O metaverso de Schrödinger

Vale do Silício tentou no ápice da pandemia produtificar um dos comportamentos mais antigos dos games, mas falhou, escreve Lucas Patricio
metaverso, metaverse, meta, mark zuckerberg
Mark Zuckerberg e seu avatar para o metaverso. Foto: Divulgação, Meta

Você já ouviu falar do famoso “Gato de Schrödinger”? O experimento do físico Erwin Schrödinger apresenta um paradoxo de como a mecânica quântica permite que existam coisas em múltiplos estados simultaneamente, citando que um gato dentro de uma caixa pode estar, ao mesmo tempo, vivo ou morto.

E se, ao invés de um gato, colocássemos o metaverso dentro da caixa. Eu te pergunto: estaria ele vivo ou morto?

Metaverso foi o termo queridinho dos “tech bros” há alguns anos. Mark Zuckerberg talvez tenha sido seu maior entusiasta: investiu aproximadamente US$ 80 bilhões na empreitada e literalmente mudou o nome de sua empresa para combinar com a ideia. E se você já tinha esquecido que “Meta” vem de metaverso, talvez o objeto dentro da caixa já esteja mesmo morto.

Marquinho chegou a definir o metaverso como “um reino digital onde as pessoas trabalhariam, socializariam e viveriam”  como a próxima grande fronteira da empresa. Ele chamou de “sucessor da internet móvel” e disse que a Meta seria “metaverse-first”. 

Provavelmente morto.

E não foi só o Facebook que entrou de cabeça: o Google investiu quase US$ 40 milhões em um fundo de private equity voltado a projetos de metaverso, Walmart contabilizou dezenas de pedidos de marcas registradas para o metaverso e marcas como Nike e Disney criaram suas próprias unidades de negócio dedicadas.

Só que os investimentos globais no metaverso despencaram de US$ 7,6 bilhões em 2022 para US$ 707 milhões em 2023. Em 2023, rodadas de investimento em 278 empresas de metaverso levantaram apenas US$ 530 milhões, uma queda de 87% em relação a 2022; o menor valor anual desde pelo menos 2018, segundo a S&P Global.

É, muito possivelmente morto.

No entanto, se a gente ampliar um pouco o significado de metaverso para algo que não é (somente) um termo especulativo (e talvez um conveniente bode expiatório que o Facebook teria usado para desviar as atenções das seríssimas alegações de infringir privacidade justamente na mesma época) pode ser que ainda exista vida dentro dessa caixa.

Há poucos dias, a Epic Games anunciou a chegada da Unreal Engine 6, uma atualização numerada do seu motor gráfico, que é o mais utilizado do mundo. Diferentemente da última vez que isso aconteceu, em 2022, a nova versão dessa vez parece mais um incremento premium do que algo completamente inovador.

Uma das principais novidades anunciadas até agora é a maior integração entre as ferramentas tradicionais e as da UEFN, a versão simplificada do motor gráfico para criação de experiências dentro do Fortnite.

Não precisa ser um físico quântico para juntar os pontos e entender a direção que a Epic está dirigindo esse barco; Fortnite não só quer um pedaço da torta da “creators economy” de Roblox. A Epic quer ser a dona da torta inteira!

Roblox não é um jogo, é uma plataforma onde as pessoas jogam, socializam e trabalham… Eu acho que já escutei essa definição em algum lugar.

Sim, surpresa: a cobiçada torta se chama metaverso. Ta-dah!

Uma plataforma que permite que as pessoas criem suas próprias experiências em ambientes imersivos altamente sociáveis e personalizados é uma das mais antigas definições de metaverso. Já era assim desde a época do Ultima Online, passando por Ragnarok, WoW, Destiny e tantos outros jogos.

O que o Vale do Silício tentou fazer no ápice da pandemia foi produtificar um dos comportamentos mais antigos dos games. Só que massificar esse comportamento exige algo que ninguém parece ter priorizado: motivação.

Seu sobrinho entra no Roblox ou nos mapas personalizados do Fortnite para jogar com amigos por um motivo muito simples: é divertido, diverso e descentralizado. Exatamente o oposto de tudo que a Meta tentou fazer.

A Unreal Engine 6 ser desenvolvida pensando em dar ainda mais ferramentas para as pessoas criarem experiências é um forte sinal que ainda há muita esperança para o que há dentro da caixa.

Talvez, esteja vivo e não se pareça nada com a descrição que fizeram.

quadrados alinhados verticalmente ao lado esquerdo da caixa de newsletter

Participe da Era

Assine nossa newsletter
e receba todas nossas atualizações por email.
Obrigado pela sua assinatura! Ops! Algo deu errado... Tente novamente!

Participe da Era

Assine nossa newsletter
e receba todas nossas atualizações
por email.

Obrigado pela sua assinatura! Ops! Algo deu errado... Tente novamente!