Deputados dos Estados Unidos pediram essa semana que a Comissão Federal de Comércio (FTC) – órgão responsável por analisar questões concorrenciais no país – faça uma análise detalhada da proposta de aquisição da Electronic Arts por um consórcio liderado pelo fundo soberano da Arábia Saudita, o Public Investment Fund (PIF). O negócio de cerca de US$ 55 bilhões foi anunciado em setembro do ano passado e tem previsão de conclusão em 2027.
O grupo é formado por 46 deputados democratas ligados ao Congressional Labor Caucus (semelhante a uma frente parlamentar que busca proteger direitos trabalhistas). Eles argumentam que o negócio pode afetar a concorrência, os empregos e a competitividade de longo prazo da indústria de games nos EUA.
Se concluída, a transação vai colocar a tradicional publisher estadunidense sob controle do PIF e de outros fundos, incluindo o Silver Lake e Affinity Partners, reforçando o avanço de capital saudita sobre o setor de jogos globais. [veja mais abaixo]
Na carta enviada à presidência da FTC, os parlamentares dizem ter “sérias preocupações” com os impactos da aquisição, e pedem que o órgão aplique um escrutínio rigoroso ao caso. Dizem ainda que há o risco de a operação causar cortes de custos, o que significaria demissões e fechamento de estúdios, além de potencial alinhamento de políticas trabalhistas entre empresas sob controle comum dos mesmos investidores.
O movimento se soma a questionamentos já feitos no Senado americano em 2025, quando senadores democratas pediram ao Departamento do Tesouro que avaliasse riscos de influência estrangeira e de segurança nacional ligados à compra da EA pelo PIF e parceiros.
Parlamentares e senadores levantam dúvidas sobre governança, transparência e uso de dados de milhões de jogadores caso a EA deixe de ser uma companhia aberta. Para eles, a empresa poderia passar a operar com menor transparência regulatória e estaria em posição de influenciar narrativas culturais por meio de jogos, incluindo conteúdos relacionados à história e à sociedade dos EUA.
O contexto político do negócio também tem sido alvo de atenção, especialmente pela presença da Affinity Partners, gestora de investimentos de Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump, como parte do consórcio comprador. Em correspondência oficial, senadores pediram esclarecimentos sobre eventuais comunicações entre o tesouro americano e Kushner antes do anúncio do acordo e questionaram se a participação dele teria como objetivo facilitar a aprovação da transação.
Expansão saudita
O avanço da Arábia Saudita sobre ativos estratégicos da indústria de games não é isolado e faz parte de um plano amplo de diversificação econômica e de fortalecimento dos setores de entretenimento, esportes eletrônicos e tecnologia do país árabe. O PIF já controla a Savvy Games Group, grupo que vem realizando aquisições e investimentos bilionários em publishers, organizadoras de eSports e plataformas de jogos, em linha com uma estratégia nacional chamada de Saudi Vision 2030.
The Gaming Era já falou do tema em ocasiões anteriores. O movimento do país árabe, governado por uma monarquia totalitária, altera a geopolítica dos games, ampliando o peso de fundos soberanos em decisões sobre conteúdo, torneios e infraestrutura digital.
Essa semana, por exemplo, a Arábia Saudita firmou um novo memorando de entendimento (MoU, na sigla em inglês) para fortalecer startups de jogos no país, conectando a Savvy Games Group ao hub futurista chamado NEOM. O acordo formaliza a integração entre o programa de incubação da Savvy e o Level Up Accelerator, da NEOM, ambos financiados pelo PIF. A ideia é ter um fluxo contínuo que vai da validação de protótipos ao estágio de aceleração e busca por investimento.
Esse tipo de articulação entre incubadoras e aceleradoras é comum em outros mercados desenvolvidos ou em desenvolvimento, como Coreia do Sul e países nórdicos – o Brasil também lançou recentemente uma opção semelhante, o Brazil Games Accelerator, criado em conjunto pela Abragames e pela ApexBrasil.
A diferença, no caso saudita, é a escala do capital disponível via PIF e o alinhamento formal com o estado, o que inclui metas específicas para participação do setor de games no PIB até 2030.
* com informações dos sites Insider Gaming, GameSpot, Game Developer, Engadget, Bloomberg, GamesIndustry.biz, VentureBeat, Kotaku e outros



