Pelo menos 17 profissionais brasileiros foram afetados na última rodada de demissões promovida pela Epic Games no fim de março, e que atingiu no total cerca de mil pessoas em diferentes escritórios e funções ao redor do mundo. O número é verificável a partir de uma página, a Awesome People List, criada com o objetivo de ajudar os demitidos a se recolocarem no mercado de trabalho. Quase metade (481 pessoas) estão cadastradas na plataforma criada pelo gamedev também demitido Lee Graham.
A lista foi criada a partir de uma planilha divulgada online coletivamente pelos próprios desenvolvedores. O número de brasileiros pode ser ainda maior, já que a adesão ao site é voluntária. Parte dos afetados ouvidos pelo The Gaming Era – entre brasileiros e estrangeiros – manifestou frustração com o ocorrido, mas narrou uma boa experiência de trabalho no escritório. Nenhum quis se pronunciar publicamente sobre o ocorrido, mas disse estar recebendo suporte da empresa.
Procurada pelo TGE, a Epic Games disse que não revela quantos funcionários foram demitidos por região e/ou escritório. A empresa está distribuída entre América do Norte (EUA e Canadá), Europa (Alemanha, Suécia e Inglaterra) e Ásia (China e Coreia do Sul), mas também na Austrália e no Brasil – por aqui, o escritório no Rio Grande do Sul é fruto da aquisição do estúdio Aquiris em 2023, depois renomeado para Epic Games Brasil.
O Aquiris é o responsável pelo memorável Horizon Chase – que junto com a versão aprimorada para consoles Horizon Chase Turbo serão excluídos das lojas digitais a partir de 1º de junho desse ano. O foco, segundo a própria publisher, ficará apenas em Horizon Chase 2, que segue disponível para dispositivos móveis, PC e consoles.
Mauricio Longoni, chefe da Epic Games Brasil, diz na resposta que a equipe local continua trabalhando no desenvolvimento de jogos como Fortnite, Rocket League e no Unreal Engine. Desde que o Aquiris foi adquirido, boa parte do esforço do estúdio estava em produzir experiências para Fortnite – o que deve continuar. “Juntamente com o restante da empresa, eles [os funcionários brasileiros] estão focados em criar experiências incríveis para a comunidade global”, diz o executivo.
Na mesma resposta enviada pela Epic, Cat McCormack, porta-voz da empresa, diz que no Brasil a empresa ofereceu aos demitidos dois meses de indenização adicional (a legislação brasileira prevê um mês para contratados em regime CLT), ou “pelo menos quatro meses de salário-base, com um valor maior dependendo do tempo de serviço”. Também plano de saúde estendido, com dois meses reembolsados pela Epic.
“Estamos acelerando o processo de aquisição de opções de ações até janeiro de 2027 e estendendo as opções de exercício de ações por até dois anos. Também estamos oferecendo serviços de transição de carreira, como coaching profissional, por meio de uma empresa terceirizada”, disse a porta-voz.
Lay-off global
O lay-off foi anunciado pela operação global da Epic Games no dia 24 de março. A decisão foi comunicada pelo CEO da empresa, Tim Sweeney, em carta depois replicada no blog da empresa. A principal razão dos cortes, segundo ele próprio, é a queda do desempenho recente de Fortnite, maior jogo como serviço e rainha dos ovos de ouro da empresa, além do cenário econômico geral desafiador.
Segundo o executivo, a queda no engajamento do battle royale vem desde o ano passado e teria gerado um desequilíbrio entre receitas e custos. Assim, segundo ele, a empresa precisou cortar cerca de “US$ 500 milhões identificados em contratos, marketing, e fechamento de algumas posições”.
“Alguns dos nossos desafios são exclusivos da Epic. Apesar de continuar sendo um dos jogos de maior sucesso do mundo, temos enfrentado dificuldades para entregar a magia de Fortnite de forma consistente a cada temporada; estamos apenas nos estágios iniciais de retorno aos dispositivos móveis e de otimização para bilhões de smartphones no mundo; e (…) levamos muitos golpes em uma batalha que está apenas começando a dar frutos para nós e para todos os desenvolvedores”, diz Sweeney, que ao final desse parágrafo está provavelmente se referindo aos longos anos de batalha judicial contra players como Apple, Google e Samsung.
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Segundo o próprio Sweeney, os funcionários afetados pelas demissões receberão um pacote de indenização que inclui “pelo menos quatro meses de salário-base”, além de plano de saúde estendido e pago pela Epic. Não é a primeira demissão recente da empresa: em setembro de 2023 haviam sido mandados embora 830 funcionários, ou cerca de 16% da força de trabalho da empresa na época.
O faturamento anual mais recente da Epic Games conhecido é de US$ 5,7 bilhões em 2024, segundo estimativas de especialistas. Não há dados oficiais porque a Epic é uma empresa privada, ou seja, não é obrigada legalmente a divulgar resultados.
O fundador e CEO, Tim Sweeney, é dono da maior fatia da empresa (estimada em cerca de 40%), com a chinesa Tencent (28%), a Disney (10%) e a Sony (5%) como outros grandes proprietários.
Mais demissões
As demissões na Epic Games nem de longe foram as únicas recentes. Esse tipo de movimentação é esperada nessa época do ano, quando a maioria das empresas norte-americanas está encerrando seus anos fiscais, e as demissões podem se intensificar nos próximos dias, segundo especialista ouvidos recentemente pelo The Gaming Era. Além disso, a dificuldade de obter financiamento também aparece como razão para fechamentos.
Na última sexta-feira (3), a Piranha Games, desenvolvedora da franquia MechWarrior, demitiu 30% de seus funcionários, segundo o próprio CEO, Russ Bullock. Isso significa pouco menos de 40 funcionários. Segundo os executivos da empresa, a razão foi o desempenho abaixo do esperado para o jogo MechWarrior 5: Clans, lançado em outubro de 2024, mas que deve continuar recebendo atualizações via DLC.
Já a Eidos Montreal, desenvolvedora de Deus Ex e Marvel’s Guardians of the Galaxy, demitiu na terça-feira (31) cerca de 120 pessoas. O líder do estúdio, David Anfossi, também anunciou a saída após quase duas décadas. A empresa faz parte do Embracer Group – que também enfrenta dificuldades – desde que foi adquirido da Square Enix em 2022.
Um dia antes, na segunda (30), foi a vez do estúdio Ivy Road, do recém-lançado Wanderstop, anunciar seu fechamento após dificuldades para financiar seu próximo projeto, um jogo chamado Engine Angel. O Ivy Road foi fundado por figuras importantes do mercado indie: Davey Wreden (de The Stanley Parable), Karla Zimonja (de Gone Home) e C418 (de Minecraft), com suporte da publisher Annapurna Interactive. A página do estúdio revela que havia pelo menos 18 pessoas trabalhando.
Por último, a Sony havia anunciado na semana passado o fechamento do estúdio interno Dark Outlaw Games, criado em 2024 pelo veterano desenvolvedor de Call of Duty, Jason Blundell, além de outros desenvolvedores experientes. Cerca de 50 pessoas foram afetadas, segundo o jornalista Jason Scheier, depois confirmado pela PC Gamer. O estúdio era focado no desenvolvimento de jogos mobile e tinha pelo menos um projeto em andamento.
Foi o segundo estúdio interno fechado pela Sony em menos de um mês: em abril foi a vez da Bluepoint Games, responsável pelos remakes de Demon’s Souls e Shadows of the Colossus. Cerca de 70 funcionários perderam seus empregos.
* atualizada às 15h30 para corrigir a participação acionária da Tencent na Epic Games, de 30% para 28%; pedimos desculpa pela imprecisão



