximar as “novas gerações” da história e das características de Serra Negra usando minijogos, desafios e cenários da paisagem urbana e cultural do município usando os games como linguagem. O desenvolvimento do projeto contou com apoio da prefeitura da cidade e da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, do Ministério da Cultura e do Governo Federal. Entre a aprovação do edital e o lançamento, foram 14 meses de trabalho de uma equipe de cerca de 10 pessoas.
“Uma das funções que mais levou tempo foi a pesquisa, pois percebemos que haviam pouquíssimos registros sobre os pontos turísticos locais – praticamente não encontrávamos referências históricas sobre esses lugares, exceto por placas de inauguração ou reinauguração”, conta Érika Caramello, CEO da Dyxel e professora de criação de jogos. “Nossa preocupação sempre foi trazer um material de qualidade para que os jogadores realmente tenham uma experiência de conhecer Serra Negra através do game.”

Segundo Érika, o jogo é um projeto piloto que abre caminho para produtos relacionados, alguns deles já em produção. E há planos de licenciamento e ampliação do jogo, inclusive para novas plataformas. “… jogos como Serrapolis contribuem para revitalizar o interesse do público pela cidade, renovando o seu apelo”, diz ela.
A executiva conversou com o The Gaming Era sobre o projeto, em entrevista exclusiva concedida por e-mail. Confira:
The Gaming Era: Quanto tempo Serrapolis levou para ficar pronto? Quantas pessoas trabalharam nele?
Érika Caramello: O desenvolvimento do jogo levou, da aprovação do edital ao lançamento, 14 meses. Envolveu uma equipe de 10 pessoas, da pesquisa ao marketing, passando por design, roteiro, game design, som etc. Se a equipe estivesse dedicada full time, sem outros trabalhos, levaríamos até quatro meses.
TGE: Qual foi o valor arrecadado? Foi a única fonte de financiamento?
Érika: O financiamento público, especialmente por meio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura do Ministério da Cultura com o apoio da cidade de Serra Negra, foi de R$ 20 mil, verba inicial para viabilizar o projeto piloto. No entanto, projetos dessa magnitude exigem também recursos próprios e colaborações voluntárias de amigos, como Maristela Bizarro (pesquisa e texto para o público infantojuvenil), Pedro Zambarda e Vicente Darde (imprensa e apoio em editais), Catarina Brainer (demandas administrativas e de marketing) e Stamy Alves (design), além do meu acompanhamento de perto da criação à publicação.
Embora os editais sejam cruciais, é importante destacar que os valores ainda estão muito abaixo do praticado pela grande indústria, caracterizando um mercado independente e experimental. Produzir games não é uma tarefa rápida e barata, mas a expertise da Dyxel de experimentar novos modelos de negócios na área de games, assim como o acesso à rede de game devs recém-chegados ao mercado, tornaram isso possível.
TGE: E quais foram os maiores desafios da produção?
Érika: Uma das funções que mais levou tempo foi a pesquisa, pois percebemos que haviam pouquíssimos registros sobre os pontos turísticos locais – praticamente não encontrávamos referências históricas sobre esses lugares, exceto por placas de inauguração ou reinauguração. A exceção foi o teleférico, que é a única atividade paga retratada no jogo e que possui um folder distribuído aos visitantes.

Nessa missão, o que mais nos ajudou foi um livro de Alcebíades Felix, intitulado Alcebíades disse e a história confirma: a história de Serra Negra, que nos deu um norte para resgatar a história dos pontos turísticos presentes no jogo, graças ao empréstimo do acervo da vereadora Anna Beatriz Scachetti. Também fizemos diversos registros fotográficos em uma visita à cidade em 2025, para retratar com fidelidade as paisagens locais.
Nossa preocupação sempre foi trazer um material de qualidade para que os jogadores realmente tenham uma experiência de conhecer Serra Negra através do game.
TGE: Por que tornar o jogo gratuito? Era uma exigência de edital?
Érika: Não, o edital não exigia que o jogo fosse gratuito. Essa foi uma opção estratégica para ampliar o público-alvo, tanto da Dyxel, quanto do Drops de Jogos, garantindo acesso mais amplo aos jogadores. Ao lançar este projeto piloto, conseguimos abrir caminho para produtos relacionados, alguns já em fase avançada de produção.
Além disso, há planos de licenciamento e ampliação do jogo, tornando essa uma decisão estratégica.
TGE: Pretende lançar para outras plataformas?
Érika: Atualmente, o jogo está disponível para web, desktop PC (Windows) e Mac, além de Android. iOS será a próxima plataforma que pretendemos expandir.
TGE: Para você, qual a importância de poderes municipais como o de Serra Negra investirem em games?
Érika: Trata-se de uma questão de resgate histórico. A memória pode se manifestar em diversos formatos, e jogos como Serrapolis contribuem para revitalizar o interesse do público pela cidade, renovando o seu apelo.
Serra Negra é tradicionalmente associada a tratamentos de saúde devido às propriedades de suas águas, o que atrai o turismo de um público mais maduro ou familiar. No entanto, é importante também atrair o público infantojuvenil, que muitas vezes acompanha as famílias.

Chegar a esse público com formatos inovadores, como jogos interativos, é fundamental para oferecer uma experiência turística mais completa, indo além do aspecto puramente comercial e valorizando a memória e a cultura locais.
TGE: Além da disponibilização para o público, existe a pretensão de usar o jogo em iniciativas educacionais no município? E se sim, pode falar um pouco a respeito?
Érika: Já estamos em negociação com representantes de Serra Negra para levar o jogo às escolas. O material de referência que utilizamos, como o livro de Alcebíades, tem linguagem voltada para o público adulto. Então, a adaptação desse conteúdo para o público infantojuvenil facilita este ingresso. Inclusive, temos um projeto de livro derivado do jogo, com histórias ampliadas dos locais retratados.
TGE: Qual o futuro do Serrapolis? Expansões ou novidades previstas? Participação em eventos e outros editais?
Érika: Além dos produtos afins da franquia, temos alguns eventos planejados. Participaremos do evento do Dia das Crianças em Serra Negra, quando lançaremos oficialmente o jogo na cidade, com atividades para os munícipes e o gameplay do prefeito municipal, que confirmou presença. Além disso, pretendemos participar da próxima PerifaCon e de outros eventos que surgirem.
Paralelamente, estamos participando de novos editais, não apenas para ampliar o jogo em Serra Negra, mas também para outras cidades serranas, com planos de expansão internacional. Aliás, o jogo foi concebido com essa ideia de ampliação – por isso o nome do produto.



