Pedro Zambarda é o muito provavelmente o mais combativo jornalista de games brasileiro. Em seu Drops – ou Drops de Jogos, para quem ainda tem saudade do nome deixado em abril desse ano – as notícias rápidas (por isso drops!) sobre o mercado de games, cultura pop e tecnologia se alternam com denúncias e posicionamentos de espectro político bastante claro: o de esquerda, sem medo de marcar posição.
O Drops, que também publica artigos e reportagens mais aprofundadas, foi fundado em março de 2015 como o site de games do portal Catraca Livre. Zambarda passou por veículos da grande mídia – como o TechTudo, da Globo, e o portal da Exame, da editora Abril – e outros segmentados (Olhar Digital, Whiplash), além da mídia progressista independente (DCM, The Intercept Brasil).
E faz parte da Rede Progressista de Games (RPG), que reúne desenvolvedores, empresas e entidades que lutam pelo avanço da área de games do Brasil – posição que foi premente sobretudo durante a tramitação da lei do Marco Legal dos Games.
Atramitação começou em 2021 a partir de um projeto do deputador federal Kim Kataguiri (União-SP). Avançou no Congresso cheio de “jabutis” – dispositivos estranhos ao objetivo da proposta de lei, e que no caso do marco dos games beneficiavam a indústria de apostas e os fantasy games – quase foi aprovado sem agradar parcela significativa do setor, especialmente a produtiva, para qual a lei é endereçada.
É aí que entra o Drops e a RPG – da qual Zambarda também é cofundador. Ambos fizeram parte de uma intensa mobilização, da qual também participaram associações, trabalhadores e apaixonados pelo setor, que alterou quase por completo o projeto inicial de Kataguiri, e que terminou relatado pela senadora Leila Barros (PDT-DF).
O texto acabou por se tornar um exemplo mundial de política pública de fomento setorial, especialmente no caso da indústria criativa. E é disso que se trata o livro Videogame Crash: do Marco Legal dos Games às Demissões em Massa (Editora Critical Hit Books), assinado por Zambarda e lançado em junho desse ano.
A ideia, segundo o próprio autor, foi “registrar fisicamente” as coberturas jornalísticas feitas pelo portal até a sanção da lei, em 2024.
“A grande lição [da tramitação do Marco Legal dos Games] é que é necessária consciência política e crítica para o setor de jogos eletrônicos, que infelizmente ainda está invadido pela extrema direita”, diz Zambarda, em entrevista ao TGE. “A lei 14.852 só adquiriu o formato socialmente benéfico no entendimento dos videogames pela entrada efetiva de atores de esquerda em sua formulação textual.”
Confira a entrevista a seguir:
The Gaming Era: Por que escrever um livro sobre o período de tramitação do Marco Legal? É uma forma de criar um documento histórico sobre o período ou tem outro objetivo?
Pedro Zambarda: O Drops passa, com o primeiro livro Videogame Crash, a ter uma parceria de longo prazo com a Critical Hit Books. O objetivo é registrar fisicamente muitas de suas coberturas jornalísticas.
A pauta do Marco Legal dos Games foi a mais relevante desde o surgimento da cena brasileira de jogos em 1981 e tende a consolidar o mercado, apesar das crises econômicas no interior do Brasil e as crises internacionais. Ela é uma ferramenta de segurança desse mercado, uma Constituição do setor, roubando levemente algumas das expressões ditas pelo camarada Márcio Filho, da ACJOGOS-RJ, em entrevistas.
TGE: Qual a grande lição oferecida pelo setor organizado de games após a luta travada durante a tramitação do Marco Legal dos Games?
Zambarda: A grande lição é que é necessária consciência política e crítica para o setor de jogos eletrônicos, que infelizmente ainda está invadido pela extrema direita. A lei 14.852 só adquiriu o formato socialmente benéfico no entendimento dos videogames pela entrada efetiva de atores de esquerda em sua formulação textual.
Se o projeto inicial do deputado Kim Kataguiri fosse aprovado, teríamos um desastre para o mercado como um todo – fora a tentativa de infiltração das apostas sob o nome fantasy games. As críticas à atuação da Abragames, que chegou a abrigar uma empresa de apostas, também foram necessárias na tramitação.
TGE: Na sua opinião, qual a grande vitória obtida pelo Marco Legal dos Games?
Zambarda: A vitória da tramitação mais imediata da lei é a possibilidade de mais editais para fomento e desenvolvimento de jogos eletrônicos. O governo Lula já tornou permanente a Lei Aldir Blanc [que institui a Política Nacional de Fomento à Cultura].
Mas são necessários outros incentivos. Se essa gestão regulamentar o CNAE [Classificação Nacional de Atividades Econômicas], muito possivelmente teremos um reconhecimento nacional e internacional da cena brasileira de jogos eletrônicos – com a possibilidade de se debater abertamente a situação dos trabalhadores.
TGE: E a grande derrota?
Zambarda: A grande derrota teria sido se o senador Irajá Silvestre (PSD-TO) tivesse mantido a relatoria do projeto de lei e mantido as apostas disfarçadas de fantasy games, sob um lobby de milhões em Brasília, agradando Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Nós revertemos esse quadro com a exposição pública.
E, no que depender desse Drops, a pressão continuará por todo o sempre.
TGE: Do ponto de vista jornalístico, qual foi o desafio de acompanhar esse tema?
Zambarda: Eu tenho 11 anos de carreira em veículo jornalístico político de esquerda, no DCM, já fiz reportagens para o The Intercept Brasil e UOL. Sou experimentado em buscar furos de reportagem.
O meu diagnóstico é o mesmo que falei para o Márcio Filho quando íamos perder o [a disputa pelo] Marco Legal dos Games. Falei em 2024: as disputas políticas se dão midiaticamente.
Tenho orgulho do Drops ser um veículo de comunicação declaradamente progressista, de esquerda, tendo o bônus e o ônus de ter seus posicionamentos políticos públicos. E, para além das opiniões, nos atemos aos fatos, sem esconder nada.
TGE: Qual sua expectativa quanto ao livro?
Zambarda: Livros não vendem muito no Brasil. Mas tive a grata surpresa de ter sido convidado para um evento de sindicalistas da CUT [Central Única dos Trabalhadores] e faremos lançamentos em mais eventos no segundo semestre, autografando exemplares, discutindo sobre games, tecnologia e comunicação.
Meu maior desejo já foi concretizado pela Critical Hit Books, que é a documentação física dessa história.
TGE: Soube que você já está escrevendo a segunda parte do livro. O que vai abordar e por quê?
Zambarda: O segundo Videogame Crash está em desenvolvimento. Meu objetivo com o novo livro é me deter mais na questão das demissões [layoffs]. Mas não posso dar mais spoilers do que isso!
Serviço
Livro: Videogame Crash: do Marco Legal dos Games às Demissões em Massa
Editora: Critical Hit Books
Preço: R$ 50, versão digital R$ 19,90
Onde: Amazon, Mercado Livre, Martins Fontes, Google Play, Kobo, outros




