Este é o segundo artigo de opinião de uma série sobre a política de desenvolvimento da indústria de games e esportes eletrônicos na Arábia Saudita. Se no primeiro texto discutimos porque o país decidiu entrar com força nesse mercado, agora o foco é entender como isso foi feito na prática. Mais especificamente: quem são as empresas envolvidas, quando foram adquiridas ou receberam investimento, quanto custaram e de onde vieram.
Quando se olha a estratégia saudita com mais atenção, fica claro que não se trata de um movimento pontual. É uma construção ao longo de anos, com decisões coordenadas que começam ainda por volta de 2020 e ganham escala rapidamente depois disso.
Um dos primeiros passos relevantes aconteceu em 2020, quando o fundo soberano saudita, o PIF, começou a comprar participações minoritárias em grandes empresas listadas em bolsa. Entre elas estavam Electronic Arts (EA), Take-Two Interactive e Activision Blizzard.
Naquele momento, não eram aquisições completas, mas participações financeiras estratégicas. Estima-se que essas posições tenham somado alguns bilhões de dólares e marcaram a entrada inicial do país no setor.
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A Electronic Arts, fundada nos Estados Unidos em 1982, já era uma gigante consolidada quando os sauditas entraram como investidores. A empresa sempre pertenceu a acionistas públicos, negociada em bolsa. Ao adquirir participação, o PIF passou a ter influência indireta em uma das maiores produtoras de jogos do mundo, responsável por franquias globais como FIFA (hoje EA Sports FC), The Sims e Battlefield. O valor de mercado da EA variava entre US$ 35 e 50 bilhões nesse período.
A Take-Two Interactive, também americana e listada em bolsa, seguiu a mesma lógica. Fundada em 1993, ela controla franquias como Grand Theft Auto e NBA 2K. O investimento saudita aqui também foi minoritário, mas estratégico. A empresa já valia mais de US$ 20 bilhões, e o interesse fazia sentido: GTA é uma das propriedades mais lucrativas da história do entretenimento.
Ainda em 2020 e 2021, o PIF também adquiriu cerca de 5% da Nintendo, empresa japonesa centenária e uma das mais tradicionais da indústria de games. Essa participação, avaliada em alguns bilhões de dólares, reforçou a estratégia de presença global, inclusive em mercados asiáticos.
Novo patamar
O movimento, no entanto, muda de escala a partir de 2022. É nesse momento que a Arábia Saudita deixa de ser apenas investidora passiva e começa a adquirir empresas inteiras.
Em janeiro de 2022, o grupo Savvy Games, controlado pelo PIF, anunciou a compra da ESL Gaming e da FACEIT por aproximadamente US$ 1,5 bilhão. As duas empresas eram líderes no setor de esports.
A ESL, fundada na Alemanha, organizava torneios globais. A FACEIT, com base no Reino Unido, operava plataformas competitivas online. Ambas pertenciam a investidores privados e fundos de venture capital antes da aquisição. Após a compra, foram integradas na ESL FACEIT Group (EFG).
Esse movimento foi importante porque marcou a entrada direta da Arábia Saudita no universo competitivo dos games, não apenas como investidora, mas como operadora.
No ano seguinte, em 2023, veio uma das aquisições mais relevantes: a compra da Scopely por cerca de US$ 4,9 bilhões. A empresa, fundada nos Estados Unidos em 2011, era controlada por investidores privados e fundos de venture capital. Especializada em jogos mobile, representa o modelo de negócios mais lucrativo da indústria atual, baseado em monetização contínua. Aqui, o movimento saudita foi claro: entrar forte no segmento que mais cresce.
Em 2024, o portfólio continuou se expandindo com investimentos adicionais e aumento de participações em empresas globais. O PIF reforçou posições em empresas já existentes e ampliou sua presença no setor mobile e de infraestrutura.
Já em 2025 e 2026, o movimento ganha ainda mais força com a aquisição da Scopely expandida e novos ativos, além da compra da Moonton, estimada em cerca de US$ 6 bilhões. A Moonton, originalmente fundada na China e depois controlada pela ByteDance (empresa dona do TikTok), era responsável por Mobile Legends. Ao adquirir a empresa, a Arábia Saudita não só entrou em mercados emergentes, mas também assumiu controle de uma das maiores bases de jogadores do mundo em regiões fora do eixo EUA-Europa.
Esse detalhe é importante. Diferente de outras aquisições, aqui não se trata apenas de um ativo financeiro, mas de acesso direto a comunidades massivas na Ásia e em países em desenvolvimento. Ao longo desse processo, a estratégia foi ficando mais clara. Primeiro, participações minoritárias para entender o mercado. Depois, aquisições completas para ganhar controle. E, por fim, integração entre diferentes partes do ecossistema.
Construção gradual
Hoje, somando participações e aquisições, o portfólio saudita em games ultrapassa US$ 80 bilhões em valor estimado. Isso inclui empresas públicas, privadas e operações diretas no setor de esports.
O grande acerto está na construção gradual. Não foi um movimento impulsivo, mas uma entrada estruturada ao longo de vários anos.
O risco, por outro lado, está na complexidade dessa operação. Cada uma dessas empresas tem cultura própria, modelo de negócio diferente e dinâmica específica de mercado. Integrar tudo isso sob uma visão estratégica única é um desafio enorme.
No fim, o que a Arábia Saudita construiu não foi apenas um conjunto de investimentos. Foi uma presença distribuída em toda a indústria global de games, com raízes nos Estados Unidos, Europa e Ásia.
E isso muda completamente o jogo.



