Não é mais tema de debate a potência brasileira no cenário de Rainbow Six Siege X, o shooter tático competitivo de maior sucesso da francesa Ubisoft. Nos últimos dois anos, foram três grandes eventos promovidos por aqui – o Six Invitational, em fevereiro de 2024, no Ginásio do Ibirapuera em São Paulo (com vitória da W7M); o Reload, em maio de 2025, no Rio de Janeiro (com vitória da FURIA); e a South America League, realizada no último fim de semana na Oca do Ibirapuera e vencida pela FaZe Clan.
Durante as competições – para ser mais preciso, na sexta-feira (5) –, conversei com Leandro ‘Montoya’ Estevam, diretor de eSports da Ubisoft para a América Latina. Comecei perguntando se existe alguma técnica ou segredo que explique o sucesso dos times brasileiros na modalidade. Lembro que, além das três conquistas mencionadas acima, o Invitational de 2025, realizado em Boston, nos EUA, também foi vencido pela brasileira FaZe Clan. E o de 2023, em Montreal, pela W7M.
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“Se eu soubesse a resposta saia da Ubisoft e fundava minha própria organização”, respondeu o executivo, rindo. “O brasileiro tem uma garra diferente”, continuou, mais sério. “Podemos especular várias coisas que proporcionariam esses resultados, mas eles [os brasileiros] têm essa garra de quem continua tentando. E a segunda coisa em que acredito é que nós idolatramos os grandes campões. Oscar [Schmidt], [Airton] Senna etc. São atletas que se tornam heróis. Os jogadores têm essa vaidade.”
Engajamento
É claro que a presença recorrente no Brasil também significa dinheiro e oportunidades. Para os times em prêmios: a FaZe Clan levou o “caneco” e um prêmio de US$ 40 mil, com a FURIA em segundo lugar levando US$ 20 mil. W7M e Team Liquid, terceiro e quarto lugar, levaram respectivamente US$ 15 mil e US$ 13 mil. As organizações também ganham com a exposição das marcas em suas camisetas, é claro. Mas também há oportunidades para a própria Ubisoft.
“A América Latina é uma região menos importante que Europa e América do Norte em termos de receita. Não só para a Ubisoft, mas para a indústria”, explica Montoya. “Quando a gente consegue ter três eventos em sequência, nos posicionamos globalmente por conta do entusiasmo da torcida e pela qualidade competitiva. E tem um terceiro item: o engajamento nas competições é maior, especialmente nas competições de comunidade.”
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Traduzindo para o bom português, ter uma comunidade engajada também significa uma série de oportunidades para os patrocinadores, sedentos por interações e ativações, e para a própria Ubisoft, considerando que parte relevante da receita do jogo vem de microtransações. É assim que as próprias equipes do jogo também recebem uma “renda extra” dentro do programa R6 Share, na medida em que vendem itens inspirados nas organizações.
“Uma das principais métricas de sucesso da Ubisoft é a quantidade de jogadores de uma região que se engajam em competições de comunidade, mesmo as mais simples. Esse alto engajamento proporciona que surjam novos atletas, e isso tem um valor grande”, explica o executivo. “E o jogador engajado dedicou muito mais tempo ao jogo, tem uma retenção maior, gastou mais com o game, então gera mais receita. É um cliente VIP.”
Essa retenção é particularmente importante para a Ubisoft desde que a nova versão de Rainbow Six Siege, a X, lançada esse ano, se tornou grátis para jogar (free to play, ou F2P, na sigla em inglês). Segundo Montoya, a quantidade de jogadores mais do que dobrou desde então, em parte graças à derrubada da barreira de entrada do preço.
No entanto, tornou-se um “desafio constante” manter um ambiente seguro para a comunidade. O engajamento qualificado ajuda a diminuir o problema.
Futuro
Montoya hesita em confirmar que tantos aspectos positivos automaticamente confirmam uma próxima edição de um campeonato de R6SX no Brasil, especialmente um com o mesmo tamanho do Invitational de 2024 – considerado pela própria Ubisoft um “benchmarking” para eventos de Rainbow Six Siege, com recordes de audiência física e online. “Existe a intenção de continuar trazendo”, disse.
O diretor garantiu que o incentivo aos torneios de comunidade por aqui, por outro lado, seguirá “em alta”, inclusive com financiamento direto para alguns deles, desde que certificados. Atualmente, explicou, qualquer marca, organização, criador ou página de comunidade pode submeter um torneio à Ubisoft. Se aprovado, ele passa a ser homologado, e dependendo do tamanho a publisher é capaz de injetar dinheiro para a premiação.
“É uma estratégia que vamos manter para o ano que vem. E alguns desses torneios vão receber uma espécie de pontuação para que as organizações que vencerem se classifiquem para torneios maiores”, conta o executivo, mencionando que o sistema já funciona com sucesso na Europa. “Como eles são um continente fragmentado, com muitos torneios diferentes, fizeram isso primeiro. Foi uma experiência boa, eles cresceram bastante.”

O executivo diz que também deve ser ampliado o programa R6 Share no ano que vem, expandindo de 20 para 22 organizações. “Essa quantidade de parceiros consideramos ideal para manter um fluxo de receita sustentável”, explicou.
Montoya também cita para o futuro uma “aproximação do mercado da China”, um dos maiores do mundo quando se trata de esportes eletrônicos. Pergunto se a criação do Vantage Studios, spin-off criado no começo de 2025 com a Tencent para concentrar as maiores franquias da Ubisoft – Assassin’s Creed, Far Cry e Rainbow Six – tem algum papel nisso.
“Não esperamos mudanças por conta da spin-off, mas sim uma aproximação maior entre os nossos games e os eSports. Hoje as duas iniciativas estão em diretorias separadas, e com a mudança haverá uma vertical inteira para as duas coisas”, explica. “Isso não significa que o estúdio vai seguir as determinações dos pro-players para balancear o jogo.”
Patrocínio e comunidade
A potência brasileira em Rainbow Six Siege X também é vantajosa para os patrocinadores do evento, entre os quais marcas endêmicas de peso – como Intel, Xbox Game Pass e Acer. Guilherme Faccio, gerente de marketing da Acer Brasil, também conversou com o The Gaming Era durante a South America League. E ressaltou que estar em eventos como esse é uma forma orgânica de trabalhar com a comunidade.
“Pelo fato termos duas linhas gamers, a Predator e a Nitro, nosso foco em gaming é muito forte”, explicou. “Estes dois anos de patrocínio [ao cenário de Rainbow Six Siege] casam diretamente com nosso posicionamento. (…) Uma marca que não é lembrada, reconhecida, não consegue crescer. É preciso conversar com o público no momento mais oportuno. Como no jogo que ele assiste.”

A empresa participou com os monitores usados durante o torneio, mas também promoveu ativações e entrega de brindes. Inserções de mídia durante as transmissões fizeram parte do pacote. “Queremos ser lembrados também por quem está assistindo em casa”, disse.
O executivo adiantou que o patrocínio da Acer aos eSports, e ao R6SX em particular, deve continuar no próximo ano.




