Do sambódromo ao servidor: por que marcas falham ao ignorar rituais de comunidade

Para Jonathan Pereira, senso de pertencimento se manifesta em símbolos culturais como o carnaval
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Em 2025, carro alegórico da Rosas de Ouro, de SP, homenageou os games. Foto: Reprodução, TV Globo

Olhar para o Carnaval apenas como festa sazonal é cometer o mesmo erro de quem olha para os games apenas como joguinho. Ignora-se a potência da engenharia social que sustenta essas duas massas.

Historicamente, o Carnaval é a expressão máxima de identidade e memória. Mas ele não acontece por acaso em fevereiro: é um processo construído coletivamente durante todo o ano, nos ensaios de quadra, na confecção das fantasias e na hierarquia da bateria. É nessa repetição de rituais que nasce o pertencimento.

Essa mesma lógica opera, com precisão cirúrgica, no território onde atuo diariamente: os games. Não é coincidência que 82,8% da população brasileira se identifique como jogadora, segundo a Pesquisa Game Brasil (PGB) 2025.

Esse recorde histórico prova que o segmento deixou de ser nicho para se tornar o novo mainstream cultural. Mas, assim como na avenida, o segredo não está no volume de pessoas, e sim na profundidade da conexão.

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No cenário competitivo, especialmente em comunidades como as de Counter-Strike, ninguém se conecta apenas para atirar. Os jogadores entram no servidor para construir reputação. Ali existem dialetos próprios (o “rush”, o “eco”, o “clutch”), símbolos compartilhados e um código de ética não escrito que separa quem é turista de quem é nativo.

Moeda do pertencimento

Tanto no Carnaval quanto nos esportes eletrônicos (os eSports), pertencer exige compreender limites. São ecossistemas que acolhem, mas que também expurgam quem não respeita a cultura local.

No samba, atravessar o ritmo da bateria quebra a harmonia. No game, ignorar a estratégia do time rompe a confiança.

Antes de um grande campeonato, a tensão nos bastidores de um time espelha a concentração de uma escola de samba na armação. A performance é apenas a ponta do iceberg de um esforço monumental de colaboração e alinhamento.

O pertencimento se manifesta nos símbolos. Se na avenida ele brilha nas cores do pavilhão, no nosso mundo ele aparece nas skins, nas tags de clã e nos avatares. São crachás silenciosos que dizem “eu faço parte disso, eu entendo essa dor e essa glória”.

Recado para o mercado

Para quem está de fora, especialmente marcas que tentam “hackear” a atenção dessas audiências, fica a lição estratégica: o senso de pertencimento, seja no calor da Sapucaí ou na tensão de uma final de um Major, é blindado contra oportunismo.

Entender essa lógica não é apenas uma dica cultural, é um imperativo de negócios. Conexões autênticas não se compram com mídia, se conquistam quando você aprende a respeitar e, principalmente, a valorizar os rituais da comunidade.

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